Conheça Ignez, formada na primeira turma da Zumbi e empreendedora da moda afro

Ex-aluna da primeira turma da Faculdade Zumbi dos Palmares e dona da Makida, marca voltada para moda afro

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Ignez fala sobre a sua experiência na Faculdade Zumbi dos Palmares, a importância de sua formação acadêmica e também sobre suas percepções sobre empoderamento de mulheres negras.

Sua marca Makida, é uma das pioneiras em perceber uma demanda crescente no Brasil: a de produzir roupas que ressaltem a tradição da raiz africana. Através das típicas estampas e cores fortes os vestidos e saias ganham a identidade das mulheres negras que poucas vezes se veem representadas na moda.

Afrobrasileiros: Você é ex-aluna da Faculdade Zumbi dos Palmares. Olhando para trás, qual o significado em ser formada na primeira turma da primeira instituição voltada para a inclusão do negro no ensino superior?

Ignez Bacelar: Bom, eu reconheci a Zumbi dos Palmares não apenas como uma Faculdade, mas também como o projeto de um futuro melhor para a população negra. Eu acreditei no sonho e através da Zumbi tive oportunidades e experiências maravilhosas. A Zumbi não foi só um divisor de águas no âmbito acadêmico e profissional, mas sobretudo social e pessoal. Tenho minhas melhores amigas, pessoas, histórias e memórias incríveis daquela época. Tudo muito positivo.

Afrobrasileiros: O que mudou na sua vida depois dessa experiência?

Ignez Bacelar: Eu me refletia em todos os espaços, nas salas, nos professores, nos alunos. Me reconheci como uma mulher negra em evolução e comecei a traçar uma linha ascendente em meu projeto de vida.

Afrobrasileiros: Felizmente, um tema que vem, cada vez mais, ganhando espaço para discussão e visibilidade é o empoderamento através da valorização da estética negra. A gente vê isso tanto nos cabelos quanto na forma de se vestir, acessórios e etc. Como você vê essa questão?

Ignez Bacelar: Acredito que a questão estética seja muito importante porque tivemos nossa autoestima destruída desde sempre. Nós (mulheres negras), devemos nos reconhecer como bonitas, inteligentes e merecedoras de ser amadas e reconhecidas pelo nosso trabalho e não sermos pegas pela “síndrome do impostor”. É preciso persistência e muita confiança. Ainda assim, acredito que a mudança deve ser muito mais profunda. De qualquer forma, um passo não elimina o outro. Que possamos nos fortalecer cada vez mais.

Afrobrasileiros: Você é fundadora da marca de roupas femininas Makida, que é voltada para mulheres negras. Traz estampas e modelos que conversam com a autoafirmação da negritude e valorização da estética. Como surgiu essa ideia?

Ignez Bacelar: A ideia partiu através da minha experiência no mundo corporativo que ainda é tão quadrado e tradicional apesar de termos alguns ambientes mais flexíveis. Fui ao trabalho em uma multinacional com um turbante e o ambiente visivelmente ficou pesado, parecia que não me encaixava e que não era meu local, mesmo sendo uma profissional gabaritada. Naquele dia me senti mal e tive uma conversa com meu noivo e hoje sócio na Makida que sentia falta de poder exibir minha identidade nesses ambientes. Não queria me sentir uma “zero à esquerda”. Um ano e meio depois, ao sair desta companhia, decidi que não voltaria mais ao ambiente corporativo, pois tive a impressão de que por mais que nos preparemos, eles nunca estarão preparados para nós. Eu sabia que ia empreender, só não sabia ainda onde. Pensamos em algumas opções de negócios e aquela ideia antiga voltou com força, meu noivo decidiu entrar em parceria e quatro meses depois de sair do trabalho estávamos lançando nossa primeira coleção. Foi a maior e melhor decisão da minha vida.

Afrobrasileiros: Como é ser uma mulher negra empreendedora?

Ignez Bacelar: Acredito que empreender esteja nas veias das pessoas negras, sobretudo de mulheres negras que em meio à dificuldade encontram um meio de sobrevivência. Eu empreendi por oportunidade, mas também por necessidade já que não gostaria de voltar ao mundo corporativo tão tóxico em minha opinião. Logo, foi a melhor escolha em todos os sentidos e fazer um trabalho especialmente voltado para a mulher negra enche meu coração de alegria. É bem difícil, mas meu parceiro e sócio é incrível e está comigo a cada dificuldade e também nas vitórias.

Afrobrasileiros: Os modelos das roupas e os acessórios trazem estampas e modelos que conversam com a autoafirmação da negritude e com a valorização da estética negra. Como é para você trabalhar com uma forma de representatividade?

Ignez Bacelar: A Makida nasceu da minha percepção de mundo corporativo, que hoje se diz tão aberto, mas ainda é muito tradicional. Nascemos para resgatar e valorizar a beleza e identidade das mulheres negras também nesses ambientes. E, que bom perceber que estamos no caminho certo. Os feedbacks tem sido incríveis.

Afrobrasileiros: Que recado você deixaria para a nova geração de mulheres, que já crescem agora com mais discussão sobre a temática racial, empoderamento e estética?

Ignez Bacelar: Perseverar sempre, resiliência está no nosso sangue, nós não devemos acreditar que porque houve algum avanço devemos estacionar. Há muito trabalho pela frente e hoje ainda há espaços de discussões nas mídias muito rasos. Só nós sabemos o quanto mexeram em nossa autoestima em todo esse período e o quanto é importante valorizar nossa estética, mas, sobretudo o que vem de dentro, conhecendo nossa história e propagando-a para nossas crianças. É por isso que os modelos de roupas no site têm nomes de Rainhas Africanas, quando você clica na peça conhece parte da historia da Rainha, a mudança que queremos é de dentro para fora. Nossa ancestralidade e espiritualidade devem ser lembradas.

Clique aqui para conferir o site da Makida.

Confira a coleção Makida:

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