Entre aulas de dança e maquiagem, Miss Venezuela protesta contra crise no país

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CARACAS – Keysi Sayago, de 23 anos, vencedora do concurso de beleza Miss Venezuela 2016 se juntou recentemente a grande lista de personalidades que participam esporadicamente dos protestos contra o governo de Nicolás Maduro e a crise que afeta o país caribenho, mas sem deixar de lado sua coroa e o que isso significa para seus compatriotas.

Essa engenheira mecânica explicou que tem procurado tempo entre as aulas de dança, inglês, oratória, maquiagem e estilo para “viver o que a maioria dos venezuelanos vive nas ruas para poder falar com propriedade sobre que está acontecendo no país”.

“Eu não marcho nem protesto por um partido político porque tudo o que está acontecendo no país vai além de um partido político. Assim, eu marcho em razão da situação na qual nós estamos vivendo”, disse Keysi, que descreveu o momento do país como “difícil e complicado”.

O país caribenho registra há quase três meses uma onda de manifestações a favor e contra o governo em meio a uma atmosfera de tensão social e política que resultou em vários atos de violência e deixou um saldo de 76 mortos e cerca de 1,5 mil feridos.

Diante desta situação, Keysi disse que não poderia continuar indiferente e imersa apenas em sua preparação para o concurso de beleza – ela representará o país na próxima edição do Miss Universo – e deveria “cumprir sua obrigação com o país e com o povo”.

“Minha motivação é a Venezuela, não há dúvida sobre isso. Estou me expressando como cidadã e colocando o título de Miss Venezuela um pouco de lado”, disse. “O que está acontecendo é que a situação do país é inegável e ninguém pode ficar indiferente ao que vivemos nas nossas ruas.”

Keysi diz ainda que a Organização Miss Venezuela – de onde já saíram sete ganhadoras do Miss Universo, que renderam ao país o apelido de “fábrica de rainhas” – não se opôs à sua participação “como cidadã” nas manifestações porque ela “não defende fatores políticos”.

Ela já marchou contra o governo de Nicolás Maduro em ao menos três situações e se envolveu também nos eventos chamados de “trancazos”, quando as principais ruas e avenidas de Caracas têm o fluxo interrompido por manifestantes. Todos estes protestos foram convocados pela coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), que tenta evitar a mudança de Constituição provida pelo presidente venezuelano.

“Infelizmente passei por situações em que tive que correr, em que fiquei na mira de membros da Guarda Nacional (…) nos apontou as armas, passamos atrás de uma loja e atiraram nesta loja”, lembra Keysi sobre uma marcha em defesa dos “direitos humanos” que foi dispersada pela polícia.

Esta experiência a deixou desconcertada por vários dias, assim como as mortes que foram registradas durante as manifestações. “Cada morte que ocorre neste tipo de protesto é importante e eu acompanho tudo que acontece no meu país porque não dá para ignorar esta situação”, disse a Miss, que lamentou o fato de muitas das vítimas serem jovens que, em sua maioria, estavam “na primeira fila, batalhando e lutando por motivos que não deveriam ser obrigados a lutar”.

Ela evita, no entanto, fazer críticas diretas ao governo e diz que defende uma posição de chamamento ao respeito e à convivência em paz. “Chega de violência. Peço pela tolerância, pela paz e pelo respeito as diferentes opiniões de cada uma das pessoas. Peço pelo respeito à vida, aos direitos humanos e à nós mesmos, que merecemos respeito”, disse. “Podemos não pensar da mesma forma, mas isso não deve ser motivo para nos repudiarmos.” / EFE