“Protesto de jogadores negros na NFL mostra falácia da era pós-racial”

Para a professora da Howard University, Trump acirra a questão racial pois os supremacistas brancos se sentem empoderados com sua eleição

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#TakeAKnee: Atletas do time de futebol americano Dallas Cowboys ajoelham-se durante o hino dos EUA no estado do Arizona. Foto: Christian Petersen / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP

Carregado de significado político, o ato de se ajoelhar durante o hino nacional em protesto ao racismo e à violência policial espalhou-se como um rastilho de pólvora nos Estados Unidos de Donald Trump.

O protesto pacífico e silencioso nasceu com o jogador de futebol americano Colin Kaepernick, que dobrou um joelho durante a execução do hino nacional norte-americano antes dos jogos do San Francisco 49ers, pelo qual atuava como quarterback em 2016. “Eu não vou ficar de pé e mostrar respeito para a bandeira de um país que oprime pessoas negras e outras minorias”, declarou.

Transmitido em rede nacional, o gesto foi magnificado pelo cenário de ebulição dos conflitos raciais no país. Ao final da temporada da National Football League (NFL), o promissor Kaepernick anunciou que estava saindo do 49ers e, até o momento, não conseguiu fechar contrato com nenhum outro time.

Na sexta-feira 22, durante um comício no estado do Alabama, Trump reacendeu o debate, ao criticar os protestos de jogadores, classificando o gesto como “antipatriótico” e sugerindo que os times deveriam demitir quem se recusar a ficar de pé durante o ato solene. Disse ainda que os jogadores que realizam esses protestos eram “filhos da puta”.

Após as críticas de Trump, as manifestações espalharam-se ainda mais entre os jogadores negros, com cerca de 200 ajoelhando-se, sentando-se ou erguendo os punhos cerrados em protesto durante o hino no último domingo 24. A tag #TakeAKnee também passou a ser usada nas redes sociais em solidariedade e protesto contra a injustiça racial.

O quarterback Colin Kaepernick
‘Eu não vou ficar de pé e mostrar respeito para a bandeira de um país que oprime pessoas negras e outras minorias’, disse Colin Kaepernick

Para a brasileira Ana Lucia Araújo, professora no departamento de História na Howard University, em Washington DC, a capital dos EUA, ajoelhar-se durante o hino nacional estadunidense é uma forma de denunciar a violência racial, “cujo acirramento tem ficado mais explícito agora porque os grupos de supremacistas brancos se sentem empoderados com a eleição do novo presidente”.

Confira a entrevista:

CartaCapital: Como a senhora vê as recentes manifestações públicas de atletas negros norte-americanos durante a execução do hino nacional contra o racismo e a violência policial?

Ana Lucia Araújo: O esporte como lugar de protesto contra o racismo e a violência racial tem uma longa história entre os atletas afro-americanos nos Estados Unidos. Em si não é uma novidade. Eles são a expressão de que a tão anunciada era pós-racial é e sempre foi uma falácia. O espaço esportivo tem grande visibilidade já que, como no Brasil, é um dos lugares onde se encontram vários afro-americanos que são figuras públicas. Ou seja, nada mais propício que essas manifestações ocorram nesse espaço e se tornem assim mais visíveis e tenham mais impacto.

CC: Qual é o papel da eleição de Trump no processo de acirramento do conflito racial nos EUA?

ALA: Nos últimos meses, os protestos de jogadores da NFL adquiriram uma nova dimensão. O hino nacional estadunidense, assim como outros símbolos que figuram no espaço público de muitas cidades (não só nos Estados Unidos mas também em países como o Brasil) sejam eles monumentos ou a bandeira dos estados confederados, celebram a escravidão e a supremacia branca.

Ora, num momento em que a violência policial contra homens e mulheres negros e negras se acirrava (já durante a era Obama) e dentro do quadro do mundo dos esportes, especialmente do futebol americano, em que um grande número de jogadores são negros, ajoelhar-se durante o hino nacional — cuja letra é em parte considerada ofensiva pois lamenta o fato de que ex-escravos lutaram do lado dos britânicos em 1815 e diz que o sangue desses homens negros ia apagar os traços da presença britânica – é uma forma de denunciar a violência racial que persiste e cujo acirramento tem ficado mais explícito agora porque os grupos de supremacistas brancos se sentem empoderados com a eleição do novo presidente.

Lideres da Klu Klux Klan, como David Duke, já durante a eleição haviam manifestado seu apoio ao candidato republicano. Esses grupos que reúnem nacionalistas brancos, supremacistas brancos e neo-nazistas agora se manifestam juntos no espaço público, não somente em maior número, cometem atos violentos (como foi o caso em Charlottesville) sem que o presidente condene esses atos publicamente. Nesse sentido a eleição desse novo presidente acirra um processo que já estava em andamento.

CC: O que a eleição de um candidato como Donald Trump representa para ativistas e para o movimento negro nos EUA? 

ALA: Eu não tenho dados para afirmar o que a eleição do candidato republicano representa para os ativistas negros e para o movimento negro nos Estados Unidos. Mas posso afirmar que para os ativistas mais antigos, o que acontece agora não é nenhuma novidade. É “business as usual.”

Quem foi ativista durante os anos da luta pelos direitos civis sabe que os Estados Unidos, assim como o Brasil, é marcado pelo racismo e pela segregação e violência raciais estruturais.

Os ativistas mais jovens também sabem disso e não é à toa que o movimento Black Lives Matter surgiu já há alguns anos, mostrando o desencanto e a disposição de luta da juventude negra. O presidente do país é apoiado e continua sendo apoiado e se nutre do apoio de grupos supremacistas brancos. Isso por si só diz tudo.

CC: Trump foi criticado pela demora na resposta ao desastre em Porto Rico e também tem enfrentado dificuldades ao tentar revogar o Obamacare. É possível que esse ataque aos protestos de jogadores seja uma espécie de “cortina de fumaça” ou uma forma obter mais apoio em suas bases?

ALA: O presidente é uma figura que domina magistralmente a mídia. Ele vem desse meio, do mundo das celebridades televisivas e sabe que qualquer assunto sobre o qual  twittar vai virar notícia. Tem sido assim todas as semanas. Embora possa utilizar esse poder para influenciar o debate público, não acredito que suas reações sejam exatamente planejadas e articuladas, mesmo se a longo termo a soma dessas ações possa resultar em consequências bastante danosas para a democracia americana.

CC: Qual é a importância de movimentos como o Black Lives Matter (BLM) na visibilização da questão racial e da violência policial racista nos EUA?

ALA: É crucial. Foi o BLM que trouxe outra vez à tona a falácia da sociedade pós-racial. Cabe também lembrar que o BLM tem também influenciado a luta dos jovens negros em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, onde a violência racial e policial contra jovens negros é 50 vezes mais importante que nos Estados Unidos, mas sobre a qual raramente alguém fala e à qual a mídia raramente dá alguma atenção e visibilidade.