Úrsula é obra escolhida para reedição em centenário e morte de Maria Firmina

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Maria Firmina dos Reis, maranhense nascida em 1825 foi prima do escritor Francisco Sotero dos Reis, seguindo seus passos,em 1859 publicou Úrsula, o primeiro romance abolicionista do Brasil. A história de Úrsulaconta a história da mulher de mesmo nome que se apaixona por um nobre, construindo a história de um amor impossível. O que chama atenção, entretanto, é o contexto em que o amor platônico é colocado: a escravidão e as memórias desses personagens.A razão de ser considerado abolicionista não está apenas no protagonista dos escravos, mas a desconstrução masculina e etnocêntrica comum até então, esta construção social já é apresentada no prólogo do romance, quando a autora diz: “pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados.”.

A maranhense é considerada a primeira romancista brasileira e primeira autora negra no país, ganha reedição do primeiro livro de destaque, “Úrsula” no centenário de morte. A nova edição é uma realização d PUC Minas, por Eduardo Assis Duarte, que estuda a cultura afro-brasileira. Filha de mãe branca e pai negro, a situação em que nasceu proporcionou a Maria Firmina maior domínio de referências.  O título de “primeira mulher” se estendeu a sua aprovação em um concurso público para o magistério no Maranhão, o que a auxiliou na fundação da primeira escola gratuita e diversa, isto é, para alunos brancos e negros. Apesar dos grandes feitos, tanto o romance, quanto a história da autora, ainda são invisibilizados, o que mostrou a necessidade de uma reedição.

A autoria negra já é precedida por Gama, que coloca a primeira pessoa negra nos poemas, a primeira manifestação em que esta questão aparecia. Entretanto, o nome, títulos e feitos ainda são mais conhecidos do que os de Firmina. Outro ponto que esmaece a autoria negra é a instituição do termo “mulato” ou “pardo”, que apareceu contemporaneamente a esses autores no objetivo de separa-los dos escravos, que eram sinônimos de “negro”. Esta questão e outros estereótipos são fortalecidos por autores brancos anos depois, como em O Mulato (1881), de Aluísio de Azevedo ou A Carne (1888) de Júlio Ribeiro, no pré e pós-abolição. Estas construções, entretanto ainda não encerraram. Em Literatura Brasileira Contemporânea: Um Território Contestado (2012)foram analisadas mais de 200 obras entre os anos 1990 e 2005, em que a pessoa negra ainda é vítima de associações: das 7,4% de personagens retratadas negras, 20,4% são bandidos, 12,2% empregados e 9,2% são escravos. Firmina é uma das autoras que volta a tona na reflexão dos parâmetros da representação do negro e reaviva a história que explica seus porquês.

Por Quezia Isaías