“Ser atriz me completa e me inspira a seguir em frente”

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Teca Pereira fala sobre os 40 anos de carreira

A atriz Teca Pereira é um exemplo de coragem. Completando 40 anos de atuação ela diz de forma singela: “É com imenso prazer que exerço meu ofício”. Quem a vê se expressando de forma tão humilde quase não acredita que Teca, como prefere ser chamada, já contracenou com os maiores ícones do teatro e da televisão brasileira.

Eclética, a atriz que também brilha nas telas do cinema, sabe o quanto é difícil se manter na profissão e quais são as barreiras enfrentadas por ser negra.

Afrobrasileiros – Seu primeiro trabalho foi em “Gota D’água”, em 1977. Uma estreia com Bibi Ferreira. De lá para cá contracenou com grandes nomes do teatro. Fale sobre estas experiências.

Teca Pereira: A coragem e perseverança, que sempre me nortearam enquanto artista, me trouxeram várias oportunidades. Um dos momentos mais prazerosos e gratificantes da minha carreira foi poder dividir o palco com Eva Wilma, Nicette Bruno e Nathalia Timberg, em “O Que Terá Acontecido a Baby Jane”, com a personagem Edna, que me rendeu a indicação de melhor atriz coadjuvante no Prêmio Aplauso/2017. Também tive a alegria de contracenar com Marília Gabriela e Elias Andreato, em “Vanya e Sonia e Masha e Spike”, com direção de Jorge Takla, do qual fui indicada ao Prêmio Qualidade. Quanto aprendizado nessas experiências…

Afrobrasileiros – E na TV?

Teca Pereira: Um seriado que tive imensa felicidade em participar  foi “Os Experientes”, com Juca de Oliveira e Dan Stulbach. Mais uma vez tive uma aula de interpretação e coleguismo. Em “Belíssima”, fui presenteada por Silvio de Abreu com várias cenas importantes com Fernanda Montenegro, dama do nosso teatro. Posso dizer que sou privilegiada por ter podido contracenar com grandes talentos da arte de interpretar e dar conta do recado com integridade, respeito e muita alegria. Isso me faz acreditar que estou no caminho certo, já que respiro, transpiro e me alimento dessa arte.

Afrobrasileiros – Por falar em “aula de interpretação”, quando se descobriu como atriz?

Teca Pereira: Me descobri atriz quando fui convidada, depois de Gota D’água, para interpretar uma personagem  em “Meia Sola”, com direção de Afonso Gentil, no qual a protagonista era Vic Militello, em 1979. Devo a ela todo meu respeito e admiração, por ter me ensinado o tamanho do comprometimento em ser atriz. Carrego comigo desde então o respeito pelo fazer arte. Agradeço do fundo do meu coração e da minha alma sua generosidade e carinho.  Com ela aprendi logo no início a respeitar o espaço cênico, os colegas e principalmente o respeito próprio.

Afrobrasileiros – Ter no currículo a participação em sucessos como: “Tenda dos Milagres”, “Carandiru” e nas mais recentes “Felizes para Sempre?” e “Justiça”, não são conquistas ao dispor de qualquer atriz, sobretudo com a versatilidade que você transita entre teatro, televisão e cinema. Ao que atribui tamanhas realizações?

Teca Pereira: As participações nesses seriados me trouxeram visibilidade, pois a TV tem um maior alcance e possibilita novas oportunidades, visto que a audiência dessa emissora que você citou os trabalhos, a Rede Globo, é enorme. Você entra na casa dos telespectadores, tanto que eles te reconhecem nas ruas! Acredito que depois de tantas personagens, você se qualifica cada vez mais.

Afrobrasileiros – Com 40 anos de carreira, me fale sobre as dificuldades enfrentadas no passado quando o negro tinha ainda menos acesso e visibilidade na mídia?

Teca Pereira: No passado o negro realmente não tinha acesso à mídia.  Era sempre designado a papéis de subalternos, como empregado, escravo e bandido.  Embora essa atitude ainda hoje se mantenha (infelizmente). Alguns autores e diretores estão mudando, aos poucos, essa realidade.  Mas, muita coisa ainda precisa mudar.

Afrobrasileiros – Você acredita que “desbravadoras” como você contribuíram para a atual situação, que por mais que ainda esteja longe da ideal, mesmo assim representa avanços?

Teca Pereira: Não me considero uma desbravadora. Sou uma atriz que busca fazer seu trabalho com dignidade e muito prazer, apesar das dificuldades.  Antes de mim, Zezé Motta e Ruth de Sousa abriram novos caminhos. Elas sim são as desbravadoras!

Afrobrasileiros – Quais as dificuldades ainda enfrentadas pelos atores negros no Brasil?

Teca Pereira: As maiores dificuldades são encontrar bons papéis, com participação real e concreta na trama e não mais como coadjuvantes e subalternos.

Afrobrasileiros – Alcançar o reconhecimento deve ser algo muito difícil. Como foi ganhar o Prêmio Mambembe de melhor atriz coadjuvante, em 1997?

Teca Pereira: Ganhar o último Mambembe em 97 foi uma realização, o reconhecimento do meu trabalho. Importante ser premiada, mas a melhor parte é saber que representei a minha etnia com força e vontade. Espero inspirar mais atrizes e atores negros, dizer que vale a pena se manter firme e se fortalecer como artista. Estudar e se preparar sempre.

Afrobrasileiros – Em quais projetos está envolvida no momento?

Teca Pereira: Agora estou em cartaz, de 25 de agosto até outubro, às sextas-feiras, na Livraria Martins Fontes da Av. Paulista, com a peça “As Decadentes”, sempre às 20h. E aos sábados, voltarei com um infantil de grande sucesso em escolas e teatros de São Paulo, “A Cigarra e a Formiga”.

Afrobrasileiros – Quais são seus planos futuros?

Teca Pereira: Não costumo fazer muitos planos para o futuro no que se refere a trabalhos. Prefiro buscar as possibilidades, uma a uma, no decorrer do tempo. Porém, estou envolvida em um projeto com provável estreia em 2018.