Day Rodrigues: “Sentar na cadeira de diretora é um ato de resistência”

Realizadora do curta premiado "Mulheres Negras: Projetos de Mundo" critica a invisibilidade intelectual das mulheres negras no Brasil

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'Chegar até aqui foi um processo de cura, emancipação e conexão com a minha espiritualidade de matriz africana'. Foto: Pedro Ivo

Para a feminista negra Day Rodrigues, filmar o curta Mulheres Negras: Projetos de Mundo foi, acima de tudo, um processo de cura. O filme, lançado em setembro de 2016, centra-se na fala de nove mulheres negras brasileiras, que compartilham com a diretora e com o público suas narrativas e vivências em um País marcadamente racista e misógino.

Independente, a produção foi premiada no festival Cine PE, em Recife, nas categorias direção e júri popular e exibida em cidades tão distintas quanto São Paulo, Aracajú e Belém. Por muito tempo, porém, a produtora cultural e escritora acreditava que o projeto nunca passaria de um sonho.

Rodrigues, que também é cineasta, cita como motivos a ausência de auto-estima e a invisibilidade intelectual das mulheres negras no Brasil, problemas cuja origem encontram-se no acúmulo de violências da sociedade contra essa parcela da população.

“Não somos educadas nas escolas para desenvolver uma boa oratória, retórica ou escrever os nossos projetos. As oportunidades não batem em nossas portas como acontece para a branquitude, de forma geral”, diz ela, que critica a falta de oportunidades para as negras e a elitização do cenário audiovisual.

Confira a entrevista:

CartaCapital: O filme “Mulheres Negras: Projetos de Mundo” teve a sua estreia no dia 12 de setembro de 2016, com duas sessões lotadas, na Galeria Olido, em São Paulo. Desde lá, foram mais de 30 exibições, em várias cidades diferentes do Brasil. Conte-nos um pouco sobre o ponto de partida para essa produção cinematográfica: 

Day Rodrigues: Esse filme foi um processo de cura para mim. Quando falei essa frase na primeira entrevista, exatamente um ano atrás, para a jornalista Fernanda Vicente, eu ainda não sabia o quanto esse documentário me modificaria.

Pois, quando pensei no projeto do filme, desde o formato até quem seriam as mulheres convidadas, eu queria ter um material que respondesse à ausência das mulheres negras nos lugares de poder, principalmente, no espaços acadêmicos.

Daí, quase como num chamado, lembrei de uma conversa nossa, Djamila, em que você disse: “Você precisa estudar as feministas negras, porque elas têm projetos de mundo, que abarcam todas as outras camadas da sociedade”. Assim, decidi entrevistar mulheres negras, feministas ou não, dispostas a contar um pouco de suas narrativas e vivências quando estamos pensando o Brasil racista, misógino, lesbofóbico…

CC: E depois da estreia, um ano depois, como foi chegar até aqui, agora, como realizadora negra também no audiovisual? 
DR: Desde quando trabalhei numa livraria de Santos (SP), onde recebia muitos escritoras e escritores de várias partes do mundo, eu também desejava poder circular com um trabalho artístico, dessa maneira. Só não contava que seria fazendo audiovisual. Então, quando recebi os primeiros convites para levar o filme para fora de São Paulo, em cidades como Belém do Pará e Brasília, pude realizar um sonho antigo.

E isso soava como impossível, até então. Por causa dos das consequências dos acúmulos de violências contra a mulher negra, como a ausência de auto-estima e a invisibilidade intelectual.

Este último diz respeito à falta de oportunidades: não somos educadas nas escolas para desenvolver uma boa oratória, retórica ou escrever os nossos projetos. As oportunidades não batem em nossas portas, como acontece para a branquitude, de forma geral. Precisamos negociar o tempo inteiro, tanto para sermos ouvidas, como para avançar sem se curvar e, inclusive, dizer não. Assim, chegar até aqui foi um processo de cura, emancipação e conexão com a minha espiritualidade de matriz africana.

CC: Como foi ser premiada no Festival Cine PE 2017 (Recife), com os prêmios de melhor direção e júri popular (Mostra Nacional de Curtas-Metragens)?
DR: Para responder essa pergunta, vou me referir à atriz e MC Dani Nega, que ganhou junto ao músico Craca o Prêmio da Música Brasileira 2017. Em suas palavras, disse: “Esse prêmio não é só meu. Tem o peso e o legado dos nossos [ancestrais]”.

Afinal, os cânones da literatura, cinematografias e referências bibliográficas estão pautados ainda hoje pela branquitude e mentalidade colonial, da esquerda branca que não se racializa e pouco discute sobre os seus privilégios.

Então, ainda que o ambiente hostil do festival pouco favorecesse a minha permanência por lá, pois, além de ter sido recebida de forma desrespeitosa pela coordenadora de produção, o meu nome não constou como diretora nos cartazes e no folder do evento, apesar disso, saí de lá com uma força ampliada para continuar.

A diretora do festival ainda trouxe uma justificativa e resposta burocrática na coletiva de imprensa, porque fiz uma fala de denúncia, antes da exibição do meu filme, sobre tal episódio. Porém, não perceberam o que estava em jogo: a ausência da discussão sobre racismo institucional, por exemplo, dentro das curadorias dos festivais brasileiros. Dentro desse cenário, pude ver de perto como está a elite decadente desse país. Mas saí premiada, saí pela porta da frente.

CC: Por meio do filme você conheceu muitas histórias, pessoas, lugares e ainda teve a oportunidade de novos convites de trabalho, como a direção do videoclipe “Papo Reto”, da dupla Dani Nega e Craca. O que foi mais marcante?

DR: Um dos momentos mais importantes, com certeza, foi poder retornar ao Festival Latinidades, em julho deste ano, para exibir o documentário e participar do lançamento do videoclipe. A emoção se deu porque, em 2014, estive como público nesse mesmo evento, quando se anunciava a Marcha das Mulheres Negras (para novembro de 2015). A partir dali, depois de ouvir e ver também a Angela Davis, compreendi um momento de novas perspectivas para as mulheres negras no Brasil. Por isso, retornar para o Latinidades e ser acolhida pelas mais velhas, assim como por um público amplo, trouxe acalanto e calmaria para continuar. Eu fechava ali um ciclo. Da mesma fonte, pude conhecer a nossa diversidade e referências importantes do feminismo negro, assim como retornar e dizer: tornei-me mais mulher negra.

CC: Por fim, quais são os seus projetos de mundo?
DR: Eles já começaram. Acabei de fazer uma entrevista com a Thalma de Freitas. Ela está no Brasil, para apresentar um programa sobre fotografia. Daí, por uma aproximação que se iniciou por conta do filme “Mulheres Negras: Projetos de Mundo”, pois, de forma muito generosa ela se ofereceu para traduzi-lo para o inglês, tive a felicidade de fazer essa entrevista, agora. Assim, logo mais, teremos uma série de vídeos, para poder aprofundar as biografias de mulheres negras e suas histórias e legados.

Eu pretendo também estudar sobre o cinema negro e construir caminhos mesclados com a educação. Ocupar a cadeira da diretora ou escrever um roteiro é um ato de resistência e político, que venham as novas gerações!