As Bahias e a Cozinha Mineira: o lirismo que desafia monopólios

A banda valoriza sua verve romântica e reflete sobre arte, transgeneridade e preconceito

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Não são poucas as composições na música pop chamadas “uma canção para você”. O verso dá nome a um sucesso recente da dupla sertaneja Edson & Hudson. O roqueiro argentino radicado no Brasil Roberto Livi lançou uma faixa homônima nos anos 1970. Expoente máximo da música romântica nativa, Roberto Carlos preferiu o italiano ao gravar “Canzone Per Te”.

 

Assim como os intérpretes românticos e do sertanejo, Raquel Virgínia e Assucena Assucena não têm medo de ser pop. Elas também têm a sua “canção para você”. De arranjo e melodia acessíveis, é uma declaração de amor sofisticada, mas radiofônica como as anteriores.

“Acredito que podemos ter uma música sendo executada nas rádios”, projeta Raquel. “Imagina ouvir Jorge & Matheus e em seguida passar As Bahias e a Cozinha Mineira?”

No caminho para a consolidação da banda, há, porém, a “hegemonia e monopólio”, ela lembra. “Sabe aquele pessoal que faz o próprio picolé e tenta competir com a Kibom? É um processo desleal”.

Os monopólios a serem derrubados não se restringem à indústria da música pop. O hit “Uma canção para você (Jaqueta Amarela)” é uma das únicas do primeiro disco da banda que tocam na questão da transgeneridade, lembra Assucena. Embora as manifestações líricas fossem o ponto de partida da banda, a afirmação política da identidade trans é uma pauta que se impõe. Uma guerra pesada, segundo Raquel.

“Lembro que a gente não ia falar a respeito da questão da transgeneridade, a ideia era colocar em primeiro plano a arte”, diz Assucena. “Mas todo ser humano é um ser político. Se a gente cala a boca ou fala, a gente está sendo político.”

Formada em 2011 em meio a debates sobre o espaço público na USP, as Bahias e a Cozinha Mineira não apenas transita entre o lirismo e os temas políticos, entre a liberdade artística e de gênero, mas desmistifica as fronteiras entre a música romântica e de protesto em seus dois discos de estúdio. Após lançar o primeiro álbum, Mulher, em 2015, a banda está de volta com Bixa, cujo sugestivo nome é uma adaptação de Bicho, disco de Caetano Veloso lançado em 1977.

 

No quinto episódio da série CartaTeca, a banda presta homenagens a influências tão variadas como Elomar Figueira Melo, Whitney Houston, Axé Music e Gal Costa, valoriza sua verve romântica e reflete sobre arte, transgeneridade e preconceito com a mesma presença de palco de seus shows.

A biografia da banda começa pelo nome. Raquel nasceu no bairro de Grajaú, em São Paulo. Assucena é de Vitória da Conquista, no sertão baiano. A primeira tentou ser cantora de axé na Bahia antes de voltar a São Paulo para cursar história na USP. A segunda deixou o estado nordestino pelo mesmo motivo.

Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas da universidade, conheceram Rafael Arcebi, mineiro de Poços de Caldas. “É como o Milton (Nascimento) falava: “Da Bahia a Minas, estrada natural”, diz o guitarrista da banda. “É interessante que esse encontro tenha acontecido em São Paulo, cidade do êxodo, dos trânsitos, dos cosmopolitismos.”

Uma das músicas que melhor define a ambição artística da banda é “Josefa Maria”. Ao contar a história de uma retirante nordestina em São Paulo “na terceira década do século XX”, a banda combina história, crítica social, reflexão sobre exôdos e a discussão sobre o papel da mulher na sociedade.

Seu título é bastante sugestivo. “É quase a conformação da sagrada família, José e Maria, na figura de uma mãe solteira”, diz Assucena. “O que essa mulher da seca nordestina encontra é a seca paulistana. Essa seca paulistana dos trilhos, desse progresso a qualquer custo que a gente vive nos centros urbanos até os dias de hoje”, reflete Raquel.

Assim como Josefa Maria, que “compra bananas, lava as roupas e faz as camas”, Raquel e Assucena também encaram sus batalhas diárias contra o preconceito e o reducionismo midiático. “Eu lembro que uma vez a gente conversou com uma amiga jornalista, e ela perguntou: “Vocês vão ter que falar sobre isso (transgenereidade). Vocês estão preparadas pra guerra?”, lembra Raquel.

“Ela perguntou se a gente estava preparada, mas não disse qual era o pique da guerra. É pesado.” De qualquer forma, omitir-se sobre o assunto não é uma alternativa, garante. “Seria como se eu estivesse censurando algo que está em erupção dentro de mim”.

Ao seguir o conselho da amiga jornalista, Raquel não apenas identifica e combate o preconceito contra a transgeneridade. Ela enxerga um importante componente racial que a distingue de parte de seu público, branco e de classe média alta.

“Já ouviram falar de um filme chamado “Vênus Negra?”, pergunta, em referência ao longa de 2011, de Abdellatif Kechiche, que conta a história de Saartjie Baartman, uma mulher negra sul-africana obrigada por seu mestre a exibir seu corpo para curiosos em Londres.

“Esse público tende a se comportar muito mal perto de pessoas negras, e, principalmente quando esse corpo está em destaque”, diz Raquel. “As pessoas pedem pra colocar a mão na minha perna, pedem para colocar a mão na minha bunda.” “E não pedem também”, completa Rafael.

A cantora diz ter dificuldades de educar seu público. ” Um corpo negro em cena é um corpo negro em cena. Ele choca”, comenta. “Acho que preciso responder para o público de classe média alta, para o público branco, para aqueles que tem uma mentalidade ou um filtro racista. Porque ninguém vai me convencer que a Vênus Negra está superada.”

A crítica ao comportamento de alguns fãs não se estende ao público de maneira geral, formado por gente de todos os tipos: LGBT ou não, jovens e velhos, negros e brancos. “O público é o maior triunfo disso tudo. É um público que, sim, está entendendo como a gente está oxigenando a música.”

A banda também busca se oxigenar, ao privilegiar pessoas trans e mulheres negras na hora de contratar roadies, produtoras e assessoras. É parte da missão de quem desafia a hegemonia cultural. “Falamos de vários monopólios. Esse monopólio do sertanejo universitário, do sertanejo em geral, ele precisa ser questionado”, defende Raquel. “A gente questiona em vários espaços. E vai questionar cada vez mais.”