Pau grande, mas subjugado: vai ter preto humilhado sim

Do estereótipo do "bem dotado" à marginalização, o Brasil mostra ser o país do escárnio e da violência

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Ato contra a violência contra os negros: a desumanização está na raiz do problema. Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

Escrevi diversas vezes sobre o modo pelo qual a população negra é desumanizada. Desde representações que a colocam como inferior, violenta e objetificada até a violência que extermina um jovem negro a cada 23 minutos. Julgo importante discutir representação, pois a imposição dessas imagens justifica inclusive a morte. Não à toa homens negros são os principais suspeitos e alvos da polícia. Debater racismo é mais amplo do que se pode imaginar, pois as violências se dão das mais variadas formas.

Vamos analisar casos recentes. A produtora Padrão Carvalheira, do Recife, realiza um concurso de fantasias todos os anos. A “fantasia” vencedora foi a de homens brancos fazendo blackface e com pênis enormes, personificando o estereótipo racista de que homens negros são “bem dotados”, ou melhor, reduzindo seres humanos a seus órgãos genitais. Além de ser ofensivo por ser blackface, desumaniza o homem negro o animalizando.

Pessoas brancas nunca são representadas em grupo. Uma pessoa se fantasia de Hugh Jackman ou Luciano Huck, por exemplo. Os indivíduos são representados. No caso das pessoas negras, julgam que podem reduzir todo um grupo a somente um tipo de representação como se a diversidade fosse monopólio da branquitude.

Assim como pessoas brancas, somos altos, baixos, gordos, magros, pessoas com pênis de variados tamanhos. Mas esse é um dos cernes da desumanização: homogeneizar. Lembrando que homens negros eram utilizados como reprodutores no período colonial para “fornecer” mão de obra escravizada e manter lucrativa a exploração. Um absurdo que pessoas ainda se sintam autorizadas a cometer esse tipo de violência.

Os responsáveis pela produtora vão se esquivar dizendo que os vencedores foram eleitos pelo público, mas eles sequer deveriam ter autorizado a entrada na competição porque trata-se de um caso de racismo. Não há justificativa possível, pois além de autorizar, premiaram com uma viagem a Fernando de Noronha e postaram a foto em um blog recifense.

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Todos os negros são iguais? (Reprodução / Instagram)

Utilizam pessoas negras como escárnio, para serem ridicularizadas, ao mesmo tempo em que legitimam violência.

Um outro caso recente. No Twitter, um homem que se intitula produtor cultural enaltece o modo pelo qual policiais abordaram, segundo ele, um rapaz suspeito de roubar um aparelho celular. O rapaz foi algemado e colocado deitado de costas, evidenciando a truculência da ação. Mesmo que fosse suspeito, justifica ser tratado dessa forma?

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A violência contra os negros é referendada (Reprodução / Twitter)
Esse ímpeto sanguinário em relação a homens negros é o que faz com que muitos sejam amarrados em postes e espancados enquanto que em relação a homens brancos que cometem crimes o tratamento é outro. Só há sede de vingança quando é para o sangue negro ser derramado. A naturalização da violência é algo chocante.

Na semana passada, um outro caso me comoveu absurdamente. Uma mulher negra é agredida por seguranças de um supermercado por ser suspeita de roubar comida. Os homens se esbaldam em humilhá-la e agredi-la. Num dos países mais desiguais do mundo, uma mulher é punida por roubar para se alimentar. E, o pior, por pessoas que também são exploradas.

Aqueles homens não conseguiram perceber que estão a serviço de uma mesma lógica que também os violenta. O vídeo é extremamente triste, o modo pelo qual uma mulher é desumanizada duplamente: por viver a fome e por ser agredida por viver a fome.

O Brasil é o país da violência e do escárnio. No carnaval, humilham se “fantasiando” de negro e no resto do ano contribuem para a marginalização. Pau grande, mas de cabeça baixa, de preferência no chão. É assim que nos querem. Mas o que comove alguns portais é mulher branca dizer que não pode usar turbante. A hashtag desse país é: vai ter preto humilhado sim.

 

*Djamila Ribeiro é Pesquisadora na área de Filosofia Política e feminista. Foi secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo