De mãe para Filha

Gabriela Dias conquista personagem em série global e junto à mãe, Kenia Maria, fala sobre este novo momento

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Gabriela Dias, filha da atriz e escritora Kenia Maria que é atriz escritora e defensora das mulheres negras da Onu Mulheres e casada com o ator Érico Brás, e portanto enteada do ator, interpreta sua primeira personagem na nova série da Rede Globo de Televisão “Cidade Proibida”. A jovem tem uma história de resistência contra a invisibilidade do negro na mídia. Aguerrida e ousada, Gabriela herdou da mãe a missão de ser independente.

Numa conversa franca as duas falaram da infância, das mulheres que as inspiraram, do racismo e evidentemente sobre essa conquista.

Afrobrasileiros: Como foi trabalhada a questão da negritude, da identidade na sua casa?

Kenia Maria: Sou neta do babalorixá Samuel Gama e sobrinha do Mestre Celso fundador do Engenho da Rainha um dos principais movimentos capoeiristas do Brasil e ainda recebi influência da minha irmã Beatriz a primeira feminista negra que conheci. Tem uma tradição na minha família que minha tia Dilma (proprietária do Dida Bar) faz questão de preservar, toda vez que alguém se forma ou tem uma grande conquista, celebramos com uma festa africana. A Gabriela absorveu tudo isso. Quando me casei com o Érico que também vem de um movimento artístico político, Gabriela tinha 12 anos, aos 13 anos exatamente ela teve a ideia de criar o “Tá bom pra você?”. Em casa debatemos todos os dias vários assuntos, o racismo é um deles, e na maioria das vezes Gabriela e Mateus trazem os temas que serão debatidos.

Afrobrasileiros: A falta de referências negras impactou muito em sua infância?

Gabriela Dias: Milhares de crianças negras veem enfrentando essa questão durante anos e anos. Passei a minha infância inteira na Venezuela. Eu tinha muitas influências latinas como Shakira, Alejandro Sanz, Calle 13 e Rebelde (RBD). Porém, sentia falta de influências negras, principalmente mulheres. No momento que “descobri” a cantora Beyonce posso dizer que eu mudei por completo. Ver uma mulher negra fazendo arte com discurso feminista, estampando a capa das principais revistas e publicidades do mundo é uma motivação para mim e para milhares de meninas negras. Ela foi e sempre será minha referência e inspiração, por isso digo que representativa importa sim. Vi em Beyonce a mulher feminista de salto alto e batom vermelho que eu quero ser. Quando cheguei no Brasil o primeiro show que minha mãe me levou pra assistir foi da Karol Conka! Apesar de ter nascido na Venezuela, país que amo e que vem enfrentando um momento muito triste e conturbado, sou brasileira. A necessidade de ver meninas parecidas comigo cantando, fazendo sucesso com sua arte era imensa. Fiquei fascinada pela Karol Conka.

Afrobrasileiros: O quadro “Tá bom pra você?” auxiliou para que vocês conseguissem ultrapassar as barreiras da invisibilidade?

Gabriela Dias: Quando eu tive a ideia de criar o “Tá bom pra você” eu tinha apenas 13. Por ser de uma família consciente, consegui detectar as dificuldades que encontraria como atriz e encontrei uma forma de me manifestar a respeito.

Kenia Maria: O “Tá bom pra você” foi o grito de uma adolescente de 13 anos! Acho que ela foi ouvida. A injustiça social sempre me inquietou. Penso que o fato dela chamar a publicidade para reflexão foi ousado. Aos 15 ela já estava no palco do Troféu Raça Negra, na Sala São Paulo, recebendo uma homenagem da Faculdade Zumbi dos Palmares. Ali eu percebi que a brincadeira era seria. Hoje a minha missão é fazer com que ela esteja sempre com os pés no chão.

Afrobrasileiros: Como receberam a notícia de que a Gabriela teria um personagem em uma novela global?

Kenia Maria: Quando soube que a personagem teria como país Ailton Graça e Adriana Lessa eu chorei muito, fiquei emocionada demais. Até hoje me emociono. Na maioria das vezes o personagem negro não tem família, história, quem dirá pai e mãe. Isso é uma vitória! Ainda falta muito, muita coisa tem que mudar. Nós temos muitas histórias que precisam ser contadas! Gabriela será dirigida pelo grande mestre Mauricio Farias, ela está em ótimas mãos. Isso me emociona, mas sei que é um primeiro trabalho, primeiro passo e deixo isso bem evidente para ela. Lucidez é essencial nesse momento.

Gabriela Dias: Desde que comecei a estudar teatro tinha certeza que era isso que eu queria para a minha vida, porém sabia que iria enfrentar grandes dificuldades para conseguir espaço na televisão e publicidade. Ao receber a notícia, foi uma das melhores sensações que eu poderia sentir. Percebi que minha dedicação ao meu trabalho, ao meu estudo tinham valido a pena. Foi algo em que acreditei e tive apoio familiar necessário para alcançar meu objetivo.

Afrobrasileiros: Como você vem se preparando para esse desafio?

Gabriela Dias: Estou fazendo o meu próprio ofício, isso é uma vitória e tenho consciência que não será fácil, estou atenta. Meu personagem passará por algumas dificuldades que milhares de pessoas passam, então será muito importante o máximo de realismo possível. Estou tomando cuidado para não deixar a questão medíocre, a cena, o canto, a fala e tudo que preciso ter para interpretar a Lurdinha.

Afrobrasileiros: Você sempre incentivou que seus filhos se capacitem para várias funções, como atuar e cantar, entre outras?

Kenia Maria: A arte cura. Minha mãe é pedagoga e professora de teoria musical. o tema da monografia dela foi sobre a importância da música na educação infantil. Eu e meus irmãos éramos obrigados a fazer aula de música. Entendendo essa importância e a ausência desse estímulo nas escolas, desde cedinho coloquei a música e a dança entre as atividades deles, assim como o esporte também. Gabriela se apaixonou pela arte aos 4 anos e Mateus pela medicina. A arte foi importantíssima nessa decisão.

Afrobrasileiros: Como será interpretar e cantar na trama?

Gabriela Dias: Sempre amei o teatro e o canto, quando posso fazer a junção das duas profissões é a melhor coisa que pode existir. Não é fácil porque não posso esquecer que será uma personagem que cantará e falará como uma mulher dos anos 1950. Então tenho que adaptar a fala, o corpo e o canto para uma mulher daquela ocasião no Brasil. Sempre fui apaixonada por essa época. Minhas influências são desse período, então isso só me dá mais prazer ainda de executar esse trabalho incrível.

Afrobrasileiros: Sua personagem vai integrar uma família negra, como você enxerga essa questão?

Gabriela Dias: Será umas das coisas mais importantes que vou poder representar. Estamos vivendo o agora, o óbvio, o real. Existiam famílias negras naquela época, pessoas importantes, porém eram caladas. Viverei uma mulher negra e de black power, dos anos de 1950, com uma mãe e um pai. Será uma família importante. Uma filha cantora, uma esposa independente, um pai delegado. Isso tudo já é empoderamento, representatividade.

Afrobrasileiros: Qual a opinião de vocês sobre o empoderamento da mulher negra e a luta pela ocupação de espaços, outrora cerceados ao negro?

Kenia Maria: Estamos vivendo um momento lindo da luta feminista negra! Vejo meninas como Elis MC e MC Soffia falando de empoderamento! Isso tem as mãos de Elza Soares, Lélia Gonzales, Beyonce, Taís Araújo, Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Stefani Ribeiro, Luiza Bairros… Uma mulherada pesada que resistiu e resisti. Devemos isso a elas! Tenho esperança que a próxima geração vai continuar lutando e resistindo!

Gabriela Dias: Nós mulheres negras estamos enfrentando essa questão há anos. Sabemos das dificuldades, sabemos dos lugares que insistem em nos locar, sabemos da hipersexualização da mulher negra, sabemos disso tudo. O feminismo foi uma porta importantíssima para esse empoderamento. A luta pela igualdade de classe e gênero ainda não acabou. Me dá uma felicidade enorme ver meninas da minha idade aceitando os seus cabelos crespos e cacheados, se achando mais bonitas, coisas que até 5 anos atrás não aconteciam. Isso tudo é graças ao feminismo.

Afrobrasileiros: Você consegue se enxergar na Gabriela?

Kenia Maria: Temos uma conexão incrível! De olhar e saber o que a outra está pensando. É amizade mesmo! Vejo nela a lucidez e frieza que assumo quando me vejo diante de um problema, por exemplo. Ela é racional, uma típica capricorniana. Fui criada pra ser livre! Gabriela é o que eu aprendi. Vejo os ensinamentos da minha mãe e os meus em cada gesto dela. Muito mais liberta que eu, ela é autêntica e única em tudo. A vida dela é, foi e será diferente da minha e da minha mãe. Faço diariamente o exercício de entender que ela pode e tem o direito de ser o que ela quiser, ofereço o tempo todo o máximo de informações para que ela seja independente e não desista de seus sonhos.

Afrobrasileiros: Qual seu maior ensinamento para sua filha?

Kenia Maria: Seja independente financeiramente. Isso virou um mantra! O primeiro mandamento! Fui educada por uma das pedagogas mais sensata que conheço: minha mãe. Tive a sorte de ser educada por mulheres negras incríveis na minha família, minhas referências são elas. Faço questão de dizer que não sou a Mulher Maravilha e que com certeza cometerei erros, nunca romantizei a maternidade nem o casamento. Ela tem plena consciência de que o Brasil ocupa o quinto lugar no ranking de pior país para uma mulher viver e aprendeu a se proteger, mas ainda assim, quando ela sai à noite eu já sei que não vou dormir.

Afrobrasileiros: Qual seu maior aprendizado com sua mãe?

Gabriela Dias: Ela sempre me ensinou a ser uma mulher independente. Venho de uma família de mulheres independentes, isso seria natural pra mim. Nunca aceitaria alguma imposição, alguma injustiça ou etc. seria abominável. Independência é importante.