Uma tropa de elite feminina no combate à caça ilegal na África

Mães solteiras e desempregadas estão sendo treinadas para integrar um esquadrão dedicado à preservação da vida selvagem no Zimbábue

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O metal preto do rifle AR-15 ficou gasto, prateado e brilhante, em algumas partes após anos de uso. Mais manuseável que um AK-47 em combate em espaços reduzidos, a arma é bastante precisa para derrubar um alvo inimigo a 500 metros. Usada há décadas por unidades contra caçadores ilegais em toda a África, hoje essa arma não está nas mãos de um típico patrulheiro de campo, cheio de bravatas. Esta é carregada com segurança e competência por Vimbai Kumire. “Este trabalho não é só para homens”, diz ela, “mas para todo mundo que é forte e está em forma.”

Kumire é uma mãe solteira de 32 anos, cujo marido fugiu com uma mulher mais jovem quando ela estava grávida do segundo filho. Ela prepara uma emboscada de manhã cedo no vale inferior do rio Zambezi, em Zimbábue, escondendo-se entre os arbustos verdes como uma sombra coberta de manchas.

É a linha de frente da caça ilegal na África, e estas não são apenas patrulheiras de caça regulares. Se a equipe por trás do novo emprego de Kumire tem algo a ver com isso, estas mulheres são um esquadrão crescente de tropas de choque ambientais, para um novo tipo de ofensiva de desenvolvimento comunitário.

De acordo com o biólogo conservacionista Victor Muposhi, da Universidade de Tecnologia Chinhoyi, o vale inferior do Zambezi perdeu 11 mil elefantes nos últimos dez anos. Mas ele acredita que contratar e treinar mulheres das comunidades locais, como Kumire, para serem patrulheiras é um fator que muda o jogo.

“Desenvolver técnicas de conservação nas comunidades cria mais que meros empregos”, diz o professor Muposhi. “Faz a população local se beneficiar diretamente da preservação da vida silvestre”. E isso, segundo ele, pode salvar não somente espécies únicas como os elefantes, mas ecossistemas inteiros.

O empoderamento das mulheres está no centro do programa, chamado Akashinga, que significa “as corajosas”. “Este é um verdadeiro programa de empoderamento”, diz Muposhi, “porque você está lidando com um grupo altamente vulnerável e prejudicado de jovens mulheres”.

Sentado sobre uma rocha voltada para o norte, dando para uma das grandes extensões selvagens da África, Muposhi explica que sua pesquisa preliminar mostra que o programa de cinco meses está ajudando a transformar essas mães solteiras antes desempregadas em líderes comunitárias.

Primrose Mazliru, de 21 anos, está de pé ao anoitecer perto do acampamento, entre o capim novo, bem verde com as chuvas recentes. Muito ereta, com os ombros orgulhosos para trás, ela sorri apesar da forte cicatriz que corta seu lábio superior, onde seu ex-namorado, bêbado, lhe bateu em um acesso de fúria. “Posso testemunhar o poder deste programa de mudar minha vida, e agora tenho o respeito de minha comunidade, mesmo como jovem mãe solteira”, explica.

Patrulheira
O empoderamento das mulheres é fundamental (Adrian Steirn e Damien Mander/Alliance Earth)

Mazliru já comprou um pequeno terreno com seu salário de patrulheira de campo. “Não preciso de um homem na minha vida para sustentar a mim e ao meu filho”, diz ela, com brilho nos olhos.

Assim como a maioria dos países do sul da África, Zimbábue usa áreas de gestão da caça em torno de parques nacionais famosos, como Victoria Falls ou Mana Pools, como “zonas tampão” para proteger os animais. Essas zonas são grandes áreas muito maiores que os próprios parques, originalmente criadas para beneficiar as comunidades próximas ao permitir a caça limitada de troféus por clientes ricos como Walter Palmer, o dentista americano que atraiu a condenação internacional depois de matar o leão Cecil, em uma caçada em 2015.

Não há cercas entre as áreas de caça, ou entre a vida selvagem e os cerca de 4 milhões de pessoas que vivem nas bordas dessas terras protegidas. Os lucros da caça sustentaram em parte as comunidades que vivem nas áreas naturais designadas para caça de troféus, quase 20% das terras de Zimbábue.

Segundo Muposhi, esses preciosos ecossistemas hoje estão sob grave ameaça devido ao colapso da caça comercial, em parte por causa de uma crescente reação ética. “O leão Cecil marcou o início de uma discussão maior sobre as questões morais e éticas da caça e se é sustentável ou não.”

As receitas estão despencando e as populações humanas em torno dos parques crescem. “Daqui a cinco anos”, diz Muposhi, “se não tivermos outras opções, não será viável salvar essas áreas.”

Damien Mander, fundador da iniciativa Akashinga, é um australiano alto, um atirador treinado pelos militares, que pareceria muito à vontade no centro de uma partida de rúgbi. Mander se inspirou na história das Black Mambas, a primeira unidade feminina e desarmada de combate à caça ilegal, que trabalha perto do Parque Nacional Kruger, na África do Sul.

Depois de conhecer algumas das mulheres em uma viagem para arrecadar fundos a Nova York, onde elas davam uma palestra, ele viu o apoio e o interesse internacional que elas receberam e pensou que um projeto semelhante para o Zimbábue poderia ser uma boa maneira de ressaltar o perfil de seu projeto, a Fundação Internacional contra a Caça Ilegal (IAPF na sigla em inglês). O resultado foi muito além dessas modestas ambições.

“Trinta e seis mulheres começaram nosso treinamento, calcado no treinamento de nossas forças especiais, e nós exigimos muito mais delas que em qualquer treinamento com homens”, explica ele em seu acampamento de barracas em um local secreto no vale do Zambezi. “Só três desistiram. Eu não podia creditar.”

Desde o primeiro dia de treinamento das mulheres, ele viu que algo muito especial estava acontecendo. Percebeu que as mulheres eram o elo que faltava para o sucesso das iniciativas de conservação e contra a caça. “Nós transformamos uma necessidade de segurança em um programa comunitário”, disse ele. Em apenas cinco meses, segundo Mander, esse projeto piloto já está pondo mais dinheiro por mês na comunidade local do que a caça de troféus rendia por ano.

Pessoas importantes estão percebendo. Tariro Mnangagwa é uma fotógrafa profissional de 32 anos que está visitando e treinando com a unidade de patrulheiras Akashinga da Fundação Internacional contra a Caça. Ela também é a filha mais nova do novo presidente de Zimbábue, Emmerson Mnangagwa.

“Estas mulheres me mostram a esperança”, diz ela. Tariro embarca em um velho Land Rover para visitar uma comunidade em busca de um antigo caçador que quer falar.

Mãe solteira
O esquadrão é integrado por várias mães solteiras (Adrian Steirn e Damien Mander/Alliance Earth)

Annette Hübschle, uma pesquisadora e bolsista de pós-doutorado na Universidade da Cidade do Cabo, acredita que o modelo da Akashinga ainda poderá ser uma ótima solução. Enquanto muitos governos ocidentais e organizações de conservação tomam decisões em Londres, Nova York e Genebra, as pessoas mais afetadas geralmente são mulheres das comunidades adjacentes às áreas protegidas na África.

Programas de conservação dirigidos para comunidades com base no empoderamento e treinamento para mulheres como Kumire e Mazliru oferecem uma potencial solução para o fim da caça.

Mander e todas as suas patrulheiras vivem com uma dieta vegetariana. Sua palestra na TED sobre o veganismo foi vista por milhões de pessoas em todo o mundo. Ele parou de comer produtos animais há cinco anos. “Eu ficava andando pelo mato protegendo um grupo de animais, então voltava para casa e comia outro. Não podia mais viver essa hipocrisia.”

As Akashinga adotaram a ideia com gosto. “É ótimo”, diz Kumire com um grande sorriso, à luz do fogo com panelas de feijão e uma verdura que parece espinafre. “Não sinto a menor falta de carne, quando volto para casa nas folgas e as pessoas querem me dar carne não consigo comer, porque meu estômago dói se eu comer, e eu digo às pessoas: não me deem carne, eu sou vegana!” As mulheres ao redor dela sorriem e assentem.

Muposhi, que é vegano há 13 anos, afirma que mostrar às comunidades que não precisam comer carne é dar um exemplo que freia a caça e reduz a necessidade de criar animais nas áreas de vida silvestre, o que causa perda de hábitat. Muposhi está entusiasmado ao ver o crescimento do projeto. “Está acontecendo no meio do nada, no vale do Zambezi, e faz parte de um movimento maior”, diz ele. “Vamos desenvolvê-lo para ser um dos melhores modelos de conservação da vida silvestre com base no empoderamento das mulheres.”

O exercício de treinamento começa, e as patrulheiras estão escondidas, com o cano de seus AR-15 aparecendo entre tufos de capim. Lentamente, as duas patrulheiras designadas como “caçadoras” seguem a trilha do animal. Quando elas chegam ao lugar exato, as mulheres explodem em ação, gritando “Deitem-se! Deitem-se agora!”

Em alguns momentos elas têm as suspeitas algemadas. Quando perguntadas por que as supostas caçadoras estão tremendo, Kumire diz que os alvos sempre ficam “deitados no chão tremendo”. Ela ri. Mander encerra o exercício e as mulheres ajudam suas amigas a levantar-se com sorrisos, e juntas elas entram em formação e desaparecem no mato.

* A viagem do repórter foi custeada pela ONG Alliance Earth.