Ouvia a canção homônima de Michael Jackson, “Black or White”(1991), antes de iniciar esse texto. Lembrava do que temos lido a respeito sobre o ocorrido nos Estados Unidos.

Uma onda conservadora tomou conta do país e explodiu em forma de ódio. Em12 de agosto, na pacata Charlottesville, Virgínia, uma multidão composta por simpatizantes da extrema direita norte-americana, entre eles grupos neonazistas, saiu em passeata para defender um símbolo racista, a estátua de Robert E. Lee erigida em homenagem ao general que lutou pelos Estados Confederados durante a Guerra de Secessão (1861-1865).

O que desperta esse reacionarismo? O antagonismo que reconstrói o imaginário escravista na terra do Tio Sam emerge basicamente em duas cores: preto e branco.

Para muita gente branca, de classe média, detentora dos melhores empregos e vagas nas universidades, ter um vizinho negro é um problema sério. Principalmente no Sul e no Meio-Oeste. Com a eleição de Donald Trump, o espelho da sociedade norte-americana começou a mudar mais uma vez. Na contramão dessa história, são o país que possui mais artistas negros(as) no topo da escala econômica, entre eles Beyoncé, Denzel Washington, Will Smith e Tina Turner.

É uma democracia liberal que professa a liberdade, mas mantém em suas raízes uma cultura racista imensa, mesmo reconhecendo a contribuição da contracultura, se é que posso usar essa expressão, afro-americana na formação de sua identidade nacional.

Basta lembrar de Muddy Waters, expoente do blues, oriundo do Mississipi. Os artistas brancos sabem disso, principalmente o rock branco e britânico que bebeu na fonte das raízes negras do “Deep South”, para criar um ritmo e gênero próprio aos ouvintes brancos. Sim, os Beatles, Rolling Stones, The Who e principalmente Led Zeppellin devem muito à música e cultura negras norte-americanas de modo geral.

Mas em uma tarde de sábado surgem hordas de neonazis e simpatizantes da seita racista e anti-judaica Klu Klux Klan. Charlottesville entra para a história. A questão é o poder da memória, peça tão cara ao imaginário que se erigiu ao longo de décadas sobre a perseguição que a população negra sofreu dos brancos sulistas. Do dia para a noite, a pequena cidade universitária ganha os holofotes da mídia com a bandeira dos confederados na qual Lee lutou até virar estátua aos olhos dos racistas.

Em seu livro “Stupid White Men – Uma nação de idiotas” (2003), o cineasta e escritor Michael Moore satiriza de forma autêntica a falta de inteligência do “American Way” sobre as populações que não se encaixam nessa ideologia, como hispanos(as) e negros(as).

“De verdade”, anota Moore, “os negros sabem sobre a gente. Eles sabem que dizemos e fazemos coisas para dar a impressão de que está sendo feito progresso. Eles nos veem dando duro para mostrar como não somos preconceituosos. Esqueça. Não fizemos progresso real. Ainda somos intolerantes. E eles sabem disso”.

Moore tem razão: ser negro nos Estados Unidos da contemporaneidade e abraçar o movimento “Black Lives Matter” é trazer o risco de um movimento dicotômico, como um “White Lives Matter” (na pior das hipóteses).

Na prática, o Alt-Right  desperta a onda reacionária, sobretudo a cada impropério lançado via Twitter por Trump. A grande questão histórica é que o fato de ser uma sociedade multicultural não significa a existência de uma relação de interação harmoniosa entre grupos étnicos distintos. Suas instituições reproduzem laboratórios de tensão social constantes.

E há a condicionante de processos de crises econômicas em geral produzirem saídas pela direita. Como podemos perceber, a exploração capitalista possui mecanismos muito versáteis de apropriação dos bens materiais e culturais para vender uma ideologia que mais se encaixe nas necessidades econômicas emergenciais e políticas de uma nação.

Neste “Black or White”, Trump é ultraconservador no plano político, mas ultraliberal no plano econômico. E aí? Seria um erro inferir que Barack Obama também governou para a elite branca e rica que o manteve na Casa Branca? A diferença agora é que Trump deixa os “reaças” excitados com essa história de falar mal de mulheres, negros e gays.

O que ocorre nos EUA é reflexo de uma hipotética possibilidade de bem-estar amparada em uma confederação que não consegue assegurar o que sua carta de independência de 1776 promulgou: o projeto da liberdade e oportunidades para todos(as). Nada mais justo e iluminista. Só que na prática, a coisa é bem diferente.

Uma prova é que os sulistas não reconhecem (ou não se sentem parte) do projeto nacional da ‘União’. O sociólogo Stuart Hall, em “The question cultural identity” (1992), quando observa a concepção sociológica da identidade que preenche o espaço “interior” e o “exterior”, defende que projetamos em distintas experiências sociais valores internalizados individualmente e isto contribui para alinhavar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo.

Ou seja, a identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Essas interrelações podem ser interessantes, mas podem produzir um outro tipo de sujeito(a). Um ser que pode ser motivado pela busca do pertencimento cultural por meio da violência, projetando no outro(a) o lugar que não reconhece.

O algodão produzido com mão-de-obra escravizada nos estados do Sul alimentou a indústria têxtil europeia no século XIX. Neste sentido, constrói-se uma ideologia pautada nas assimetrias sociais e sua consequente dominação. Em pleno século XXI, presenciamos o prenúncio de uma nova (mas velha) guerra, colocando os valores da “liberdade” e da “igualdade” em xeque mais uma vez na terra do Tio Sam.

Caso o governo Trump não se posicione abertamente contra os levantes dos supremacistas brancos, infelizmente teremos o prenúncio de algo pior do que Charlottesville… Façamos uma prece a Martin Luther King.