Há 10 mil anos, britânicos tinham pele escura e olhos azuis, diz estudo

A partir de uma análise de DNA, cientistas do Reino Unido reconstruíram a aparência do mais antigo esqueleto de um humano moderno encontrado na Grã-Bretanha, o Homem de Cheddar; ele é ancestral de 10% da atual população branca

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Foto: Justin Tallis / AFP

 

Os primeiros habitantes da Grã-Bretanha, que viveram há cerca de 10 mil anos, provavelmente tinham a pele negra de acordo com uma análise do DNA do mais antigo esqueleto humano encontrado na ilha. De acordo com os cientistas, 10% dos habitantes brancos da Grã-Bretanha atual, entre aqueles que têm ancestrais britânicos, descendem dessa primeira população.

O fóssil no qual os estudos se basearam, conhecido como Homem de Cheddar, é um esqueleto do período Mesolítico – há cerca de 10 mil anos -, descoberto em 1903 na caverna Gough, na Garganta de Cheddar, em Somerset. A pesquisa foi realizada por cientistas do Museu de História Natural do Reino Unido.

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Modelo do Homem de Cheddar, que viveu há cerca de 10 mil anos, quando os primeiros humanos modernos chegaram à Grã-Bretanha; reconstrução foi feita a partir da análise do DNA. Foto: Tom Barnes / Channel 4 / Museum of Natural History

Inicialmente, acreditava-se que o Homem de Cheddar tinha pele clara e cabelo liso, mas a reconstrução de sua aparência com base na análise do DNA sugere fortemente que ele tinha olhos azuis, pele “muito escura ou negra” e cabelos escuros e crespos.

Além de ser o mais antigo fóssil da espécie humana – o Homo sapiens – já encontrado em território britânico, o Homem de Cheddar é também o esqueleto mais completo dessa época. De acordo com os cientistas, as populações que viviam na Europa adquiriram um tom de pele cada vez mais claro ao longo do tempo, porque a pele branca absorve mais luz solar, produzindo mais vitamina D.

A nova descoberta sugere que a pele clara surgiu mais tarde, após o surgimento da agricultura, provavelmente porque ao mudar a dieta as populações europeias começaram a obter menos vitamina D a partir de fontes como peixes.

“Até recentemente, sempre se supunha que os humanos se adaptaram rapidamente para ter uma pele mais clara depois de sua entrada na Europa há 45 mil anos. A pele mais clara é mais eficiente para absorver a luz ultra-violeta e isso ajuda os humanos a evitar a deficiência de vitamina D em climas com menos luz solar”, explicou um dos autores do estudo, Tom Booth, do Museu de História Natural do Reino Unido.

O Homem de Cheddar, porém, tem marcadores genéticos de pigmentação da pele normalmente associados ao biotipo das populações sub-saharianas, segundo o cientista. A descoberta, de acordo com ele, é coerente com várias outras descobertas relacionadas a fósseis humanos do Mesolítico em toda a Europa.

“Ele é apenas um indivíduo, mas também é um indicativo da população europeia naquela época. Eles tinham pele escura e a maior parte deles tinha olhos bem claros – azuis ou verdes – e cabelos castanhos escuros. O Homem de Cheddar subverte as expectativas sobre os tipos de traços genéticos que ocorrem juntos”, afirmou Booth.

De acordo com o cientista, o estudo indica que os olhos azuis se tornaram comuns na Europa muito antes da pele clara e do cabelo loiro – características que só começaram a se generalizar depois do advento da agricultura.

“Ele (o Homem de Cheddar) nos lembra que não podemos fazer suposições sobre a aparência das pessoas do passado com base em como elas se parecem hoje – e que as associações entre características físicas às quais nos acostumamos não são algo fixo”, declarou Booth.

O “primeiro inglês”. O Homem de Cheddar era um caçador-coletor – isto é, viveu antes do surgimento da agricultura – com cerca de 1,66 metro de estatura e que morreu com pouco mais de 20 anos.

Quando seu esqueleto foi encontrado, em 1903, foi divulgado que se tratava do “primeiro inglês”, com uma estimativa de idade – exagerada – de 40 mil a 80 mil anos. A datação com radiocarbono feita na década de 1970, porém, mostrou que o esqueleto tinha cerca de 10 mil anos.

Segundo o cientista, o esqueleto apresenta uma pélvis com formato estreito, normalmente encontrado nas mulheres. Ele tinha um buraco na testa, mas não ficou claro se ele era decorrente de um ferimento, de uma infecção, ou de um dano no momento da escavação.

Como todos os humanos da Europa em sua época, o Homem de Cheddar era intolerante à lactose e, depois de adulto, era incapaz de digerir o leite. Quando ele viveu, o canal da Mancha ainda não existia e, portanto, a Grã-Bretanha ainda não era uma ilha – estava ligada ao continente europeu. A paisagem, naquela época, se tornava densamente coberta por florestas.

“O Homem de Cheddar pertenceu a um grupo de pessoas que era formado principalmente por caçadores-coletores. Eles caçavam, coletavam sementes e castanhas e tinham vidas bastante complexas”, disse Booth.

Além das sementes e castanhas, a dieta do Homem de Cheddar teria incluído o veados-vermelhos (Cervus elaphus), auroques – um bovino pré-histórico extinto – e peixes de água doce.

Embora o esqueleto não tenha sido encontrado com nenhum animal ou vestígio cultural, outros sítios arqueológicos do Mesolítico oferecem pistas sobre sua dieta e sua vida cultura, de acordo com Booth. Um exemplo é o sítio de Star Carr, em North Yorkshire, onde foi encontrado um assentamento mil anos mais antigo que o Homem de Cheddar.

Em Star Carr, os arqueólogos não descobriram um esqueleto tão completo como do Homem de Cheddar, mas encontraram os topos dos crânios de veados-vermelhos trabalhados para serem usados como uma espécie de chapéu, pedras semipreciosas – incluindo âmbar, hematita e pirita – e um pingente de xisto gravado, que é considerada a mais antiga manifestação artística do Mesolítico na Grã-Bretanha.

A maior parte dos fósseis humanos do Mesolítico foi descoberta em cavernas e há uma forte tradição de enterros em cavernas na região.

“A pouco mais de um quilômetro de onde foi encontrado o Homem de Cheddar, existe uma outra caverna conhecida como Buraco de Aveline que é um dos maiores cemitérios do mesolítico na Grã-Bretanha. Os arqueólogos encontraram ali restos de cerca de 50 indivíduos, todos depositados dentro de um curto de período de 100 a 200 anos”, afirmou Booth.

O caso do Homem de Cheddar, porém, é considerado incomum, porque ele foi encontrado sozinho e em sua época eram comuns os enterros coletivos. “Ele foi retirado do sedimento, mas não ficou claro se após sua morte ele foi enterrado ou se foi apenas recoberto por sedimentos, ao longo do tempo, por deposição mineral natural”, disse o cientista.

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O crânio do Homem de Cheddar, que viveu na Grã-Bretanha há 10 mil anos; não ficou claro se o buraco encontrado em sua testa foi resultado de um ferimento, de uma infecção, ou de um dano no momento da escavação. Foto: Museum of Natural History / UK

A reconstrução. O modelo do Homem de Cheddar foi feito pela empresa Kennis & Kennis Reconstructions, especializada em reconstruções paleontológicas. Os artistas tiraram as medidas do esqueleto, escanearam o crânio com tomografias e utilizaram uma impressora 3D para produzir uma base para o modelo.

“É claro que a reconstrução facial é em parte arte e em parte ciência. Mas há alguns padrões relacionados à espessura dos tecidos em diferentes regiões do rosto das pessoas, de modo que podemos utilizar essas convenções para desenvolver a morfologia facial”, disse Booth.

Segundo so cientistas, os britânicos atuais compartilham cerca de 10% de sua ascendência genética com a população europeia à qual pertencia o Homem de Cheddar, mas não há descendentes diretos. Eles acreditam que a população mesolítica de caçadores-coletores da qual fazia parte o Homem de Cheddar foi em sua maior parte substituída por agricultores que migraram mais tarde para a Grã-Bretanha.