Flávio Bauraque conta a história de seus 36 anos de carreira

Ator que interpretou Cartola em musical relembra o início da carreira e fala sobre preconceito racial

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Não se deixe impressionar ao saber que o ator Flávio Bauraqui é um ariano com ascendente em escorpião, pois a voz forte, porém mansa diz muito a respeito deste homem destemido e resiliente. Que não se intimida diante as adversidade da vida.

Flávio atendeu o Afrobrasileiros mesmo durante as merecidas férias e compartilha conosco a bela história que vem construindo em 36 anos de carreira. Leia e se inspire!

Afrobrasileiros: Como teve início sua carreira como ator?

Flávio Bauraqui: Comecei como ator aos 15 anos, devido a uma gincana escolar. Eu era muito hiperativo e a professora me incentivava a dar vazão a toda minha energia em outras atividades. Então, para participar dessa gincana na escola eu escrevi uma peça sobre um jovem negro que ao assaltar uma velhinha que carregava consigo duas bolsas, se dá mal roubando a bolsa errada, que continha material fisiológico que a senhorinha estava levando a um laboratório. Dei o nome de “Aprendiz de Ladrão” a essa história, pois foi uma forma de protesto contra o pensamento pejorativo de que o negro tem o “perfil do ladrão”, porque, no final, a peça mostra que o rapaz não consegue se dar bem como ladrão, quebrando o senso comum que induz algumas pessoas a este tipo de concepção.

Afrobrasileiros: Mas, como foi que deu início aos trabalhos como ator?

Flávio Bauraqui:  Atuar para mim sempre foi algo muito intuitivo. Aos 16 anos realizei algumas apresentações com o Grupo de Teatro Improviso, ainda em Santa Maria, minha cidade natal, e estes trabalhos chamaram a atenção de dois jornais locais. Cheguei a ganhar dois prêmios em Santa Maria. Então me mudei para Porto Alegre, onde trabalhei como metalúrgico. Foi um período complicado, pois eu levantava às 4 horas da manhã (Risos). Deixei este emprego e resolvi me mudar para o Rio de Janeiro e mesmo com a promessa de uma carona que não foi cumprida eu não desisti! Graças a minha mãe que vendeu alguns porta vasos juntei dinheiro e me mudei para o Rio com a cara e a coragem

Afrobrasileiros: E como foi chegar a uma cidade nova, para lutar por um sonho?

Flávio Bauraqui: Inicialmente fui morar com uma amiga em Niterói, passei 7 dias olhando o Rio de longe, ainda como um cartão postal. Posteriormente minha irmã me ajudou muito me abrigando clandestinamente no prédio onde morava. Eu procurei emprego no teatro, mas em 1993 não havia muitas opções e fui trabalhar como porteiro. O trabalho como porteiro foi uma forma de me virar no Rio de Janeiro e ter onde morar. Consegui paralelamente trabalhos no teatro e deixei o material de uma peça na qual estava atuando na portaria do prédio onde trabalhava. As pessoas passavam, viam o material e ficavam surpresas ao saber que eu atuava, os condôminos tornaram-se assíduos telespectadores de meus trabalhos. Foi justamente por isso que surgiu a ideia de eu dar aulas de teatro para os moradores do prédio. Me tornei professor de teatro e porteiro. O síndico do condomínio não gostou muito da ideia e chegou a comentar: “Criolo metido a artista”. Quando souberam disso, alguns condôminos se mobilizaram e chegaram a colocar cartazes nos elevadores denunciando esta situação. O síndico não aguentou e me demitiu dizendo que “era melhor deixar eu me dedicar apenas ao teatro”, como se estivesse me fazendo um bem. Recebi o convite de uma moradora para ir morar com ela. Minha relação com o síndico melhorou com o tempo, pois sempre procuro reverter situações adversas. Como disse certo dia um amigo: “melhor do que usar a arma é usar a flor”.

Afrobrasileiros: Esta foi a sua primeira experiência com o racismo?

Flávio Bauraqui: Eu enfrentei muito bullying na infância, praticado por uma pessoa da família que me criou. Escondi por muito tempo, mas aos 11 anos não consegui mais suportar. A pressão foi tanta que durante muito tempo eu me enxergava como um monstro, não tinha autoestima, acreditei em tudo que essa pessoa tinha me dito e me enxergava de uma forma distorcida. Fique paranoico com isso. Foi no Rio de Janeiro que me identifiquei com a minha negritude. Quando tirei umas fotos e as pessoas me elogiavam, minha autoestima começou a nascer. Comecei a me gostar e o lado ator também me ajudou a superar tudo isso.

Afrobrasileiros: Quando foi que a sorte começou a contribuir para o ator Flávio Bauraqui que conhecemos hoje?

Flávio Bauraqui: Quando sai da portaria e fui viver com a Dona Tereza, um dia o Beto Simas, capoeirista e ator, que sempre passava por perto de onde eu morava, me indicou um trabalho na Trupe do Rei, do diretor André Paes Leme. Com o André fiz muitos espetáculos e me tornei o ator dos musicais.

Afrobrasileiros: Foi aí que se descobriu como cantor?

Flávio Bauraqui: Eu cantava na igreja católica, não conhecia meus agudos por causa da voz grave, mas fui me descobrindo nos musicais que fiz, desde a adolescência, ainda em Santa Maria. Na peça “Forrobodó”, inicialmente eu teria um papel pequeno, mas com a recusa de um ator, fui indicado a fazer a peça e no teste cantei “Se essa rua fosse minha”. Acabei pavimentando essa rua! (Risos). Depois disso vieram vários outros musicais e shows no Centro Cultural Banco do Brasil.

Afrobrasileiros: Como surgiu a ideia de interpretar a história de Cartola?

Flávio Bauraqui: Eu fazia uma peça chamada “Elis, estrela do Brasil”, na qual interpretava o Jair Rodrigues, com a direção do Diogo Vilela. Então em 2004, fui chamado para protagonizar a peça “Obrigado Cartola”, da Sandra Lousada. Só que essa peça durou apenas uma temporada e acabou em 3 meses. A frase que ficou na minha cabeça foi: “E agora o que eu faço com toda essa preparação?”. Assim que fui chamado para este elenco observei a elegância do Cartola, passei a me ater a todas as características dele e percebi que ele tinha uma protuberância no lábio inferior. A partir daí comecei a falar prendendo o lábio inferior para dentro. Foram 2 meses repetindo movimentos, imitando a voz dele… eu já ia para o ensaio vestido de cartola. A neta do Cartola, Nilcemar Nogueira, atual secretária de Cultura da cidade do Rio de Janeiro, me levou na casa dela, conheci a Dona Zica e até recebi a benção de usar o anel que pertenceu ao Cartola durante as apresentações. Com o fim dessa peça realizei vários outros trabalhos interpretando Cartola. Até que resolvi que já era o bastante. Mas, anos depois voltei para o musical Cartola – O Mundo é um Moinho. Em respeito ao parceiros de cena reconstruí o Cartola com o novo elenco. Nessa versão do Artur Xexéo, tive a oportunidade de viver o Cartola desde os 17 anos, o que foi muito bom.

Afrobrasileiros: Participar de obras que tratam da temática negra é diferente?

Flávio Bauraqui: Com certeza! Daí não é só uma peça, digo que é um evento político. Um kit, que além de uma obra contém uma atitude política. Ver as pessoas chorando e falando sobre o quanto é bom ver negros como protagonistas é muito gratificante. Que bom que essa peça existe! E não é só essa, há vários outros grupos que não têm visibilidade, mas são grupos com atores negros. É muito importante ocupar estes espaços e interpretar quem nós representamos.

Afrobrasileiros: Há previsão de retorno do musical?

Flávio Bauraqui: Em março e abril do próximo ano voltaremos ao teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, e no final do ano vamos para uma temporada na Europa.

Afrobrasileiros: Já que interrompemos suas férias, nos conte sobre o que você gosta de fazer neste período.

Flávio Bauraqui: Curto pensar em próximos trabalhos, mas no momento estou descansando, indo à praia, me dedicando à música e contribuindo de algumas palestras, como a que vou participar aqui na PUC do Rio. Precisamos destes momentos, não podemos ser capitalistas burros que só pensam em dinheiro.

Afrobrasileiros: Qual mensagem deixa para os jovens que pensam e iniciar uma carreira como ator?

Flávio Bauraqui: Eu sempre acreditei em mim e tenho muito amor pelo que faço. O que tenho a dizer é que é preciso ter resistência. Fazer e não apenas reclamar. Porque a gente tem que existir, por mais que tentem nos apagar.