Mostra de Cinema de São Paulo: Estranhos no paraíso

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Aos 40 anos, evento destaca trajetórias de mulheres e negros

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A adolescência feminina e a desilusão no filme Eu, Olga Hepnarová

 Voltar aos 17 anos, enrolar-se feito musgo na pedra e, à maneira dos versos de Violeta Parra, ser frágil como um segundo. O cinema escolhe a juventude. E entre os jovens, as mulheres. Não apenas a senhora brasileira Clara, de Aquarius, tem um combate político a realizar a partir de sua acreditada fragilidade. Na Polônia, Argentina ou Chile, fiéis a um espírito de época, as adolescentes aventuram-se por guerras sutis, psicológicas, como se alertassem para o futuro preocupante em que todos pisarão.

Entre as 322 obras oferecidas pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo deste ano, a se realizar entre 20 de outubro e 2 de novembro, filmes como Eu, Olga Hepnarová,Futuro Perfeito e Las Plantas entregam a elas a bandeira da reflexão, como, no passado neorrealista, as crianças a encamparam, em clássicos de Vittorio De Sica como Ladrões de Bicicletas ou Sciuscià.

“A reflexão é necessária”, diz a diretora da mostra, Renata de Almeida. “O cinema a favorece, embora ela não tenha sido feita longamente.” Organizadora das últimas 27 edições, entre as 40 que o evento completa agora, a curadora vê possibilidades cinematográficas na discussão de paralisias como a brasileira, que frequentemente tem negado aos negros, por exemplo, sua voz nos filmes.

Renata buscará compensar a falta com mesas-redondas e uma homenagem ao ator Antonio Pitanga, homem-cinema cujas interpretações marcaram a obra de vários diretores desde os anos 1960 e cuja carreira, quase indistinta da história desta arte no Brasil, sua filha Camila Pitanga e o diretor Beto Brant analisam no documentário Pitanga.

O mesmo a curadora fará pelas mulheres, embora ela não se entusiasme em particularizar a questão numa aba do evento. “Acredito no feminismo que se dá mais pelo exemplo que pelo ataque. E sou um pouco avessa a separar os assuntos. A mostra sempre teve essa tendência de apresentar ao espectador os filmes que ele não imaginaria ver. Se um longa-metragem aborda problemas femininos, quero mais é que uma mulher despreocupada dessa questão vá vê-lo. O mesmo para os filmes com temática gay. Desejo muito que um homofóbico os acompanhe.”

Desde o cartaz que anuncia o festival deste ano, o que está em discussão é o poder de fogo da mobilização social. Mas Renata de Almeida não necessariamente pediu que fosse assim, porque jamais se aventurou a conduzir o pensamento de quem dirige filmes. Ela apenas soube que o cineasta italiano Marco Bellocchio, a quem convidou para uma retrospectiva, aula-magna e workshop dentro do evento, também pintava, e pediu-lhe um desenho a ser usado no cartaz da mostra.

O que ele lhe deu como ilustração, a partir de seu filme Bom Dia, Noite, de 2003, foram punhos fechados, aqueles que o diretor Andrzej Wajda mostrou por toda a vida, encerrada aos 90 anos no domingo 9. Já havia sido decidida a homenagem a ele neste evento, por meio do Prêmio Humanidade, dentro de um ciclo de obras polonesas que também incluirá documentários e os filmes da série Decálogo de Krzysztof Kieslowski.

Wajda tem uma qualidade que Renata de Almeida repete ser imprescindível quando aplicada aos filmes. Ela busca as narrativas “fortes”. Cineasta a ter sofrido a censura em tempos de submissão à União Soviética, vencedor de um Oscar honorário em 2000, Wajda criou uma paisagem a refletir a trágica história polonesa, em imagens e texturas que evocaram a ocupação por seis anos dos nazistas até as imposições de Moscou e a libertação de seus ditames. É um artista com muito a dizer em momentos atuais, em que um golpe favorece a exclusão no Brasil e a mobilização se revelará imprescindível à mudança do estado de coisas.

Uma fortaleza será a exibição dos dois primeiros episódios da série The Young Pope, dirigida por Paolo Sorrentino. E os filmes com narrativas intensas escoarão por obras às vezes esquecidas. O convidado William Friedkin é diretor de Operação França, filme que completa 45 anos, e de O Exorcista, de imenso alcance nos anos 1970, protagonizado pela adolescente Linda Blair. Olga, Xiaobin e Flor, personagens de filmes em competição que a curadoria escolheu, raciocinam outros, mas ainda, exorcismos. São personagens que ora se protegem, ora se isolam do mundo, como na extraordinária fábula em preto e branco de Tomás Weinreb e Petr Kazda.

Lésbica na Polônia sempre católica, Olga se vê incapaz de empatia em um mundo que, acredita, a desprezou. Responsável por cuidar do irmão em estado vegetativo, no filme do chileno Roberto Doveris a evocar os quadrinhos, a personagem Flor vê os homens transformados em hospedeiros noturnos de plantas, que, como ela, buscam o prazer. Xiaobin, chinesa em Buenos Aires, estuda os tempos verbais da língua espanhola, contra a vontade da família, para encarar o amor, no longa de Nele Wohlatz.

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Barravento, filme exibido na mostra, conta história de menino negro

 

Evocadora desse entendimento feminino, a mostra Por Trás da Máscara – 50 anos de persona, filme de Ingmar Bergman (1918-2007) que trouxe à cena a afasia do personagem vivido por Liv Ullmann, diante das hipocrisias e violências sociais que a enfermeira interpretada por Bibi Andersson descreve, dá-se no Itaú Cultural até 6 de novembro.

No dia 20 de outubro ocorre a exibição única do filme, restaurado. A exposição sai pela primeira vez do Bergmancenter, fundação sueca que promove a obra do cineasta na Ilha de Faro, onde o diretor filmou obras tornadas clássicas e viveu por 40 anos, até a morte. Dirigida por uma brasileira, Helen Beltrame-Linné, a fundação expõe notas dos cadernos de trabalho de Bergman, trechos do roteiro, fotos e vídeos de making of.

Histórica, a mostra exibe um dos mais importantes documentários brasileiros recentes,Cinema Novo, de Eryk Rocha, vencedor do Prêmio Olho de Ouro no Festival de Cannes, e que entrará em circuito comercial no dia 3. O filme reflete sobre um período em que a arte cinematográfica investigou os problemas do País, em obras como as de Glauber Rocha, Leon Hirszman e Nelson Pereira dos Santos. Lucio Flavio, o Passageiro da Agonia, de Hector Babenco, vencedor da primeira edição da mostra, será reexibido em homenagem especial.

Obras vitais para a compreensão da história do evento, como Estranhos no Paraíso, de Jim Jarmusch, voltarão em nova cópia, e uma homenagem a Paulo Emilio Salles Gomes se fará por meio de exibições dos filmes ligados à sua crítica, no vão do Masp. Neste ano, além das itinerâncias pelo Sesc em todo o estado, 15 unidades dos CEUs receberão seleções de filmes. E o fechamento da mostra se dará, como tem sido tradição, no Parque do Ibirapuera, dia 2. Por lá passará em exibição ao ar livre a máquina arrasadora de Buster Keaton no clássico A General, de 1926.

 

 

Autor: Carta Capital
Foto: Reprodução