“Carrego no nome a negritude e a força da mulher negra”

Dandara Mariana, a Marilda de “A Força do Querer”, fala com exclusividade sobre a carreira e a desfecho de sua personagem na novela

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Na carreira como atriz desde os 16 anos de idade, a jovem Dandada Mariana, filha do ator, Romeu Evaristo, o inesquecível angolano do programa Zorra Total, chega à reta final da primeira personagem interpretada do início ao fim de uma trama.

Marilda, a personagem interpretada por Dandara, pouco tem a ver com a atriz. Com exceção da dança, a qual ambas realizam com maestria, na vida real a jovem é engajada e muito consciente do papel que deve protagonizar como mulher e negra em nossa sociedade.

Aluna do curso de Dança da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Dandara sabe o que quer e não lhe falta coragem para lutar por seus objetivos.

Afrobrasileiros: Quando pequena você vivenciou os bastidores do dia a dia do seu pai como ator?

Dandara Mariana: Sim, eu sempre estava com ele e acompanhei ele decorando textos. Eu assisti as criações do meu pai. Desde aquele momento já admirava a profissão.

Afrobrasileiros: Você acredita que foi isso que a motivou a seguir a carreira como atriz?

Dandara Mariana: Com certeza me influenciou sim. Pela convivência e todo esse contato com a arte.

Afrobrasileiros: Seu pai te aconselhou quanto à profissão? Sobretudo, no que se refere as dificuldades que encontraria pela frente?

Dandara Mariana: No começo, quando eu disse que queria sair da faculdade de Arquitetura e entrar na escola de teatro ele se assustou, por saber das dificuldades, dos percalços, altos e baixos. Ele ficou bem preocupado, mas viu que eu nasci para isso. Sempre assistiu tudo que eu fiz e percebeu que eu tinha me encontrado. Foi então que começou a me dar força e admirar meu trabalho

Afrobrasileiros: Quais os maiores prazeres e desprazeres da profissão como atriz?

Dandara Mariana: O prazer é o de poder ser muitas, a “unimultiplicidade”. Além da função da arte, entendo que ser atriz engloba a questão politica, de induzir as pessoas à reflexão. Sou tão apaixonada por atuar que não me vejo fazendo outra coisa. Quanto ao desprazer, eu diria que é a ansiedade, pois estamos sempre numa busca incessante por novos trabalhos.

Afrobrasileiros: Você acredita que ser mulher e negra interfere em sua carreira?

Dandara Mariana: Nosso espaço ainda é muito limitado, para nós – mulheres negras – o funil é mais apertado. Disputamos uma ou duas vagas por novela, acabamos disputando com nós mesmos (referindo-se aos negros). Acho que podemos ser todos os personagens, sem atender apenas aos estereótipos. A gente pode ser tudo. É uma questão que vem caminhando a passos lentos, ainda assim, devemos comemorar toda pequena e grande vitória, porque nossas histórias precisam ser contadas.

Afrobrasileiros: É difícil ter que escolher entre a dança e a atuação?

Dandara Mariana: Nunca pensei em ter que escolher, meus personagens sempre têm ligação com a dança. Em Malhação minha personagem era dançarina de pagode! A dança está sempre presente, me rodeando! Em paralelo aos trabalhos como atriz participo de espetáculos de dança. Ambas as profissões andam juntas, porque eu me encontro na arte.

Afrobrasileiros: Como pretende investir em sua carreira como dançarina?

Dandara Mariana: Pretendo terminar a faculdade e continuar com o grupo dirigido pela Carmen Luz, o “Mix Memórias”, do qual faço parte e com o qual já fizemos apresentações em São Paulo. Sou apaixonada pelos movimentos, que me ajudam muito no trabalho como atriz, por me proporcionar liberdade de expressão.

Afrobrasileiros: Em “A Força do Querer” você, em certa medida, consegue unir as duas profissões. Você já tinha familiaridade com o Carimbó?

Dandara Mariana: Já! Fui apresentada a este ritmo numa disciplina de danças folclóricas. O carimbo é contagiante, você se sente uma borboleta! (Risos)

Afrobrasileiros: Você tem uma voz ativa quanto a militância da população negra?

Dandara Mariana: Sim, nessa novela, quando vi que era uma das únicas negras fiz questão de usar meu cabelo crespo e solto, de forma a servir como espelho a outras meninas. Mostrar que a gente está abrindo espaço e que somos bonitas sim! Tenho uma performance chamada Sankofa na qual falamos sobre quem foi Dandara, sobre ancestralidade, cantamos e dançamos nossa música. É um chamamento para reflexão.

Afrobrasileiros: Seu nome é uma homenagem ao ícone negro feminino do Quilombo de Palmares?

Dandara Mariana: Meus pais escolheram este nome por isso. Além disso, nasci de parto normal, no dia 13 de maio de 1988, centenário da abolição da escravatura. Tenho o maior orgulho disso, carrego no nome a negritude e a força da mulher negra.

Afrobrasileiros: Como foram tratadas as questões de negritude em sua família?

Dandara Mariana: Essas questões foram surgindo. Quando novos somos ingênuos e só depois vamos nos dando conta de pequenas coisas, só muito depois percebemos o quanto o racismo faz parte de nossas vidas. Estudei em escola particular e é complicado ser a única negra de um lugar. Você é o diferente, não tem em quem se espelhar, não é o padrão de beleza. Mas, dentro de casa sempre tive uma família muito consciente, muito empoderada. Valeu a pena ter enfrentado isso de ser a única. Hoje, fico muito feliz em ver que na UFRJ, 70% das pessoas são negras.

Afrobrasileiros: A sua ancestralidade faz parte de sua identidade?

Dandara Mariana: Sim. Eu acho que eu sou essa força, essa potência que nós negros somos. Tivemos que aprender à força. A resiliência passou a ser uma característica do nosso povo, mesmo que de forma cruel nós tivemos que assumir essa postura.

Afrobrasileiros: Quais seus planos para o futuro? Dança e atuação voltam a se encontrar?

Dandara Mariana: Sim, eu voltei a ensaiar com meu grupo de teatro e vou estrear ainda este ano no filme Dona Flor e seus Dois Maridos.

Afrobrasileiros: O que podemos esperar para o final da Marilda, em “A Força do Querer”?

Dandara Mariana: Não sei sobre o final da novela, pois ainda não recebi os ótimos capítulos. Mas eu gostaria que nossos personagens voltassem para Parazinho.

Afrobrasileiros: Mas, pode surgir um par romântico para ela?

Dandara Mariana: Quem sabe… Durante a trama a autora deu a entender sobre um affair entre a Marilda e o personagem do Mussunzinho, mas até agora não passou disso.

Afrobrasileiros: Dandara por Dandara?

Dandara Mariana: Eu sou uma pessoa muito focada e esforçada. Carinhosa, dedicada e com muito amor pela minha profissão.