Papel higiênico que utiliza slogan do ativismo negro em propaganda is beautiful?

Para publicitária é preciso empatia ao desenvolver uma campanha

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Usado em todos os cantos do mundo para enaltecer o povo negro o slogan “black is beautiful” (preto é lindo) causou polêmica no Brasil. Com direito a pedido de desculpas da atriz que estrelou a campanha e retirada da mesma do ar, o papel higiênico preto da marca Personal, fabricado pela Santher, é o inconveniente publicitário da semana, devido a infeliz ideia de utilizar uma autoafirmação negra, de luta contra o racismo, de forma pejorativa.

O escritor Anderson França fez um post sobre o assunto que foi citado no site do jornal britânico The Guardian e do português Jornal de Notícias. Na publicação o escritor escreveu: “se você digitar ‘black is beautiful’ em qualquer lugar do mundo encontrará referências a Angela Davis, Malcolm X, O Partido Panteras Negras para Autodefesa, Fela Kuti, James Baldwin, Nina Simone. Mas, no Brasil, se você digitar #blackisbeautiful você vai encontrar papel de bunda. […] Aquilo que você usa pra se limpar de excremento, e em seguida elimina, tomado de nojo e aversão. Aquilo que tem apenas uma função: limpar fezes e secar urina de suas carnes, e ir para o lixo. Se isso não é uma demonstração explícita de racismo e humilhação étnica, criminosa, eu perdi alguma aula.”

Janaína Martins

“Erros” da publicidade, pelo mundo a fora, têm sido mais corriqueiros do que se poderia imaginar pleno 2017. “Todo comunicador, seja ele formado ou não, tem responsabilidade pelo que semeia, compartilha ou emite. Não tenho conhecimento de como são outros cursos de publicidade, mas haja visto o que vem acontecendo acredito que todo curso de comunicação tem que deixar explicita a mensagem: cuidado com as abordagens. Toda pesquisa é bem vinda”, pontua , publicitária da agência Salvetribal, formada pela Faculdade Zumbi dos Palmares. “Ter estudado na Zumbi me auxiliou muito com essa questão! Mas acredito que a forma como fui educada foi a base. Quando eu iniciei o curso na Zumbi eu já tinha conhecimento que a diversidade existe e que ela precisa ser respeitada, mas o curso em si foi o divisor de águas para que eu entendesse o que já era feito na publicidade e como isso podia ser modificado e ampliado, focando em outros públicos-alvo. Atualmente eu faço uma junção do que eu aprendi, da experiência que tenho no mercado e de como eu vejo as coisas na sociedade para poder lidar com esse modelo de publicidade mais conservador, que já conhecemos, e semear novas ideias de como isso pode ser encarado e melhorado se tivermos um olhar macro sobre a diversidade”, avalia a publicitária.

Mas, Janaína não se atem apenas a essa questão. “Contudo, não acredito que seja somente responsabilidade das universidades, pois todos temos que nos perguntar se, no momento em que compartilhamos algo: ‘esse conteúdo é ofensivo para alguém?’. E, além do mais temos os buscadores de internet cheios de informação, basta jogar as palavras-chave e você terá resultados sobre o conteúdo que deseja compartilhar. A empatia é um grande aliado no momento em que estamos desenvolvendo algo”, informa a profissional em publicidade.

Tanto a agência Neogama, responsável pela campanha, quanto a Santher, empresa dona da marca, disseram não ter pretensões racistas com a campanha. E, que o único objetivo da mensagem foi o “de destacar um produto que segue tendência de design já existente no exterior”. Ambas lamentaram o “entendimento” errôneo.

Apesar de toda polêmica envolvendo a questão há quem diga que é ‘mimimi’, ‘que o politicamente correto é muito chato’ ou ‘ainda que há pessoas que veem preconceito em tudo’.

“Esse tipo de reflexão sobre o assunto demanda uma reformulação interna e mudanças de pensamento muito grandes. Eu gostaria que as pessoas compreendessem que nem tudo é mimimi, que piadas racistas e preconceituosas ofendem e, que no caso, nós negros já ficamos muito tempo calados. Esse comentário de que ‘tudo é mimimi’ me incomoda profundamente. No meu ponto de vista, quem diz essa frase já tem enraizado determinados tipos de pensamentos quem nem sempre deseja mudar. Encaro isso como falta de empatia e isso leva as pessoas a não se importarem com a dor e o incômodo do outro. Quando eu pensei em que tipo de ser humano eu quero ser e o que eu quero deixar para as futuras gerações, me coube mais o papel de quem luta para que nenhum olhar, nenhuma atitude, nenhuma palavra e nenhum pensamento seja capaz de oprimir, importunar e constranger ninguém” e conclui Janaína: “A luta é diária, todo conhecimento é bem vindo – tanto o adquirido, quanto o semeado – e a convivência com pessoas que também queiram fazer a diferença impulsiona a gente a seguir em frente”.