Cotas na UFMG: pessoas brancas se utilizam do recurso para entrar na Medicina

Alunos, movimento negro e entidades estudantis reforçam a queixa contra os estudantes que se utilizaram indevidamente do sistema de cotas

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O curso de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o terceiro melhor do país, possui dezenas de ingressantes pelo sistema de cotas raciais de forma fraudulenta. Apesar de serem brancos, se autodeclararam como negros, pardos ou indígenas para fazerem uso das ações afirmativas.

Vinicius Loures

O caso do calouro Vinicius Loures de 23 anos é o que vem causando entre a comunidade universitária maior impaciência. Com cabelos loiros, pele e olhos bastante claros o estudante se autodeclarou como negro na inscrição, o que o fez ingressar na faculdade de medicina com a pontuação reservada para cotistas.

Para além disso, Vinicius também não teria sequer alguma ligação social ou cultural com a realidade negra. Ele não se pronunciou sobre as acusações.

Bárbara Facchini
Rhuanna Laurent

Outros dois casos que ganharam repercussão na Universidade são as estudantes Bárbara Facchini de 19 anos e de Rhuanna Laurent. Ambas têm questionadas suas autodeclarações como negras e depois da polêmica também não se pronunciaram respondendo os questionamentos. Bárbara diz apenas que o “assunto é delicado” e que diversas pessoas “distorcem” as coisas.

Sistema de cotas da UFMG

No sistema da UFMG, implementado em 2009, quando o candidato se autodeclara negro, pardo ou índio automaticamente concorre a uma vaga entre o subgrupo em que se colocou. No ENEM, as notas de corte chegam a ter 28 pontos a menos para os que concorrem pelas ações afirmativas e 50% das 1.958 vagas são reservadas para esta modalidade.

A Universidade, depois das denúncias, informa que o controle de acesso em ações afirmativas será aprimorado assim como no próximo ano deve ser criada também uma comissão de sindicância, responsável por analisar as denúncias de fraude. De acordo com o pró-reitor, a universidade se esforçou nos últimos anos em desenvolver melhor o acesso e a permanência. A partir de agora é colocada também como tarefa que o sistema de ingresso seja aprimorado.

Para isso, além da autodeclaração será também exigida dos candidatos uma carta formal onde relatem os elementos que permitam que estes se reconheçam como negros, pardos ou indígenas.

Não foram informados quantos são os casos com análises em andamento, porém declaram que se comprovada a fraude o estudante terá sua matrícula cancelada.

Manifestações de repúdio

O diretório acadêmico do curso de medicina, através de uma nota, se posicionou em relação ao tema e aponta a necessidade de mudança “a UFMG precisa encontrar formas de coibir ações fraudulentas, de modo que a finalidade da política de ações afirmativas se instaure de maneira efetiva”. No texto ainda é denunciado o caráter elitista e reprodutor de opressões “Assim, tanto a Faculdade de Medicina quanto a universidade poderão deixar de ser ambientes tão elitizados e de reprodução de opressões”. É ressaltada também que o sistema de cotas, se utilizado de forma correta, possui papel importante na democratização do acesso á universidade “Desse modo, tais espaços estarão aptos a se tornar mais democráticos, pintando-se com a verdadeira face do povo brasileiro.”.

Além disso, muitos estudantes negros da universidade e do curso de medicina em diversas declarações mostram-se insatisfeitos e injustiçados pelas fraudes no ingresso de estudantes brancos por meio de um sistema criado para amenizar as desigualdades na composição étnica das salas de aula.