“Heróis com rosto africano são cura para o nosso trauma histórico”

Autor de "O Caçador Cibernético da Rua Treze" fala sobre Afrofuturismo, representatividade e autoralidade negra na cultura pop

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'É inadmissível que reservem para pessoas pretas somente histórias sobre crime, violências, escravidão ou genocídio', observa o escritor. Foto: Thays Berbe/Divulgação

Na metrópole afrofuturista de Ketu 3, um jovem negro, João Arolê, atua como caçador de aluguel de espíritos malignos em um universo tecnológico fantástico, povoado de carros voadores e referências à mitologia iorubá.

Um homem em crise buscando a redenção, João é o herói com rosto africano nascido da imaginação do escritor Fábio Kabral em O Caçador Cibernético da Rua Treze, livro deficção fantástica publicado recentemente pela editora Malê, especializada em autores brasileiros de ascendência africana.

Leitor assíduo de quadrinhos, ficções e teorias afrocêntricas, Kabral expande sua narrativa para além dos esterótipos de violência, miséria e opressão quase sempre reservados para personagens negros. “A importância dos heróis com rosto africano é apresentar uma possibilidade de cura para o nosso trauma histórico, é conhecer os heróis ancestrais que existem dentro de nós e dessa forma dar um novo passo para construir um novo futuro”, explica ele, responsável pela coleção Afrofuturismo, da mesma editora.

“Eu, que sou um homem negro, leitor de quadrinhos e RPGs, jogador de videogames, leitor de várias ficções e de teorias afrocêntricas, e iniciado no Candomblé, expresso toda essa carga de vivências e estudos nos romances e histórias que escrevo. Isso é Afrofuturismo”, define Kabral, que estudou artes dramáticas na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade de São Paulo (USP).

Confira a entrevista:

CartaCapital: O que te inspirou a escrever ficção científica?
Fábio Kabral: Eu não costumo me ater muito aos rótulos. Desde criança eu gostava muito de ficção científica, também por influência do meu pai. Eu cresci jogando RPG, lendo O Senhor dos Anéis e vendo muito desenho. Gosto desse tipo de ficção até hoje. A linha entre ficção científica e fantástica é muito tênue. Tanto que meu último livro, O Caçador Cibernético da Rua Treze, é mais uma ficção fantástica com tecnologia ou uma tecnologia fantástica. Então, para mim, foi um caminho mais ou menos natural escrever esse tipo de livro.

CC: Como podemos definir o que é o Afrofuturismo?
FK: Mesmo para os que são considerado afrofuturistas, é difícil dizer. A resposta mais curta seria: “uma mescla de tradições e cosmologias africanas com ficção científica”. A maioria das pessoas talvez pense: “Ah, é só colocar uns negrinhos com umas paradas futuristas e já é”.

Vagner Amaro, da editora Malê, definiu da seguinte forma: “movimento cultural que mescla mitologia e cosmologia africana, fantasia, pós-colonialismo, ciência, tecnologia e arte de contar histórias com protagonismo de autores e personagens negros”.

Capa do livro O Caçador Cibernético da Rua Treze

Então, a definição que eu criei no meu primeiro artigo sobre – e que para minha surpresa apareceu como citação no livro do bróder Lázaro Ramos – foi a seguinte: “esse movimento de recriar o passado, transformar o presente e projetar um novo futuro através da nossa própria ótica, para mim, é a própria definição de Afrofuturismo”.

Já em outro artigo meu, eu disse que “Afrofuturismo mudar o futuro para mudar o passado que lhe foi imposto; é traçar seu próprio caminho como pessoa preta no mundo, por meio da sua arte, da sua escrita; é africanizar seu próprio caminho daqui por diante”.

Convido a todos a lerem os cinco artigos que escrevi até agora, na plataforma Medium, nos quais expando esses conceitos de forma considerável. Recomendo também o meu romance mais recente, O Caçador Cibernético da Rua Treze, que se trata da minha derradeira opinião acerca do tema. Este livro, bem como os demais dessa série, são os escritos que verdadeiramente definem como eu enxergo o Afrofuturismo, o que tudo isso realmente significa para mim.

Artigos são muito importantes, mas pra mim não passam de resumo; a literatura, o romance, é como eu verdadeiramente me expresso para o mundo.

Eu, que sou um homem negro, leitor de quadrinhos e RPGs, jogador de videogames, leitor de várias ficções e de teorias afrocêntricas, e iniciado no Candomblé, expresso toda essa carga de vivências e estudos nos romances e histórias que escrevo. Isso é Afrofuturismo.

CC: Você fez uma provocação em seu Facebook de que é possível escrever histórias com protagonismo negro que não sejam, necessariamente, sobre dor, sofrimento e racismo. Por que é importante contar também outras histórias?
FK: Quando fiz aquele post simples, não esperava muita repercussão. Mais de uma vez uma pessoa branca me perguntou: “como eu escrevo um personagem negro?” Eu respondi: “escreva um ser humano. Se é um ser humano negro ou não, a escolha é sua”.

Eu fico muito feliz quando assisto aos filmes de Nollywood, a grande indústria nigeriana de filmes. Lá, assisto a filmes de comédia, dramas familiares, comédias românticas, histórias urbanas, nas quais todo o elenco se parece comigo. Pessoas comuns, trabalhadores, donos de empresas. Bem diferente da África sempre violenta de genocídios tribais que Hollywood apresenta.

Eu adoro demais as comédias românticas afro-americanas, que terminam em casamento e tudo mais. São histórias bobinhas, cheias de clichês, mas eu adoro o final feliz de pessoas pretas ficando juntas e felizes no final. Bem diferentes dos filmes euro-americanos que mostram só jovens pretos desajustados, bandidos, tomando tiro.

Cena do filme nigeriano The Wedding Party
Cena da comédia romântica nigeriana ‘The Wedding Party’

É importante contar outras histórias porque nós somos várias histórias. É importante contar outras histórias porque é inadmissível que reservem para pessoas pretas somente histórias sobre crime, periferias, violências, escravidão e genocídio.

Como diz a escritora Chimamanda Ngozi, é o “perigo da história única”. Como diz o poeta Ed Rock, dos Racionais MC’s, “me ver pobre, preso ou morto já é cultural”.

Neste meu mais recente romance, O Caçador Cibernético da Rua 13, e nos demais que estão por vir, eu apresento uma nova alternativa de história com protagonismo negro, a aventura e o drama pessoal de um homem negro num mundo fantástico e afrofuturista, só que muito além dos citados estereótipos de periferias violentas, racismo e genocídio tribal.

CC: No Brasil, pretos e pardos são 54% da população, de acordo com o IBGE. No entanto, ainda são pontuais os exemplos de “heróis com rosto africano”. Qual é a importância da existência de histórias com esses heróis com rosto africano?
FK: Essa expressão, “herói com rosto africano”, vem de um livro de mesmo nome, de autoria do professor Clyde W. Ford. Gosto demais desse livro e recomendo essa leitura a todos.

Expressões como essa, bem como movimentos culturais e sociais como afrofuturismo, afrocentricidade e todos os demais que se enquadrariam no rótulo “movimento negro”, só existem porque vivemos num mundo de supremacia branca.

O rótulo que muitos detestam e fazem troça. Porém, não deixa de ser verdade. Supremacia branca. Muito antes das tragédias e dramas greco-romanos, havia os romances, contos, fábulas e comédias africanas. A literatura já existia no mundo muito antes de a Grécia sequer sonhar em existir, literatura essa criada por negros africanos.

Ao contrário do mito europeu, que se pretende linear e histórico – e dessa forma conflitando com a ciência e a própria realidade – o mito africano é cíclico e simbólico. O mito africano é real sim, mas não como fato e sim como metáfora, pois o mito começa onde para a investigação científica. “Quando enfrentamos um trauma, individual ou coletivamente, as lendas e os mitos são uma maneira de restabelecer a harmonia à beira do caos”, escreveu Clyde W. Ford.

Dessa forma, o herói com rosto africano, num mundo pós-colonial, representa o herói descendente de rainhas e reis divinos, que sobreviveu aos horrores da travessia e da escravidão, e hoje luta para se impor no mundo e orgulhar seus ancestrais.

A importância dos heróis com rosto africano é apresentar uma possibilidade de cura para o nosso trauma histórico, é conhecer os heróis ancestrais que existem dentro de nós e dessa forma dar um novo passo para construir um novo futuro.

CC: Quais são os seus heróis com rosto africano?
FK: Meus heróis com rosto africano favoritos são vários. Há os Orixás – especialmente a família dos Caçadores, dos quais descendo – que nos ensinam a aceitar e entender melhor nossas próprias naturezas, e dessa forma fazer o melhor para o mundo e para nós mesmos; a Lituolone, super-heroína do povo basuto que nasceu de parto virginal, salvou o mundo de um grande mal e morreu pelas mãos de pessoas cruéis porém ressuscitou e retornou aos céus (onde eu já vi essa história?).

Também tem Kwasi Benefo, o herói axante que nos ensina a superar perdas terríveis para ainda assim seguir em frente e realizar seus sonhos; Sudika-mbambi, super-herói do povo ambundo, e Mwindo, guerreiro ancestral do povo nianga ambos nos ensina a importância de lutar para vencer terríveis obstáculos, para proteger o que nos é caro, e os perigos de sucumbir à própria arrogância; e vários outros que eu poderia citar.

Miles Morales, Ororo Munroe e Tchalla
Miles Morales, Ororo Munroe e T’challa: heróis (e heroínas) de rosto africano nos quadrinhos

Mas, se está me perguntando sobre super-heróis contemporâneos, então eu digo que são Ororo (Tempestade dos X-Men), T”Challa (Pantera Negra), Monica Rambeau (a primeira Capitã Marvel) e Miles Morales (Homem Aranha). Será uma grande realização para mim se futuramente os heróis que eu criar se tornarem heróis favoritos de alguém.

CC: Apesar de escritoras negras como Octavia Butler terem alcançado prestígio, a ficção científica é comumente associada a autores brancos e homens. Mais recentemente, a escritora negra N.K. Jemisin ganhou duas vezes o Hugo Awards, uma das mais altas premiações do gênero. Na sua opinião, a comunidade de leitores e as editoras de livros de ficção especulativa estão mais abertos para a ideia de representatividade? 

FK: Ainda que seja considerado menos expressivo que o cenário padrão eurocêntrico, os Estados Unidos possuem um quadro impressionante de afro-americanos autores de ficção fantástica e científica, especialmente mulheres pretas.

Octavia Butler é uma pioneira com mais de 15 livros publicados e que faleceu em 2006, e só agora está sendo publicada no Brasil. Seu livro de estreia, Kindred – Laços de Sangueque está aparecendo aqui só agora [pela editora Morro Branco], foi publicado antes mesmo de eu nascer.

As escritoras N.K. Jemisin e Octavia Butler
Os premiados ‘A Quinta Estação’, de N.K. Jemisin (esq.), e ‘Kindred – Laços de Sangue’, de Octavia Butler, chegam agora ao Brasil

Na minha opinião, ainda não vejo um grande movimento de editoras em publicar outros autores que não sejam os de sempre, com as histórias de sempre – afinal, é ganho garantido.

Vejo editoras de menor porte, como a Malê que publicou o meu O Caçador Cibernético da Rua 13, como uma das pioneiras em apresentar autores e autoras afro-brasileiras e afro-descendentes do cenário mundial.

CC: Quais são os ganhos com essa maior diversidade?
FK: O ganho é ir além da história única; é dar um basta ao “embranquecimento cultural” a que somos submetidos por tanto tempo. O professor Wade Nobles define que “o ‘embranquecimento’ é um ataque psicológico ao senso fundamental dos afro-brasileiros do que significa ser uma pessoa humana. (…)Por mais de 400 anos, os africanos no Brasil souberam que eram africanos e que os portugueses eram inimigos da liberdade. Lutaram e morreram continuamente para lutar seu povo da escravidão. O processo de ‘embranquecimento’, que se tornou prioridade no país durante as pós-escravatura, vem causando mais danos psíquicos aos afro-brasileiros do que 400 anos de escravidão racista e dominação colonial”

Os ganhos, portanto, são de conceder a mais da metade da população mais histórias contadas por nosso ponto de vista, através das nossas experiências, vivências e estudos como pessoas negros num mundo pós-colonial.

CC: Em abril deste ano a imprensa internacional repercutiu a fala do vice-presidente de vendas da Marvel, uma das gigantes dos quadrinhos, que associou a queda de vendas aos esforços de incluir mais diversidade entre os personagens, com a inclusão de mais protagonistas mulheres e pessoas negras. Ele atribuiu essas críticas aos vendedores, que faziam essa associação, o que não isentou de críticas. Como você vê esta questão?
FK: É muito engraçado. Eu, que vivi de perto uma espécie de histeria “anti-nerd” e “anti-RPG” nos anos 2000 – quando RPGistas foram acusados de satanismo e alguns até foram presos – testemunhar hoje no final dos anos 2010 essa palhaçada protagonizada por esses mesmos nerds que antes eram perseguidos.

Vi muitos caras clamarem que “gibi não é só histórias pra crianças, gibi é pra adultos também, é pra todo mundo!” e agora que as histórias em quadrinhos estão realmente se encaminhando para se tornar histórias para uma plateia maior, essa gente reclama e xinga muito no Twitter.

Muita gente preta que conheço só está se interessando por quadrinhos e ficção fantástica hoje – por que ligar pra um troço em que não aparece ninguém que se parece com você, a não ser como escravo e/ou bandido?

É claro que a Marvel está incluindo a “temida” diversidade não por motivos altruístas, e sim para incrementar vendas e alcançar novas camadas de público. Eu pessoalmente busco consumir todo o material de qualidade feito por pessoas de rosto africano, como por exemplo o novo quadrinho do Pantera Negra, escrito pelo Ta-Nehisi Coates, que embora eu acompanhe número a número quando sai nos Estados Unidos, só recentemente saiu por aqui.

No site O Lado Negro da Força, do qual sou co-fundador, noticiamos sempre sobre super-heróis de rosto africano, especialmente os da Marvel, os quais leio desde os cinco anos de idade e sigo acompanhando até hoje. Meus romances mais recentes, como O Caçador Cibernético da Rua 13, todos bebem forte dessa fonte de poderes fantásticos dos super-heróis que tanto gosto e amo ler.