Muito além do cidadão Waack: o racismo estrutural na mídia brasileira

O caso do apresentador é a ponta do iceberg. A falta de representatividade negra reproduz a exclusão e o racismo no Brasil

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William Waack ri após comentário racista. O problema vai muito além dele. Reprodução / Youtube
  • Por Alex Hercog

 

Um dos principais assuntos compartilhados nas redes sociais na última semana foi o vazamento do vídeo de William Waack e sua manifestação racista. Uma gravação feita em 2016, quando o jornalista se preparava para entrar no ar durante gravações para o Jornal da Globo, revela o âncora cochichando injúrias raciais.

vídeo mostra William Waack comentando com seu entrevistado, Paulo Sotero: “Tá buzinando por que, seu merda do caralho? Não vou nem falar, que eu sei quem é. Sabe quem é, né? Preto, né!? Isso é coisa de preto, com certeza”, diz, se referindo aos motoristas que buzinavam na rua, próxima à transmissão externa gravada nos Estados Unidos.

Segundo o ex-operador de VT da Globo, Diego Rocha Pereira, responsável pelo vazamento do vídeo, à época ele chegou a oferecer o material para alguns jornais, que não se interessaram. Somente com a publicação do vídeo nas redes sociais é que o caso ganhou repercussão e exigiu da maior emissora do País uma resposta imediata.

Em nota publicada no dia 8 de novembro, a Rede Globo confirmou o afastamento temporário de Waack de suas funções. Em seus três parágrafos, a Globo elogia o jornalista, ao considerá-lo “um dos mais respeitados profissionais brasileiros, com um extenso currículo de serviços ao jornalismo”; e ameniza o fato vazado, afirmando que Waack fez “comentários, ao que tudo indica, racistas”, mas que ele “afirma não se lembrar do que disse, mas pede sinceras desculpas àqueles que se sentiram ultrajados pela situação”.

Há uma cortina de fumaça no Brasil que busca desprezar o racismo estrutural que compõe a sociedade e as instituições brasileiras, e que vende a ideia de que o racismo só é manifestado a partir de ofensas e xingamentos.

Ignora, portanto, que a estruturação do racismo também está na invisibilidade dos negros, na construção de estereótipos preconceituosos, na negação de direitos e na desigualdade de condições e oportunidades que aumentam o abismo entre negros e brancos. Em suas diversas nuances, o racismo é expressado no País e, evidentemente, nos próprios meios de comunicação.

Questão profunda 

Na nota publicada pela empresa, a introdução define a Rede Globo como “visceralmente contra o racismo em todas as suas formas de manifestação”.

Vamos, então, às vísceras da Globo!

A emissora, que tem como principal produto as telenovelas, é incapaz de dar pelo menos 1/5 dos papéis para atrizes e atores negros. Sempre foi assim e continua sendo. Na sua mais nova produção, “O outro lado do paraíso”, dos 36 personagens do núcleo principal, apenas três são negros. O diretor – branco – afirmou que a novela irá tratar de temas polêmicos, a exemplo do próprio racismo. Fará isso sem atores negros.

E não há nada mais comum na TV Globo do que a falta de representatividade. Em artigo publicado no portal Séries por Elas, a autora Carolina Maria faz uma análise e revela que apenas 15% das novelas produzidas pela Globo contam com protagonistas negros e negras. Das 290 realizadas, apenas duas tiveram uma mulher negra protagonizando.

Além dessa invisibilidade, a população negra costuma ser representada, recorrentemente, de forma pejorativa. Historicamente, os humorísticos da Globo sempre foram alvos de denúncias por utilizarem personagens negros para reforçar estereótipos racistas: a “nêga maluca” feia, desdentada e ignorante; o nordestino preguiçoso e subalterno. Além da objetificação do corpo feminino e suas “mulatas Globeleza” que vendem o corpo da mulher negra para “gringo ver” no carnaval. Isso em um país que é o segundo no mundo em turismo sexual, e que estupra uma mulher a cada 11 minutos.

Mas essa estigmatização e falta de representatividade – que não é exclusiva da Globo – também se notam no telejornalismo da emissora. Não apenas em sua produção nacional como também na rede de afiliadas nos estados, a tradição é priorizar âncoras e apresentadores brancos. O mesmo acontece com os repórteres. E também com as fontes entrevistadas nas reportagens, para apresentar alguma opinião científica ou acadêmica. Ou seja, toda a formação da credibilidade da notícia privilegia o branco e exclui os jornalistas ou pesquisadores negros.

Racismo estrutural

Este cenário é apenas uma representação de um discurso muito maior, que pauta toda a linha editorial dos programas jornalísticos. Tomemos como exemplo uma notícia anunciada pelo próprio William Waack, durante a edição de 30 de outubro do Jornal da Globo. Uma semana antes de ser afastado pelo ato de racismo, o apresentador opinou sobre a reportagem que apresentava os dados sobre a violência no Brasil.

Waack iniciou o programa afirmando ser uma “vergonha nacional” a quantidade de homicídios no País, que supera o de países em guerra. Ao anunciar os dados, o jornalista emenda: “É bastante claro que a violência no Brasil não é simplesmente uma questão desta ou daquela política pública. É, acima de tudo, uma questão moral gravíssima, que nossa sociedade trata com complacência”.

O âncora opta por não destrinchar os dados da violência e sequer cita as principais vítimas desses homicídios. Nenhum comentário sobre o fato de que um negro tem 23,5% de chances a mais de ser assassinado do que uma pessoa branca – dado que chega a 147% quando o negro é um jovem de até 21 anos – ou de que o número de mortes de mulheres negras subiu 22% enquanto que o de brancas caiu 7,4%, no mesmo período. Nenhuma referência à política de “guerra às drogas” ou da estrutura da nossa sociedade que resulta no genocídio da população negra.

Ao contrário, na opinião de Waack, a violência no Brasil é uma questão moral, de responsabilidade da sociedade. Segundo ele, a principal questão não tem a ver com programas de governo, com leis ou políticas de segurança, mas com decisões morais que a sociedade precisa tomar. Um moralismo que sempre caiu bem para quem defende combater a violência com bordões: “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos para humanos direitos” e para quem pretende resolver problemas sociais com mais polícia e mais armamento.

Discurso fácil e racista, pois o alvo é sempre o jovem negro. O “bandido morto” certamente não será o senador branco que negocia propina, nem o dono da empreiteira que tem o seu direito humano a um julgamento dentro do devido processo legal respeitado. E o maior policialmente também não será em bairros luxuosos como a Graça (em Salvador), onde bunkers com milhões de reais roubados são guardados.

Esse discurso midiático racista é o mesmo que nos ensina que trabalhadores e trabalhadoras são baderneiros, quando fazem manifestações e atrapalham o trânsito. E que o sem-terra é um invasor ou que o problema do tráfico de drogas se concentra nas favelas.

E é compreensível esse discurso. Basta analisar quem está por trás dos âncoras e das reportagens, quem são os donos da mídia e quem os financia. Não espere que a Globo, ao tratar dos altos índices de homicídio, chegue ao problema das drogas e, ao chegar, se depare com as fazendas do agronegócio por onde os helicópteros carregados de cocaína pousam e decolam.

Esse fato é omitido, afinal de contas, são os barões do agronegócio que enchem os bolsos dos magnatas globais e não as milhares de família, em sua maioria negras, que sequer têm um pedaço de terra. Então, oportunamente, se criam narrativas que criminalizam os negros e preservam os brancos e ricos envolvidos com os crimes que, lá na ponta, resultarão em mais mortes de pessoas negras.

A mídia é branca 

Recentemente, o Intervozes lançou o resultado do monitoramento dos principais grupos de mídia o Brasil. Dos 26 analisados, todos têm como donos homens, ricos e brancos, com exceção da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que é uma empresa pública, portanto, sem propriedade privada. E são esses homens, ricos e brancos, que controlam ou financiam a mídia no País e, assim, constroem os discursos e narrativas racistas; levam ao ar programas e personagens preconceituosos; e garantem empregos de jornalistas como William Waack.

O Brasil, um dos piores do mundo em relação à regulação da mídia, não possui um histórico positivo em termos de garantia do direito à comunicação. A Constituição de 1988, que nunca foi regulamentada, já prega o estímulo à diversidade cultural e regional nos meios de comunicação.

Ainda assim, quando governos optam por não valorizar a radiodifusão pública, perseguir rádios comunitárias, sufocar a sobrevivência de coletivos de mídia independente, e torrar bilhões de verba pública com as emissoras comerciais, deixam de estimular essa diversidade e caçam a voz, mentes e corpos de milhares de pessoas que têm a sua liberdade de se expressar cerceada.

A representatividade na mídia passa, portanto, no acesso aos meios de produção e difusão do conteúdo. Não basta apenas torcer pelo dia em que a Globo terá um protagonista de novela negro ou que afaste seus funcionários flagrados cometendo crimes como o de racismo. Não dá para confiar na “boa vontade” das emissoras comerciais. É preciso uma política que garanta o direito à comunicação, na qual a população negra é a mais excluída.

Negros e negras não estão apenas subrepresentados na tela da tevê. Estão, também, fora do controle acionário das empresas de comunicação, fora das diretorias, fora da construção da linha editorial, fora do seleto grupo dos que detém os meios de comunicação. E também são os negros e negras os mais excluídos do acesso à internet e até mesmo da recepção dos sinais das TVs e rádios públicas e comunitárias. São, portanto, os mais impedidos de se expressar ou de acessar outros conteúdos que não sejam produzidos pelo oligopólio comercial que controla a mídia brasileira.

É por isso que o racismo da Globo precisa ser discutido para além das falas de William Waack, que revelam o seu pedantismo racial enraizado. Isso é só a ponta do iceberg daquilo que pôde ser materializado em palavras e flagrado em vídeo. Mas o racismo brasileiro vai além de se resumir a xingamentos racistas. Está contaminado na raiz das estruturas institucionais públicas e privadas do país, a exemplo dos próprios meios de comunicação.

É preciso compreender toda a representação racial da Globo, sobretudo a que se esconde atrás das câmeras e que é comum a todas as outras emissoras e principais jornais comerciais. É necessário entender quem controla a mídia no Brasil, quem tem o direito à comunicação negado e quais interesses políticos e econômicos estão por trás do que é dito e mostrado após o “boa noite”. E também daquilo que não é dito, é silenciado.

Juntando todos os pontos fica mais fácil entender quem e o que estruturam o racismo no país e que vai muito além do cidadão Waack.

*Alex Hercog é formado em Relações Públicas e membro do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social