Outubro Rosa: amigas criam movimento inédito no Ipiranga

Caminhada acontece no próximo domingo dia 29, com direito a capoeira, Zumba e muito mais

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Pesquisa publicada no Journal of the American Medical Association, realizada por pesquisadores da University of North Carolina, em Chapel Hill, nos Estados Unidos, identificou que as taxas mais elevadas de basal-like (subtipo de câncer de mama) está entre as mulheres negras mais jovens, o que, em certa medida, explica porque as negras têm maior risco de morrer de câncer de mama do que mulheres brancas.

De acordo com o relatório dos pesquisadores, a taxa de negras que chegam a óbito por câncer de mama é de 36,4 em cada 100 mil mulheres, em comparação com 28,3 mortes no caso de mulheres brancas, sendo que a propensão em mulheres com menos de 50 anos é ainda maior. Porém, a taxa das mulheres negras na menopausa é quase o dobro a mais que de mulheres brancas.

As mulheres negras tendem a ter alterações genéticas e isto favorece o aparecimento do câncer de mama antes dos 40 anos de idade. O estudo “Jewels in our Genes” realizado entre 2009 e 2011 na Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos, identificou anomalias genéticas no DNA de 106 famílias de afrodescentes americanos, entre elas a existência dos genes BRCA1 e BRCA2, conhecidos por aumentar a incidência de câncer de mama nas mulheres. Entre as 179 mulheres negras diagnosticadas com câncer de mama, apenas 76 de suas irmãs nunca apresentaram a doença, o que significa que além de atingir estas mulheres, o câncer também se espalhou com rapidez pela família.

As mulheres negras também estão mais sujeitas ao surgimento do câncer triplo-negativo, mais agressivo, difícil de identificar e que pode se espalhar com mais facilidade pelo corpo. Pesquisadores apontam que há vários tipos de câncer de mama e subtipos de tumores que são agressivos e difíceis de tratar, principalmente em recaídas, onde as taxas de sobrevivência são baixas. No caso do basal-like a detecção precoce é vital, pois o tratamento com drogas quimioterápicas pode surtir efeito.

Além disso, estudos já revelaram que as mulheres negras com câncer de mama não vivem tanto quanto as mulheres brancas com a doença, porque têm maiores taxas de diabetes, pressão alta e outros males simultâneos.

Outubro Rosa

De acordo com o site do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), A campanha, criada em 1990 em Nova York, tem o objetivo de estimular a participação da população no controle do câncer de mama.

A data é celebrada anualmente e busca conscientizar mulheres do mundo todo a fazer exames de rotina para auxiliar na prevenção do câncer de mama. Incentivando assim maior acesso aos serviços de diagnóstico e de tratamento, de forma a contribuir para a redução da mortalidade.

Sob esta mesma pretensão foi criada a 1° Caminhada Outubro Rosa Novembro Azul no Ipiranga. “O que nos motivou a iniciar a caminhada foi o fato de ter familiares que enfrentaram a doença. Alguns venceram, outros não, mas nessa vivencia nos conscientizamos da importância do apoio e da prevenção que fazem toda a diferença para vencer o câncer. Tínhamos vontade de promover uma ação que levasse essa mensagem para as pessoas e ao perceber que o bairro do

Ipiranga não estava inserido em nenhuma campanha nesse segmento nos mobilizamos para realizar este evento”, conta Bel Xavier, idealizadora da caminhada.

A vivência ao lado de familiares com a doença estimulou Bel e Renata Maff, amigas e sócias neste projeto, a buscarem inserir o bairro do Ipiranga dentro do Calendário da Campanha Mundial do Outubro Rosa, “conscientizando a população da importância da prevenção, do autoexame e do apoio no combate ao câncer em homens e mulheres”. Além disso, elas querem promover ações sociais que integrem os participantes do evento e entidades ou instituições voltadas ao bem estar e qualidade de vida promovendo a troca de informações.

“Tomar consciência da necessidade de se prevenir contra o câncer é certamente o primeiro passo. Mas não o único. É necessário tomar a atitude e se cuidar além de levar essa conscientização aos seus entes queridos também. Pois quanto mais cuidarmos uns dos outros menor será a incidência da doença”, explica Bel.

Câncer x Condição Social

Há casos nos quais as mamografias convencionais não são suficientes para detectar o tumor, pois a estrutura da pele, sobretudo do seio da mulher negra é mais densa e para estas realidades se faz necessário exames digitais.

No Brasil, ainda não foram publicados estudos recentes pautados no recorte racial, mas há pesquisas, realizadas no sul do país no início dos anos 2000, que indicam que apenas 43,7% das mulheres negras da região fizeram mamografia enquanto 53,4% das mulheres brancas fizeram o mesmo exame no mesmo período.

Ou seja, a falta de acesso a bons equipamentos de saúde que possam auxiliar na cura e prevenção pode gerar impactos a quem não dispõe de poder aquisitivo, classe social na qual se encontra a maioria da população negra. “Com base na nossa vivencia afirmamos que existem equipamentos excelentes para o tratamento do câncer disponíveis para a população de baixo poder aquisitivo. O que atrapalha é o acesso e a morosidade da gestão pública, como por exemplo o tempo de agendamento entre consultas muito extenso, o que pode piorar o quadro clinico no período sem tratamento”, exemplifica Bel.

Por falar na gestão pública, Bel e Renata enfrentaram muitos desafios burocráticos e tiveram que contar com outro tipo de apoio. “Tivemos anjos nesse caminho que nos apoiaram e que farão parte da celebração desse momento histórico, pois esse é o primeiro evento de grande porte no bairro do Ipiranga no sentido de conscientização e prevenção contra o Câncer”, conta a idealizadora do projeto.

Mesmo antes dessa primeira edição da caminhada elas revelam detalhes e sonham com os próximos passos. “Pela primeira vez o berço histórico do Brasil será iluminado na cor rosa, como forma de entrar para campanha mundial de combate ao câncer. Temos como meta a iluminação do Museu e do Monumento da Independência e a inclusão do bairro no calendário da cidade, além da realização anual dessa campanha, sempre no último final de semana de outubro, com atividades como essas citadas em nosso flyer”, destaca.