Os encantos da coroação de Gilberto Gil no carnaval de Salvador

O músico é homenageado pelo Cortejo Afro e pelo afoxé Filhos de Gandhy e vai para a rua na capital baiana

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O desfile do Cortejo Afro em homenagem ao cantor tropicalista saiu em três noites. Divulgação

O Cortejo Afro encantou com a mais bela e elegante homenagem a Gilberto Gil, em Salvador. Gil saiu com o Cortejo na Barra, trajando a roupa em sua homenagem e cantando do alto do trio elétrico acompanhado de uma mini orquestra e um coral de opera, regidos pelo maestro Aldo Brizzi.

Nesse carnaval o cantor tropicalista também recebeu homenagens do afoxé Filhos de Gandhy e do tema oficial, a Tropicália, com um show no Pelourinho na sexta-feira.

No repertório, Gil cantou “Andar com Fé”, uma linda trilha para acompanhar um bloco de afoxé que vem do terreiro Ilê Asé Oyá, por muitos anos regido por Mãe Santinha de Oyá ( Anísia da Rocha Pitta e Silva, falecida aos 90 anos em 2015), hoje liderado por sua neta e sucessora Nívia Luz. Também cantou, em arranjo de Brizzi e com a orquestra, Não Chores Mais, a releitura de No Woman No Cry, de Bob Marley, que serve para a campanha Jovem Negro Vivo, da Anistia Internacional, que apoia o bloco.

O Cortejo é liderado por Alberto Pitta, artista plástico, designer, estilista, e vulcão de ideias. Foi de Pitta a ideia da homenagem a Gil, segundo ele, “porque já era o momento. Na verdade, já para ter acontecido antes.”

Foi por admiração antiga e por “ser o momento”, e não relacionado às complicações de saúde que o cantor enfrentou no ano passado. Complicações renais que debilitaram Gil em 2016 ficaram para trás junto do ano de tantas notícias ruins. Já faz tempo e ficou para trás aquela mensagem de alívio que sua esposa Flora Gil havia postado nas redes sociais em outubro, após seguidas internações: “Inspiração depois de tanto hospital.” Viva a inspiração de Gil!

Gil teve agenda intensa em todo o verão. Com o Cortejo, cantou em um maravilhoso ensaio com a orquestra, no Palácio da Aclamação, em 19 de fevereiro, e dois dias depois, junto a todo o Cortejo no ensaio na sede do bloco no Pelourinho, na Praça das Artes,

O desfile do Cortejo Afro em homenagem a Gil saiu em três noites, na sexta 24, domingo 26 e segunda 27. Liderado pela ala das baianas, todas em branco, saias com estampas de búzios marrom e vermelho, carregando galhos de trigo.

Elas são seguidas pelas fantasias em roxo, vermelho e marrom, onde no centro estampa uma bela foto de Gilberto Gil, que também estampa a frente do trio elétrico. Todos e todas portam saias e uma boina eketé com búzios vermelhos e uma pena. O Cortejo brilhou com fantasias elegantes e sofisticadas – dando absoluto sentido “elegantemente sofisticado” do lema do bloco.

Na foto da estampa da roupa, Gil tem expressão serena e calma, o “encantamento do coroado”, em expressão de Alberto Pitta, artista plástico e diretor artístico do bloco. O desenho das estampas foram criadas por Pitta junto do estilista Fause Haten, com apoio de Paulo Borges, do São Paulo Fashion Week, para custear a conbfecção das peças. A direção musical foi criada pelo maestro Aldo Brizzi, e celebra a arte, poesia e sonoridade de Gil. O bloco desfilou com uma compacta orquestra sinfônica e um coral.

Foi um ano difícil para todos os blocos afro em Salvador, sem patrocínios oficiais do governo federal que ajudaram no passado, como a Caixa e a Petrobrás. Mas a crise política e econômica não impediram os blocos de saíram às ruas. O Ilê Aiyè, o “mais belo dos belos”, grande símbolo da luta e resistência do movimento negro, fez sua tradicional saída da sede no Curuzu, no sábado, com uma multidão de pessoas e a transmissão da TVE Bahia.

A sede do Cortejo Afro no bairro do Pirajá é cercada de Mata Atlântica, num dos lugares mais violentos da cidade. Tem o terreiro desenhado por Lina Bo Bardi, e do alto avista-se a bacia do rio Cobre na área de proteção ambiental (APA) São Bartolomeu / Bacia do Cobre. Ao fundo, a cintilante Bahia de Todos os Santos. Ali nessa área encontrada por Mãe Santinha, Alberto Pitta produz as criações artísticas de quem nasceu e cresceu junto da efusão de cores, sons, cheiros e energia do terreiro.

A sede é hoje uma referencia cultural nesse bairro tradicional de Salvador – um lugar marcado pelas lutas de independência na Bahia. Pelo Cortejo, se pensa a relação com o terreiro e o carnaval e o turismo na Bahia em busca de um equilíbrio.

Nívia Luz, a ialorixá do Ilê Asé Oyá, destaca, nesse sentido, a importância dos afoxés no combate à intolerância religiosa, bem como a abertura para o turismo, uma difícil relação diante da enorme pressão que existe na Bahia, e o risco da comercialização da fé. “Essa é a minha preocupação, e tema com o que eu tenho trabalhado e venho estudando. Exu é lindo, o orixá que transita, transmite os recados dos outros orixás, e foi diabolizado pela intolerância religiosa”

A sede do Cortejo em Pirajá foi onde aconteceram também as oficinas da Anistia Internacional para os jovens da comunidade, vítimas do racismo estruturante da sociedade brasileira, e constantemente transformados em números nas estatísticas de violência.

Em Pirajá o Cortejo também lidera uma luta ecológica contra o desmatamento da APA Bacia do Cobre / São Bartolomeu. Criada em 2001, essa unidade de conservação abriga os últimos remanescentes de mata Atlântica em Salvador,  e fundamental reserva de água. Também é uma região sagrada de peregrinação e para a coleta de folhas utilizadas no candomblé. É nessa sede, ecologicamente sofisticada, onde o cortejo também criou uma escola de música e artes para os jovens negros da periferia.

“Um Deus baiano que nos iluminou”, canta a música composta por Rodrigo Pitta, Alberto Pitta e o realizador Estevão Ciavatta para homenagear Gil: “foi ele quem ouviu a voz do nosso povo”. “Boniteza”, palavra que era usada por Paulo Freire, parece ser a melhor maneira de falar da alegria e da sensação de beleza e encantamento, do “elegantemente sofisticado”, Cortejo Afro.