Cinco lições do filme “Na época do Ragtime”

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Antes que comece a ler esta matéria é bom ater-se ao seguinte aviso: pode conter trechos considerados como spoiler.

O filme “Na época do Ragtime”, do renomado diretor Milos Forman, que assina também os clássicos “Um estranho no ninho” e “Hair”, marcou época. Na década de 1980 foi indicado a oito estatuetas do Oscar e a sete Globos de Ouro abordando temas como racismo, intolerância e discrepância social.

A obra apresenta personagens diferentes que sofrem injustiças e reagem com impulsão e demonstram ódio quando se percebem impotentes diante do sistema.  Fato é que cada um teve um final próprio, mesmo tendo algo em comum, o sentimento de impunidade que os leva a cometer atos ilegais. Ao acompanhar o drama destes homens você pode julgá-los, criticá-los, adjetivá-los de arrogantes, vaidosos, obstinados…

Certos ou errados, cabe a cada telespectador o juízo de valor, ainda assim apenas um personagem fica sem final feliz, apenas um paga pelos seus pecados, apenas um sente em sua pele os efeitos do ego e este obviamente é o personagem negro. Todos são corruptores? Todos agem com insubordinação, porém, o único que deve aquiescência à sociedade em seus extremos, além dos seus limites, é o homem negro.  O único que pagou o alto preço da irreverencia foi o homem negro.

Se você carrega em sua pele esta responsabilidade, sabe do que estamos falando. Sabe que na infância, na adolescência, até na vida adulta as consequências dos seus erros sempre serão mais sentidas, erros sempre serão crassos. Se você for figura pública, talvez, terá bandeiras de solidariedade, “Somos todos Maju”, agora se for um ilustre anônimo é melhor você pensar, porque no caso do nosso personagem negro não podemos concluir que ele errou. A não ser que buscar por justiça seja um erro para um homem negro. Mas, é possível buscar por justiça sem ser radical?

Ser negro é viver a eterna arte de lidar com as ofensas cotidianas, com as provocações diárias, mantendo a saúde mental e a boa ordem. O nosso personagem negro é um belo músico que um dia acordou terrorista, também esta é uma característica do ser negro acordar um dia cheio de virtudes e no outro tão marginalizado, tão periférico, sem passado e sem futuro. Ele estava feliz com a paternidade e na expectativa do casamento, ser negro é perder em um instante todo o romantismo, toda a glória.

Os demais personagens que vivenciaram a injustiça também tiveram sonhos interrompidos, com uma única diferença, puderam voltar encontraram o caminho de regeneração, compraram o seu perdão.  

Acompanhe cinco lições extraídas do filme “Na época do Ragtime”:

1.   Ambientes de provação podem mudar o curso da nossa vida – Uma das cenas mais marcantes e polêmicas do filme é a em que o bombeiro coloca fezes no banco do carro do personagem Coalhouve Walker, o cantor negro que usufruía de uma condição diferenciada. Este, por sua vez, precisa decidir entre retirar o excremento com suas próprias mãos ou buscar por justiça. Alguns minutos transformaram a vida do personagem, mudanças irreversíveis.

2.   A justiça não é para todos – O noticiário diário testifica o quanto tendencioso o judiciário pode ser e como as leis estão a serviço de interesses que excedem ao individuo e a dignidade da pessoa humana.

3.   O preconceito  não é  apenas social – Com a música Coalhouve Walker conseguiu uma boa condição, tinha inclusive um bom o carro isto não foi impedimento para que ele fosse medido pela cor da sua pele, sofrendo insultos inclusive por conta dela. O status quo de Walker aumentou o cinismo, ódio e  hostilidade  ofertados à ele.

4.   Fazer justiças com as próprias mães talvez não seja o caminho para se alcançar justiça –  A revolta muitas vezes é oriunda da incredulidade nas instituições. Assim como o linchamento surge de um sentimento de impunidade.

5.   Você não está só  – Embora tenha terminado sozinho, o cantor estava acompanhado de mentes inconformadas que dividiam do mesmo sentimento de indignação. Ao sair do ostracismo , percebemos que todos os dias, muitas pessoas passam ou se revoltam com as mesmas situações e defendem as mesmas causas.

Ficha técnica do filme “Na época do Ragtime”

Ano, local: 1981, EUA.

Direção: Milos Forman.

Gênero: Drama.

Elenco: James Cagney, Brad Dourif, Elizabeth McGovern, Mary Steenburgen, Norman Mailer, Samuel L. Jackson, Jeff Daniels, Moses Gunn.