Mostra de ex-consuleza francesa é acusada de racismo e de praticar “blackface”

Alexandra Loras, autora da exposição, rebate as críticas de usuários nas redes sociais e afirma "estar em seu lugar de fala"

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Na exposição personalidades brancas foram artificialmente coloridas de negras, Foto: Alexandra Loras

Com abertura marcada para este sábado 2, a ex-consuleza da França no Brasil, Alexandra Loras, inaugura a mostra “Pourquoi pas?” (“Por que não?”, em português), na Galeria Rabieh, na área nobre de São Paulo. A mostra que reúne retratos de 40 personalidades brancas coloridas artificialmente para se tornarem negras gerou polêmica, com críticas nas redes sociais de usuários que classificaram as obras como blackface.

A partir de fotos de celebridades e políticos como Dilma Rousseff, Michel Temer, Gisele Bündchen, Silvio Santos e a rainha Elizabeth, Loras coloriu as imagens artificialmente por meio do Photoshop, além de modificar a expressão facial dos personagens. Características oriundas de pessoas negras, como nariz largo e cabelos crespos também foram incorporadas nas suas produções.

O termo blackface surgiu a partir de uma técnica teatral em que atores brancos do século XIX se pintavam com tinta preta para interpretar negros, pois era vetada sua participação nos palcos europeus. A prática permanece e é amplamente criticada por estereotipar indivíduos negros, além apresentá-los de forma exagerada e caricata.

Segundo a artista, que rejeita as acusações de blackface, o objetivo da mostra é fazer as pessoas refletirem sobre a baixa representatividade do negro na sociedade.

A arquiteta e ativista Stephanie Ribeiro postou em seu perfil pessoal do Facebook uma crítica à mostra, afirmando que mesmo sido proposta por uma mulher negra, “não dá pra defender o indefensável”, argumenta. “A exposição que propõe pintar figuras brancas de negro, inclusive usando pessoas abertamente racistas, não me soa algo que incomodaria brancos, mas algo que ofende negros brasileiros que já lidam com invisibilidade”.

Para ela, a questão principal está em torno da forma como a estética foi apresentada, criando uma sensação de repulsa e nojo por lembrar a prática do blackface. 

 

“Em primeiro lugar eu sou negra, portanto, posso tratar a negritude da forma que preferir, pois é meu espaço de fala”, diz a artista. Para Loras, a acusação só teria fundamento caso fosse idealizada por uma pessoa branca e tivesse como objetivo “representar negros de uma maneira perjorativa”.

Comentário

O público alvo da exposição, no entanto, não é negro. Através da “empatia”, Loras questiona se os visitantes brancos, residentes da área nobre da cidade onde fica a exposição, ao ver o retrato de Dilma Rousseff negra, ainda enxergará uma presidente, ou se a partir da coloração artificial, passarão a enxergar “uma faxineira”.

“A Gisele Bündchen com cabelo crespo, permanece uma modelo internacional ou se torna uma mulher pobre de favela? Como as pessoas enxergam isso?”.

Ao anunciar a exposição em seu perfil do Facebook, a artista foi alvo de duras críticas dos seus seguidores. Na maioria das vezes, os usuários questionavam qual motivo levou a ex-consuleza a colorir a imagem de pessoas brancas e torná-las negras, enquanto poderia dar este espaço para que pessoas públicas negras pudessem figurar na mostra.

Mundo invertido

A ex-consuleza classificou sua exposição como a representação de um mundo invertido. “Como seria se as pessoas se sentiriam se os livros didáticos só apresentassem personalidades negras? Se na televisão todos os protagonistas forem negros? Se na novela a mulher branca fosse representada como a faxineira ou com uma imagem hipersexualizada de uma mulher que sempre aparece para acabar com a vida de um casal feliz e saudável? Se o branco fosse sempre o traficante? Seria cruel, não seria?”.

Questionada sobre o mal estar causado entre indivíduos negros, Loras afirma entender o motivo que levou muitos a se sentirem desta forma. “Se tratando de uma questão tão problemática no Brasil, é normal que as pessoas se sintam assim. Porém, as pessoas precisam vir ver a exposição se puderem. Assim poderão entender”.

Para ela, o ponto principal da exposição é tocar na supremacia branca nos espaços de poder. “Eu quero denunciar o apartheid vivido no Brasil a partir de uma narrativa estética. Mostrar como o genocídio da população negra e as poucas oportunidades dadas às crianças negras influenciam na falta de representatividade que temos nos espaços públicos”, completa.