A talentosa Shirley Cruz e suas várias facetas

0
123

Atriz mostra a que veio se desdobrando para realizar os sonhos que são de muitas

Engajada, atuante, militante… Os adjetivos não param por aí e bastam poucos minutos de conversa com a atriz Shirley Cruz para entender que não se trata de exagero.

Ela faz parte dessa nova geração sabiamente apelidada de “tombadora”. E não é para menos. O perfil destes jovens, que assim como Shirley têm enfrentado o mundo de frente, tem possibilitado mudanças significativas em nossa sociedade.

Ciente das limitações que a sociedade nos impõe essa carioca de sorriso farto sabe se impor e encontra alternativas para o que ela chama de “abuso”.

Mulher, negra, atriz, produtora, jornalista, sonhadora e quem sabe cantora. Shirley é a prova que não só podemos, mas devemos ser várias.

Afrobrasileiros: Você acredita que para “alcançar um lugar ao sol” é preciso literalmente se “virar nos trinta”?

Shirley Cruz: Totalmente! (Risos) Mas também esse termo é muito amplo. Para mim é preciso estar atentaàs oportunidades, ser sensível, não se conformar, usar a cabeça e criar estratégias. Se você tem mais de um dom, é burrice não usar todos a seu favor e a favor da comunidade.

Afrobrasileiros: Por isso que você se desdobra como atriz, jornalista e produtora? Como é dar conta de tantas realizações?

Shirley Cruz: É duro, necessário e prazeroso. Eu adoro contribuir para o sucesso das obras dos outros, mas estar em cena com um projeto autoral é inexplicável. Ser atriz é missão, o jornalismo que era um “plano B”, exigido pela minha família, só agregou e contribuiu para minhas conquistas. Produzir foi em primeiro lugar uma necessidade. Eu tinha o que dizer e entendi que enquanto o time por trás das câmeras não tiver mais melanina, não vamos nos ver em bons papéis na frente das lentes.

Afrobrasileiros:Quais as principais conquistas em ter atuado em filmes como O maior amor do mundo, de Cacá Diegues; Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Trinta, de Paulo Machline?

Shirley Cruz: Se Cidade de Deus é um marco para quem assistiu, imagina para quem trabalhou? Ali mudou tudo. Outro trabalho divisor de águas foi “Filhos do Carnaval”, série da HBO. Esses trabalhos causam coisas dentro e fora de mim. Fora é o respeito do público, dos diretores, produtores, colegas de trabalho e a visibilidade, que te leva a outros bons trabalhos. Agora o que causa dentro é impagável. Fortalece minha autoestima, a vontade de continuar, de evoluir e aumenta o meu compromisso com outras mulheres negras. Porque não se engane:arte é missão, é ferramenta de mudança.

Afrobrasileiros: Diga em uma frase: o que representa ser atriz para você?

Shirley Cruz: Posso dizer em uma palavra: Liberdade.

Afrobrasileiros:Então diga em uma palavra: o que é ser uma atriz negra no Brasil?

Shirley Cruz: Abuso.

Afrobrasileiros:Você está participando de uma série na qual interpreta Zezé Motta, na juventude. Fale sobre essa experiência.

Shirley Cruz: Esse é o presente do ano. Porque eu ainda sou de uma geração de poucas referências e uma delas é a Zezé. Além de Léa Garcia, Ruth de Souza, Teca Pereira eIléa Ferraz. Temos outras, mas muito poucas. Quando veio o convite eu só consegui pensar “eu sabia” (Risos). Porque eu já tinha Zezé na cabeça e no coração e também a certeza que em algum momento alguma coisa ia rolar. A série 3% é original da Netflix, e Zezé é uma das protagonistas. Não contracenamos, porque faço ela mais jovem. É uma honra, mas é uma responsabilidade chegar num projeto que é sucesso internacional com o compromisso de fazer a Zezé. Pedi logo a produção para promover um encontro entre nós. Ficamos amigas em dois minutos, quando ela me recebeu no seu quarto de hotel, nos Jardins, com um pijama de seda, com gola e punhos de onça. Pensei: “gente…. é uma diva mesmo”. E esse ano são 50 anos de cinema.

Afrobrasileiros:Assim como Zezé você pode vir a se tornar uma “cantriz” (Zezé se refere a si mesma dessa forma por ser cantora e atriz)?

Shirley Cruz: Claro! Eu estou aberta, cantar é tudo! É uma maneira grandiosa de se expressar. Eu queria ter me dedicado ao canto, mas ao mesmo tempo a gente vai fazendo o que os trabalhos vão exigindo. Mas eu tenho planos.

Afrobrasileiros: Além desta série, em quais outros trabalhos está envolvida no momento?

Shirley Cruz: Meu último trabalho no cinema foi Marli, madrasta de Marcelo D2 em “Legalize já”, com estreia prevista para este semestre. Ainda este ano tem a série “13 dias longe do sol”, da TV Globo, ao lado de Selton Mello, onde tive o prazer de contracenar também com Teca Pereira. Acabei de filmar a segunda temporada da série 3%, da Netflix, e já estou confirmada na próxima produção do canal chamada “Samantha”. No Rio, estamos ensaiando o longa metragem Pacified, produzido pela Reagent Media e a 20th Century Fox, com direção de Paxton Winters. Estou buscando apoio para voltar com meu espetáculo “Mulheres no pódio”, mas agora em São Paulo.

Afrobrasileiros: A literatura também é uma de suas paixões? Teria sido essa sua inspiração para escrever peças de teatro?

Shirley Cruz:A literatura é o grande portal até hoje. Eu não cresci com a internet, então eram os livros mesmo que davam conta dos meus sonhos (Risos). Então se você lê e tem algum desejo ou necessidade de escrever, uma hora isso flui, você não tem como fugir, ainda mais quando tem demandas. Eu toco a Companhia Contemporânea Mulher de Palavra, que tem a proposta de oferecer a arte como ferramenta de reflexão sobre o papel da mulher na vida e na sociedade. Essa foi a maneira que eu encontrei de contribuir para valorização da mulher, contra a violência, contra o feminicídio. Então imagina quanta coisa eu não tenho pra falar? O meu primeiro texto “Mulheres no pódio” foi fruto de um prêmio de fomento olímpico, no Rio de Janeiro, que fala da importante atuação da mulher brasileira no esporte olímpico e paraolímpico e a analogia do dia a dia da mulher no esporte e na vida.

Afrobrasileiros: Qual legado deseja deixar para as próximas gerações enquanto mulher e negra?

Shirley Cruz:Ah…eu sou ambiciosa nesse sentido. Porque tenho muito pra fazer ainda. A vantagem hoje é que ninguém precisa ficar esperando mais nada e com a tecnologia tenho a sensação que vai dar para fazer muita coisa boa. A gente tem que estar em todas as frentes. Cinema, teatro, TV, rádio esobretudo na internet. É isso que estou me organizando para fazer com eficácia. Aumentar as boas parcerias, escrever mais, colocar em prática as mil coisas que estão na cabeça.

Afrobrasileiros:Quais seus planos para 2018?

Shirley Cruz: Vixe… bom, em primeiro lugar ver todos os projetos plantados em 2017 estrearem com bastante sucesso em 2018, que promete. Fortalecer o trabalho da minha Companhia de Teatro, estrear um monólogo, um projeto na internet e estudar roteiro. Pelo menos isso!