A boa “Tia Má” 

Uma jornalista irreverente, Maíra Azevedo, ou melhor a Tia Má, revela detalhes sobre sua vida e carreira ao Afrobrasileiros. 

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Foto: Andrea Magnoni

Afrobrasileiros: Você sempre teve esta personalidade sincera, de falar tudo “na lata”? 

Maíra Azevedo: Sim, sempre fui assim em minha casa, com minha família… Fomos criados falando  sempre o que pensamos, mas tento me educar para não cometer certos “sincericídios”, pois ser sincera não quer dizer ser grosseira ou agressiva, uma vez que nem sempre poderá falar aquilo que lhe “der na telha”. Portanto, busco me educar mas sempre dar minha opinião com um jeitinho mais educado e uso o bom humor que tenho para falar aquilo que desejo.

Afrobrasileiros: Como surgiu a ideia do canal?

Maíra Azevedo: A ideia do canal surgiu por meio da pressão dos meus amigos, que sempre pediram para eu fazer um canal por me acharem engraçada, porém eu tinha certa resistência. Mas por coincidência, um dia, dois amigos estavam conversando comigo e me pediram conselhos para situações diferentes, mas do mesmo tema. Eu brinquei dizendo que iria gravar um vídeo para não precisar ficar repetindo. Foi isso mesmo que fiz! Quando gravei o vídeo pessoas disseram que não deveria mais parar de fazer isso, pois estava ajudando outras pessoas.

Afrobrasileiros: Você acredita que o sucesso se deve a identificação imediata dos internautas com os temas retratados?

Maíra Azevedo: A “Tia Má”, é Maira Azevedo in natura, sabe?! É minha essência, meu jeito de ser, de falar. Quem vive e se relaciona comigo, sabe que sou assim, não sou uma pessoa de criar histórias, esta é a minha forma de ser. Sou espontânea mesmo, falo o que acho! Mas acredito que o sucesso se deve a questão do relacionamento, falo muito do relacionamento e de superação. As pessoas querem ouvir sobre essas coisas, elas gostam de ter a sensação de que tem alguém que entende o que elas estão passando.

Afrobrasileiros: O que você já conquistou com a Tia Má?

Maíra Azevedo: Notoriedade e visibilidade. Já ocupei espaços que não ocupava antes, eu dou entrevistas e participei como consultora da Globo, como uma das parceiras do Programa de Fátima Bernardes. São lugares que consegui por meio desses vídeos, mas acredito que ainda tem muitas outras conquistas. Tem coisas que ainda quero, não conquistei nada material ainda, mas sim, o amor das pessoas que me seguem e também amo essas pessoas, pois isso é bem verdadeiro. Eu falava assim no início: “A Tia ama”, porém, hoje em dia é mais que um bordão, é verdadeiro, eu amo essas pessoas, e me preocupo com elas.

Afrobrasileiros: Você acredita que o acesso de negros na grande mídia aumentou?

Maíra Azevedo: Eu acho que isso é fruto dos movimentos sociais, o Movimento Negro nos últimos trinta anos conseguiu assegurar alguns espaços para nós, alguns por meio de políticas públicas como as cotas, a Lei 10639 que obriga o ensino da história da África e da cultura afro-brasileira, então começamos nos ver e nos perceber como heróis e rainhas e isso também reflete nesses outros espaços. Porém, isso aumentou por pressão nossa e não porque as pessoas começaram a perceber que elas são racistas, o Movimento Negro que impulsionou isso, brigou por isso ao ver que era preciso fazer alguma coisa. foram abrindo esses espaços mas, nós sabemos que precisamos conquistar ainda mais, ocupar a “tela preta”, ou melhor dizendo, deixar a ” tela preta”.

Afrobrasileiros: Qual a maior dificuldade enfrentada com relação a Tia Má? E em sua vida, enquanto mulher negra?

Maíra Azevedo: O que acontece muito é que algumas pessoas entram na página e no canal apenas para me agredir pelo fato de eu ser uma mulher negra. Isso é perceptível, há pessoas que não conseguem entender. Os racistas são tão perversos que cada vez que eu ascendo, que ocupo um espaço, eles vão para lá tentar me depreciar também. Mas como disse, eles não conseguem o que querem, eles vão e fazem isso, porém só me fortalecem e me dão a certeza de que devo continuar fazendo isso. É bem perverso o que eles fazem, mas cada vez que recebo um comentário racista, me depreciando, me chamando de nordestina ou de gorda, me sinto ainda mais certa que preciso continuar fazendo esses vídeos.