Projetos apoiados pela ONU visam inclusão de meninas negras nas ciências exatas e tecnologia

Entre os ganhadores do edital da ONU Mulheres está o projeto chamado “Sou negra, sou mulher, serei exatas!!!”

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Em parceria com instituições como Instituto Unibanco, a ONU Mulheres anunciou no último mês os projetos contemplados por um edital que deve disponibilizar recursos às iniciativas que têm por objetivo a inserção de meninas nas ciências exatas e nas áreas de tecnologia.

Dez iniciativas, relacionadas a programas de ensino de robótica, desenvolvimento de games, aplicativos bem como oficinas de mídias digitais e software e experimentos com plantas medicinais foram selecionadas. Entre elas está o projeto “Sou negra, sou mulher, serei exatas!!!” desenvolvido no Conselho Escolar Professor Severino Pessoa de Luna, na cidade de Chão da Alegria em Pernambuco.

O projeto visa despertar nas jovens o gosto pelas áreas de ciências e tecnologias através da inspiração em histórias de mulheres negras cientistas.

Outro contemplado no edital é o projeto “Akotirene Kilombo Ciência”, que deve, através de oficinas e palestras, promover maior contato com as áreas das ciências da Astronomia, Biologia e Química. O tema das mulheres na ciência será abordado em rodas de conversa que envolvem tanto as alunas da escola parceira, quanto da comunidade quilombola da região, que fica no Rio Grande do Sul.

Mais informações sobre os demais projetos que devem participar do edital estão disponíveis no site da ONU.

Cientista negra e brasileira – Sônia Guimarães

Sônia Guimarães é um exemplo de como a mulher negra pode ascender no mundo da tecnologia. Na graduação, ela cursou na UFScar (Universidade Federal de São Carlos) Licenciatura Ciências – Duração Plena, no mestrado, estudou Física Aplicada pelo Instituto de Física e Química de São Carlos, pela USP (Universidade de São Paulo), e doutorado (PhD) em Materiais Eletrônicos – The University Of Manchester Institute Of Science And Technology.

Atualmente é professora adjunta do ITA, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, e também Gerente do Projeto de Sensores de Radiação Infravermelha – SINFRA, do Instituto Aeronáutica e Espaço – IAE, do Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial CTA.

Sobre a iniciativa da ONU, conversamos com a Sônia, que também falou sobre seus primeiros contatos com as ciências e relação com alunas por quem foi homenageada.

Afrobrasileiros: Você acredita que com este estímulo podemos vir a ter mais mulheres negras demonstrando talento nas ciências exatas?

Sônia Guimarães: Desde que esses estímulos cheguem às escolas públicas, e que lá eles consigam melhorar o ensino de ciências, acredito sim. Tenho dado palestras e conversado com meninas do ensino público e elas não vêm ciências na escola, não têm laboratórios, e acham ciências muito difícil. Os pais dessas meninas não acreditam que elas vão conseguir entrar na faculdade, nem se por algum milagre elas conseguiriam. Eles não querem que seja em ciências, pois o que elas vão fazer depois de formadas, dar aula em escola pública? Ganhar salário de fome? As meninas negras com quem conversei, de escolas públicas, não acham as ciências extas glamorosa, elas querem ser jornalistas, advogadas, e se for para sonhar, querem ser médicas, jamais físicas, químicas ou biólogas. As negras bolsistas ainda não sabem o que querem ser, mas cientistas não é uma opção. E as que querem ser cientistas já tomaram essa decisão muito cedo na vida, o incentivo foi a vocação natural dentro delas.

Afrobrasileiros: Quais principais dificuldades você enfrentou sendo pioneira nesta empreitada?

Sônia Guimarães: Nunca vi ciências na escola, nunca tive laboratórios. Vi teoria científica no cursinho, quando tentei vestibular para engenharia, mas na minha escolha de opções de universidades também coloquei física, pois, me apaixonei pela matéria no cursinho. Entrei em Física, tive dificuldades porque física é difícil. Fui reprovada em Física Moderna, que foi a matéria que mais gostei e está relacionada com o que sou doutora hoje, ou seja, física de materiais semicondutores e suas aplicações para diferentes comprimentos de ondas do espectro eletromagnético. Todo o conhecimento em ciências eu obtive no cursinho para o vestibular. Tive uma professora no fundamental 2 (ou antigo ginásio) que me dizia que nunca eu iria entender física, detalhe: ela era loira e judia e eu tinha tirado nota baixa na primeira prova dela. Na faculdade nunca me deram bolsa de iniciação científica pois eu nunca iria usar física para nada.

Afrobrasileiros: Como foi ter sido homenageada com um coletivo em seu nome?

Sônia Guimarães: O Coletivo Sonia Guimarães surgiu em 2017 com o intuito de acolher estudantes negras(os) e promover discussões de temáticas raciais nos Instituto de Física (IF) e Instituto de Astronomia e Geofísica (IAG) da USP. E tudo está sendo muito legal, estou no Facebook deles e vou dar uma palestra no dia 16 de março, às 16 horas, para recepcionar os primeiros cotistas da USP. Já me informaram que entraram 20 pelo SISU e que todas as cotas foram preenchidas. Pelas fotos eles são negros mesmo! Estou em contato com os estudantes e espero que muitos apareçam, pois, tenho um montão de conselhos para dar, muita coisa para falar.