Moda também é política

O estilista Isaac Silva enfrenta o preconceito do meio e explora a afro-brasilidade em suas criações

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Há quem ainda pense que falar de moda é algo fútil, vazio de sentido. A “glamourização” e o modo como esse nicho foi apropriado, claro, faz com que de fato seja. Mas é importante mostrar que existem estilistas dispostos a dar outro significado a esse modelo e a trazer novas perspectivas e configurações de mundo. Isaac Silva é um deles. Estilista de Elza Soares, ele imprime essa perspectiva nas suas criações.

Afroempreendedor, nascido em Barreiras, no oeste baiano, Isaac tem um longo trabalho com moda e assinou coleções de inúmeras marcas. É presença constante e rica na São Paulo Fashion Week, entre outras. Mais de 50 peças de roupas que a marca Laboratório Fantasma exibiu nas passarelas saíram de seu charmoso ateliê no bairro de Santa Cecília, no Centro de São Paulo.

Sobre sua profissão, o estilista, logo de início, destaca o que mais o incomoda: “Trabalhar com moda desde o início foi muito prazeroso, mas também ensinou como esse meio é racista”. Contra o racismo, Isaac Silva tem sido um grande ativista. É de sua autoria um dos momentos mais marcantes no desfile na Casa dos Criadores, no dia 10 de novembro.

Ao apresentar a nova coleção por meio de suas modelos negras de diferentes formas de corpos, inovação que é recorrente em suas apresentações, o estilista escalou Victor Apolinário, criador da marca Cem Freio, para fazer uma intervenção, a fim de denunciar a seletividade branca das passarelas e o quanto essa realidade significava uma violência contra as mulheres negras, principalmente aquelas de pele mais escura, cujas escalações para desfile de marcas de prestígio são raras, muito raras.

A intervenção foi muito impactante e bem recebida nas passarelas, repercutindo em todas as mídias de moda. A coleção de Isaac Silva é chamada de “Raio de Sol”, referências da ialorixá Makota Valdina, que explica: “Todos nós nascemos para brilhar”. Repleta de cores vivas, a coleção usa tecidos importados diretamente de Dacar, a capital do Senegal.

A vibração de suas peças mostra-se oposta aos insossos tons pastel característicos das produções de moda dos brancos, o que, certamente, agrega um novo olhar, bem brasileiro e com orgulho de suas origens africanas.

“Queria mostrar que negros podem, sim, ter visibilidade, podem, sim, fazer roupas, podem, sim, ter lindas modelos nas passarelas, principalmente no Brasil, que é extremamente racista e misógino. Se não encararmos de frente, a gente nunca vai acabar com essa verdade. É muito ruim conviver com ela”, afirmou. Dentre as suas referências, o estilista destaca Carolina de Jesus na literatura, Elza Soares na música e Zezé Motta na dramaturgia.

Segundo ele, ao assumir suas raízes brasileiras, as passarelas só têm a ganhar e tendem a criar um novo marco na moda praticada no País. “É muito importante levar essa brasilidade, porque ouvi muito quando estava trabalhando no início com moda, ouvi muito isso de renomados estilistas, jornalistas, empresários. Isso é muito depreciativo”.

“Acredito que exista uma moda brasileira, uma referência muito grande, mas muitas vezes marcas escolhem temas que não são das raízes brasileiras e selecionam apenas temas de fora. Acredito que, a partir do momento em que a moda se olhar, vamos ter um boom de criatividade, de matéria-prima e conhecimento, que irá para o alto calendário da moda mundial.”