No Dia Internacional da Mulher aprenda com as revelações da cientista negra brasileira

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Neste Dia Internacional da Mulher o Afrobrasileiros resolveu presentear a você, nosso leitor, com dois aspectos de empoderamento feminino. Um é o filme que recentemente causou frisson: Estrelas Além do Tempo, que conta a história das primeiras mulheres negras na NASA e o outro presente é a história da cientista negra brasileira Sônia Guimarães.  

Unir estas histórias, suas similaridades e aspirações resultaram numa brilhante entrevista que revela os por menores do mundo da aeronáutica sob o viés da mulher negra.  

Confira os aprendizados que a vida trouxeram a nossa cientista negra e aproveite a oportunidade de através da vivencia dela reescrever a sua própria trajetória. 

Afrobrasileiros: Conte um pouco da sua história como uma mulher negra brasileira envolvida que conseguiu ingressar naeronáutica? 

nia Guimarães: Eu como mulher, assumidamente negra, usando cabelo crespo, roupas coloridas… na aeronáutica um ambiente extremamente machista, racista e homofóbico, um inferno. Para se ter uma ideia, somente  poucos anos a aeronáutica passou a permitir que meninas façam vestibular, antes era proibido. Imagine então a situação das mulheres negras…  

Sonia Guimarães. Foto: JC Santos/Divulgação

AfrobrasileirosHá similaridades entre o que você  viveu e a história do filme Estrelas Além do Tempo? 

Sônia Guimarães: Fora o banheiro, pois posso usar o banheiro no andar de minha sala e não preciso caminhar horas como a personagem do filme. E o fato de não tomar café, portanto não preciso de uma cafeteira segregada, todo o restante é igual. Ou até pior, o filme apresenta uma realidade vivenciada nos Estados Unidos, em 1966, e eu estou falando de similaridades com o Brasil de 2017… É realmente muito triste. No filme a primeira engenheira negra se formou em 1969, eu sou a primeira negra a obter PhD em física e isso aconteceu em 1989. O racismo aqui nos atrasa décadas.  

Afrobrasileiros: Ainda hoje este espaço, da aviação, não é acessível às mulheres? Sobretudo as negras? 

Sônia Guimarães: Em minha opinião, existe uma cota para acesso de mulheres, pois apenas uma porcentagem consegue ingressar o curso e não existe cota para negros o que dificulta muito o acesso. O vestibular deste ano na 1ª chamada disponibilizou acesso para 140 estudantes, sendo 4 meninas. Não as conheço ainda, não sei quantas negras. Dos que entraram em 2015 apenas uma era negra e em 2016 nenhuma.  

AfrobrasileirosVocê faz parte de um grupo de mestrandas, doutorandas e pós-doutorandas da Poli, todas engenheiras negras, chamado ”Exatamente Pretas”, com quem inclusive assistiu o filme, qual sua motivação para participar deste grupo?   

Sônia Guimarães: Débora Carvalho foi quem me convidou a participar do grupo e quem me apresentou a Débora foi Carlos Machado, que escreveu o livro “Ciência Negra para a Descolonização do Saber”, que aborda cientistas negros brasileiros e inclusive faz menção a mim. Eu e Débora, apesar de uma amizade apenas virtual, mantivemos contato e finalmente nos conhecemos pessoalmente na pré-estreia de Estrelas Além do Tempo.  

AfrobrasileirosPodemos dizer que “Exatamente Pretas” é uma confraria de mulheres negras onde uma apoia a outra?  

Sônia Guimarães: Espero que sim, pois em 124 anos de POLI só alcançamos a 10ª aluna negraa Larissa Rodrigues Mendes da Silva. Portanto temos que estar unidas e nos ajudar umas às outras, pois o racismo e o machismo são pesados.  

Afrobrasileiros: Com as cotas e aumento da população negra no mercado de trabalho e nas universidades você já percebe uma maior presença de negros atuando na área da ciência e tecnologia?  

Sônia Guimarães: Infelizmente não. Tecnologia não é primeira opção principalmente para as meninas. Sou colaboradora do projeto Elas nas Exatas, da Fundação Carlos Chagas, e a realidade é que não há incentivo para as meninas seguirem essa carreira. Todo pai ou mãe gostaria de ter um filho engenheiro, mas não uma filha… Existe aquela mentira que o negro não é inteligente o suficiente para seguir essa carreira, imagine uma negra. As que estão nessa carreira são estigmatizadas pelo machismo dos colegas. Tenho classes de 43 alunos com 4 meninas, na hora delas formarem grupos elas fazem grupos só de meninas. Meus alunos negros também se unem em grupos fechados ou se unem aos japoneses. Neste projeto Elas nas Exatas tentei trazer algumas meninas para o ITA e iríamos fazer um filme eu dando aulas para elas, mas elas não conseguiram permissão dos pais. 

AfrobrasileirosO que principalmente difere a realidade negra americana em relação a brasileira neste aspecto?  

Sônia Guimarães: Não difere muito, à parte os 60 anos que eles já têm de Ação Afirmativa, cotas… As Universidades Historicamente Negras têm em média mais de 100 anos, o que permite que os americanos tenham avôs e avós que também fizeram faculdade. Já os da minha geração aqui no Brasil, em grande maioria, são os primeiros a frequentarem uma universidade. No mais, eles também têm problema para convencer os jovens a optarem pelas carreiras tecnológicas. Tanto que eles agora têm o programa nacional em inglês STEM – Science Technology Engineering and Mathematics, que significa Ciências Tecnologia Engenharia e Matemática, criado por Obama, para incentivar, por meio de bolsas de estudos, aulas extras, competições… Medidas para estimular que os estudantes do high school deles, que corresponde ao nosso ensino médio, a seguirem carreira tecnológica. Por séculos o negro foi considerado menos inteligente e as carreiras tecnológicas são as que exigem mais do cérebro. O tema da palestra do Reverendo Jesse Jackson de 2015 foi “Da ponte Selma ao Vale do Silício”, em outras palavras: na ponte em Selma foi onde todo o movimento pela igualdade racial começou, com a marcha dos negros e o reverendo Martin Luther King a frenteo vale do silício é onde todo o desenvolvimento tecnológico começou. A meta de Jesse é ter milionários na tecnologia negra. Um Jobs, um Gates ou um Zuckerbergmas desta vez negro.    

Cena do filme Estrelas Além do Tempo. Reprodução

Afrobrasileiros: Qual sua opinião sobre o filme?  

Sônia Guimarães: Achei a história lindíssima, me senti na pele daquelas mulheres muitas vezes… Gostaria que todas as meninas que ainda não definiram o que vão ser quando crescer assistissem esse filme, ele tem um propósito de dizer a elas que podem ser o que quiserem na vidaNão vai ser fácil, mas com esforço elas podem sim. Outra coisa que o filme diz é: se unam à outras meninas negras, pois vocês vão precisar.