Pesquisa aponta que jovens concordam que o racismo existe, mas não acham necessário debater o assunto

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Retaliações são alguns dos motivos revelados para tal postura

Estudo divulgado em 2017 pelo Núcleo Brasileiro de Estágios – NUBE, mostra que a cada três jovens, um julga desnecessário falar do racismo ou já está cansado da reflexão quanto ao tema. A metade dos entrevistados, todos estudantes, concorda que o racismo existe. A agência de estágios conversou com quase 20 mil jovens entre 15 e 26 anos. A pauta era a diversidade de raças na sociedade.

O fato de alguns não quererem falar do problema, inclusive estudantes negros, revela a presença de determinados sentimentos,tanto de afrodescendentesquanto de não afrodescendentes: medo de retaliações, desde um desligamento da empresa a um isolamento  por parte de grupos de relações interpessoais;perda de oportunidades;intolerância ou indiferença dos que não sofrem os efeitos da desigualdade; vergonha; até um constrangimento presente em jovens de diversas raças de praticar ou ser alvo do racismo.

Com isso, perceber-se posicionado a favor ou contra o tema ou, pior, contra ou favor de pessoas ou grupos,representa uma fonte de ansiedadee estresse, pondera a psicóloga Laura Calejon, mestre em psicologia.  Especialistas avaliam que o racista no Brasil nunca assume ser racista, há uma tentativa de naturalização por meio de declarações semelhantes a: “Era uma brincadeira”!Outras expressões cotidianas, não apenas entre jovens, contribuem para este processo de naturalização e inibem a força dos que tentam o combate ao racismo no ambiente estudantil ou corporativo, sendo,a mais comum: “Isto é ‘mimim’”.

Outra forma de enfraquecimento, segundo especialistas, é a compreensão de que somos todos iguais, uma vez que o indivíduo não entende as diferenças e, por consequência, não as respeita.

Negros mais impactados pela crise no mercado de trabalho

Mesmo frente a algumas estatísticas que evidenciam que a taxa de analfabetismo entre os negros é duas vezes maior que a da população branca e que o tempo médio do negro na escola é menor, os impactados pela recessão no mercado de trabalho afetaram principalmente a população negra, sobretudoa mulher negra, de acordo com o primeiro levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – IBGE.Quanto ao desemprego a partir do recorte racial, a taxa de desocupação das pessoas negras é de 14,4%, enquantoa de pessoas brancas é de 9,5%.

O congelamento dos gastos públicos impacta diretamente a população negra, maior usuária dos serviços públicos de saúde. Contudo, parte dos jovens ainda se apoiam no argumento da igualdade para reforçar a sua opinião de que não se deve dedicar-se ao tema da discussão racial.

Diante da triplicação do número de negros nas universidades, principalmente nas federais, estes passam a pressionar o mercado por melhores oportunidades. Com o aumento da escolarização, a observação é que ocorretambém o aumento da discriminação.

O termo “velado” aparece frequentemente durante a explanação dos jovens quando avaliam a questão do preconceito no Brasil. O Atlas da violência 2017, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ao mapear a violência, põe em dúvida o adjetivo velado, uma vez que de certaforma deixa explícito que a principal vítima de violência é o jovem, em especial,o jovem negro. Ainda sim nas empresas e instituições de ensino prevalece a cordialidade, própria da nossa sociedade, e o preconceito se dá com mais eufemismo, a violência é mais psicológica, difícil de ser avaliada.

O que os jovens falam a respeito

Veja a opinião de alguns jovens que conversaram com o portal Afrobrasileiros:

– “ Acho que é essencial discutir nas faculdades e empresas, mas hoje as grandes empresas sempre trabalham com Programa de Desenvolvimento  de Líderes – PDL , às vezes costuma-se discutir esses temas entre a gestão da empresa, mas ainda é necessário escolher entre a postura profissional que normalmente é mais racional, pragmática ou a ideológica que tende a ser humana e baseada em emoções.” Entrevistado preferiu não se identificar, estudante de psicologia, 22 anos.

– “Acho que em um país como o Brasil, estamos pouco evoluídos em relação ao racismo. Algumas pessoas, às vezes, não têm conhecimento do que estão falando e acabam falando coisas desnecessárias que magoam ao próximo. Várias pessoas se acham superiores às outras, mas esquecem que somos todos iguais. Independentemente de classe social, raça, cor, enfim. É basicamente o que penso sobre racismo na atualidade. Quanto a ser discutido em empresas e faculdades, acho que todos têm que estar cientes de que não importa a etnia, todos somos iguais, então, sim, acho que deveria ser abordado esse assunto! E também acho que até em escolas deveriam abordar sobre racismo, afinal, eles(referindo-se aos mais jovens) podem ser melhores que nós”. Isabel Miller, blogueira, 20 anos.

Por Clarice Tatyer