Esquentando os tamborins: presidente da Tom Maior abre o jogo sobre o Carnaval

Luciana Silva é uma das poucas mulheres a frente de agremiações

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O Carnaval está batendo a nossa porta e devido a toda ancestralidade cultural e negra que tem o Afrobrasileiros busca desvelar aspectos próprios dessa manifestação que hoje encanta o mundo.

Luciana Silva, presidente da Tom Maior, sempre esteve envolvida com a escola de samba que veio a assumir após o falecimento do irmão. Nesta entrevista ela conta como se deu este processo, as dificuldades enfrentadas e a magia de por uma escola de samba na avenida.

Afrobrasileiros: Você lembra quando e com quantos anos teve seu primeiro contato com o carnaval?
Luciana Silva: Eu praticamente acompanho a Tom Maior desde que nasci. A escola foi fundada na esquina de casa, então sempre foi algo muito presente em minha vida. Meu primeiro desfile foi aos 5 anos.

Afrobrasileiros: Qual sua principal lembrança deste momento?
Luciana Silva: Para mim, com os olhos de criança, era muito mágico tudo aquilo, uma grande festa. Aquele monte de gente, de luzes, o barulho… era tudo fascinante. E, falando agora, acho que é a mesma sensação de hoje. Claro que, até por estar como presidente, tem uma preocupação, uma tensão que não existia naquela época. Mas, o encantamento e o brilho no olho de ver a Tom Maior entrando na avenida ainda é o mesmo.

Afrobrasileiros: Como foi assumir a presidência da Tom Maior?
Luciana Silva: O Marko, meu irmão, esteve à frente da escola a maior parte do tempo da vida dele. Então, às vezes mais de perto, outras mais afastada, eu sempre acompanhei tudo da Tom Maior, desde os meus 11 anos. Quando ele morreu, em 2011, foi algo natural que eu assumisse a escola no lugar dele. É claro que dá um susto na hora! É uma responsabilidade enorme, exige uma dedicação muito grande. Mas eu recebi tanto apoio, principalmente de pessoas que já acompanhavam a Tom Maior há muito tempo, que a coisa ficou mais leve.

Afrobrasileiros: Por ser mulher e negra você sente algum tipo de preconceito ou mesmo desconfiança de sua capacidade nesse universo?
Luciana Silva: Nunca senti isso. Quando eu me tornei presidente, já haviam outras mulheres com muito destaque no Carnaval, que é a Solange [Bichara, presidente da Mocidade Alegre] e a Angelina [Basílio, presidente da Rosas de Ouro]. Então eu não precisei quebrar essa barreira. E hoje, embora a maior parte dos presidentes seja formada por homens, você tem muitas lideranças dentro das escolas formada por mulheres. Sobre ser negra, o carnaval não é um ambiente opressor em relação a pele. Aliás, essa é mais uma das belezas dele.

Afrobrasileiros: Quais os maiores embates neste momento, a cerca de um mês para o Carnaval 2018?
Luciana Silva: Nesta época, a gente brinca que só tem tempo para ensaio. Então o foco total é isso, deixar cada componente que vai entrar na avenida consciente do papel e da importância dele no desfile. E aí, como líder, é preciso estar atenta e disponível para atender a necessidade de todo mundo para que a escola faça o seu melhor.

Afrobrasileiros: Como é não ter uma quadra exclusiva? Por que uma agremiação como a Tom Maior ainda enfrenta este dilema?
Luciana Silva: Ter uma quadra hoje, em uma cidade do tamanho de São Paulo, não é tarefa fácil. Não é só encontrar um terreno. Tem a questão do barulho, do acesso… E também não adianta ter esse espaço definitivo em um local totalmente fora das nossas raízes e da nossa comunidade. Então, essa é uma questão que a gente discute sempre com muita calma e responsabilidade. Enquanto isso, temos contado com bons parceiros, que nos ajudaram muito para sempre termos onde ensaiar  e com uma comunidade guerreira, que nos acompanha onde for. Não tem Tom Maior sem a comunidade.

Afrobrasileiros: Como são definidos os enredos da Tom Maior?
Luciana Silva: Temos uma comissão de carnaval, formada por pessoas muito sérias, que conversa muito, dá ideias, busca parceiros… E assim, ouvindo todo o time, a gente avalia o que é melhor para a escola.

Afrobrasileiros: Temas afro são de seu interesse, justamente por ser de uma família negra?
Luciana Silva: A Tom Maior, tradicionalmente, transforma boas histórias em carnaval. E essas histórias podem ser sobre um povo, um lugar ou um artista que desperte a admiração das pessoas. Nós temos o negro em papel de destaque em diversos momentos de nossa trajetória. Um de nossos desfiles mais marcantes é sobre Angola. Em 2016, homenageamos Milton Nascimento e garantimos nosso retorno ao Grupo Especial. Agora, em 2018, vamos contar a história da Imperatriz Leopoldina, que é de origem austríaca, mas era amada pelo povo negro no Brasil. Eu acredito que o Carnaval é uma ótima oportunidade de as pessoas conhecerem mais sobre a própria história e valorizar aqueles que ajudaram a construí-la. Então, mais do que por ser de uma família negra, mas por ser brasileira, eu acho importante destacar nossa origem e a construção daquilo que somos hoje.