Escritores negros buscam espaço em mercado dominado por brancos

Temática e autores ganharam representatividade em eventos e feiras, mas ainda estão distantes das grandes livrarias

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Iberê Périssé/Flip/Fotos Públicas

Quantos livros escritos por pessoas negras você já leu? Quantos autores e autoras negrasvocê conhece? Provavelmente o número será menor se comparado com o de escritores brancos lidos ou conhecidos.

A falta de espaço em grandes editoras e o racismo institucional que muitas vezes desvaloriza a produção intelectual negra podem ser apontadas como alguns dos motivos para a menor presença da literatura negra em estantes e livrarias, a despeito do interesse do público, da resistência dos autores e da maior promoção de eventos e feiras com temáticas sobre a representatividade e a questão racial nos últimos anos.

Criticada pela ausência de mulheres e negros em edições passadas, a Festa Literária de Paraty (FLIP), por exemplo, homenageou o escritor Lima Barreto e preocupou-se com uma composição mais igualitária em sua programação: em 2017, 30% dos autores convidados eram negros.

“Eu penso na minha formação como leitor na pré-adolescência e adolescência. Lia muito, mas os livros não tinham personagens negros como protagonistas. Fui formado como leitor lendo o ‘mundo dos brancos’, para usar uma expressão do Florestan Fernandes, e não lendo a realidade da população negra”, lembra Vagner Amaro, hoje responsável pela Malê, uma das novas editoras dedicadas exclusivamente à literatura negra.

Uma pesquisa publicada em 2012 oferece uma radiografia racial e de gênero do mercado editorial brasileiro. Após analisar 258 romances publicados por três grandes editoras entre 1990 e 2004, o estudo Literatura Brasileira Contemporânea – Um Território Contestado(Editora Horizonte/UERJ)  revelou que 93,9% dos autores publicados eram brancos, 72% do sexo masculino e 68% residiam em São Paulo ou no Rio de Janeiro.

O perfil médio dos personagens dos romances é bastante semelhante: 7,9% dos personagens eram negros e só 5,8% desses protagonistas. As ocupações dos personagens também refletem essa assimetria: 20,4% dos negros eram bandidos ou contraventores, 12% empregados domésticos e 9,2% escravos. Se na ficção a maioria dos personagens brancos morrem por acidente ou doença, nos romances analisados 61% dos negros são assassinados.

A editora Malê nasceu da experiência de Amaro de tentar construir um acervo de autores negros na escola onde trabalhava como bibliotecário.

“Tive até certa facilidade em encontrar livros de autores africanos, e de brasileiros que já fazem parte do cânone literário, mas não os livros escritores negros contemporâneos. Descobri que muitos estavam fora de catálogo, outros faziam impressões independentes. A dificuldade para acessar esses livros era, e, em muitos casos, ainda é muito grande”, lembra.

Público acompanha debate promovido pela editora Malê no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) no Rio de Janeiro

“A partir daí, descobri que existem outras editoras pequenas que também fazem esse trabalho e resolvi criar a Malê para colaborar nessa divulgação da obra de autores negros”, explica. O primeiro lançamento da editora, em junho de 2016, foi Histórias de leves enganos e parecenças, de Conceição Evaristo.

De lá para cá, acumula cerca de 20 títulos em seu catálogo, que abriga de escritores consagrados até autores estreantes. Há também a promoção de um concurso literário para jovens escritores que, na edição de 2017 recebeu 180 inscrições.

O que é literatura negra?

O editor da Malê define a literatura negra como aquela que aborda as subjetividades de homens e mulheres negras, cujo eu-enunciador se afirma como negro e questiona as relações de poder existentes.

“A literatura negra brasileira, feita por escritores e escritoras negras, traz a perspectiva social, ética e estética das nossas vivências; tridimensionaliza a personagem negra”, afirmam a escritora Mel Adún e o editor Guellwaar Adún, responsáveis pela editora Ogum’s, sediada em Salvador.  Além disso, afirmam, a expressão literária não enclausura 56% da população brasileira, os autodeclarados pretos ou pardos, em estereótipos como o malandro, o marginal, ou, no caso das mulheres negras, da hipersexualização.

“Por fim, [a literatura negra] cumpre ainda o papel de educar a sociedade sobre as relações raciais no mundo”, explicam.

Criada em 2014, a editora Ogums também nasce da falta. “Falta de oportunidade, falta da visibilidade que o eixo Rio-São Paulo goza e, mais especificamente, pela ausência de negros e negras, sejam escritores ou editores, nas feiras literárias brasileiras ou mesmo nas internacionais”, explicam os editores. A participação de não-brancos nesses eventos literários, afirmam, sempre se dá pela regra da exceção.

Mel Adún e Guellwaar Adún, responsáveis pela editora Ogum’s Toques Negros

Eles se lembram, por exemplo, da participação brasileira na Feira de Frankfurt em 2013. Na delegação de 70 escritores levados ao evento pelo Ministério da Cultura, só havia um negro (Paulos Lins) e um indígena (Daniel Munduruku).

Então responsável pela pasta, Marta Suplicy justificou a escolha afirmando que o critério não foi “étnico” e que haveria um número maior de escritores negros “nas próximas gerações”. “Hoje, infelizmente, não temos”, disse a ministra.

Para os editores da Ogum, foi um exemplo de epistemicídio. No Brasil, a filósofa Sueli Carneiro trabalha com o conceito de epistemicídio a partir da seguinte definição: “negação aos negros da condição de sujeitos de conhecimento, por meio da desvalorização, negação ou ocultamento das contribuições do Continente Africano e da diáspora africana ao patrimônio cultural da humanidade; pela imposição do embranquecimento cultural e pela produção do fracasso e evasão escolar. A esses processos denominamos epistemicídio”.

“Com pouquíssimas palavras, riscou do mapa escritores vivos do quilate de Oswaldo de Camargo, José Carlos Limeira, Geny Guimarães, Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Mel Ardún, Miriam Alves, Ele Semog, Edimilson de Almeida Pereira, Ronald Augusto, entre outros”, criticam. “A mesma lógica se repete ao mapearmos a aquisição de livros em todas as instâncias governamentais. Editoras e escritores negros são preteridos nesse processo, salvo raras exceções”.

Visiblidade e resistência

Para Vagner Amaro, da editora Malê, alguns segmentos do mercado editorial começam a dar mais visibilidade para escritores (e escritoras) negros. Em especial, eventos, feiras e bienais literárias passaram a focar-se em temas como a diversidade e a resistência. Consequentemente, passou-se a convidar mais autores negros e indígenas. Já na distribuição e na presença nas livrarias, a mudança ainda não ocorreu.

“Os autores continuam publicando em editoras pequenas e médias. Como elas tem pouco fôlego de distribuição, os livros acabam também não alcançando as grandes redes de livrarias. Então, ainda há um desequilíbrio.

Para Mel e Guellwaar Adún, o racismo institucional brasileiro ainda constitui-se o maior obstáculo para uma maior difusão da literatura negra. Já Cristina Warth, da Editora Pallas, que publica livros de autores ou de temática afro desde 1975, aponta a lei 10.639, que incluiu no currículo oficial das escolas o ensino da história e da cultura africana em 2003. “Com isso, houve uma corrida nas editoras para dar conta desses conteúdos”, afirma. “Mesmo com todas as questões, como a falta de formação para os professores, a lei impulsionou o mercado editorial”.

Para Amaro, da Malê, o impulso foi menor do que o esperado. “Ainda existe muita resistência por parte dos professores em trabalhar essas temáticas. E um desconhecimento muito grande também. O que precisaria haver é a formação de mediadores preparados para trabalhar estes conteúdos”, afirma ele, ponderando, que, por outro lado, quando o trabalho neste sentido na escola acontece, o resultado é muito positivo.

“Eu tenho esse retorno constante de alunos e professores que, ao trabalharem escritores como o Cuti, a Conceição Evaristo ou a Cristiane Sobral, relatam o quanto a atividade de leitura foi envolvente e com resultados positivos”

As escritoras Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves debatem na FLIP 2017

Apesar de todos os desafios, a população negra brasileira há tempos escreve, resiste e publica seus textos. Pode-se citar, por exemplo, a maranhense Maria Firmina dos Reis, que, em 1859, publicou Úrsula, o primeiro romance de temática abolicionista no Brasil. Neto de escravos, Lima Barreto, homenageado na edição deste ano da Festa Literária de Paraty (FLIP), publicou Memórias do Escrivão Isaías Caminha em 1909. Outra figura fundamental do século XIX foi Francisco de Paula Brito, homem negro livre e um dos primeiros editores do Brasil.

Na história recente, um dos marcos é a publicação Cadernos Negros, do coletivo Quilombhoje. Criada em 1978 e ativa até hoje, foi a primeira oportunidade de muitos escritores negros de verem seus trabalhos impressos. A escritora Conceição Evaristo, por exemplo, foi revelada nos Cadernos na década de 90.

“O dia em que a história da literatura brasileira for escrita de maneira abrangente, essa coleção que fica esquecida será visibilizada”, afirmou a autora de Ponciá Vicêncio à CartaCapital em julho. Evaristo lembra que mesmo com uma sua obra na lista de leituras obrigatórias do vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), não conseguiu uma editora que arcasse com os custos de suas publicações.

“O que se percebe então é a dificuldade que nós temos, nestas e em outras situações, de publicar nossas obras, de divulgar, de chamar atenção da mídia, de concorrer aos prêmios. É isso que permitiria termos visibilidade e é isso que nos é negado.”

“Já há muito tempo os autores tem buscado formas criativas de divulgar seus textos. Seja pela Internet, pela auto-publicação, por publicações coletivas e até mesmo por meio de livros artesanais, eles continuam produzindo em grande quantidade e indo em busca de seus leitores. Essa atitude de resistência precisa ser sempre marcada”