Turismo: Lalibela, o labirinto sacro da Etiópia

Diz a lenda que, quando os 11 templos subterrâneos de Lalibela foram esculpidos, no século 12, eram os anjos que continuavam os trabalhos. Ainda hoje, o que não faltam ali são mistérios

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Fiel entra na igreja ortodoxa de São Jorge Foto: Damon Winter/NYT

O sapateiro não vai à igreja. O seu ofício é do lado de fora. Enquanto você, turista, visita (sem sapatos) um dos templos de adoração religiosa de Lalibela, no norte da Etiópia, ele permanece ali, quieto, sério, velando o sono de um tênis Nike. Como ele recebe 3 birres (cerca de R$ 0,35) por igreja, ao fim das 11 visitas, você vai pagar US$ 1 (R$ 4) para o sapateiro. O valor é baixo e, no mais, não contratá-lo seria um erro. Um erro que pode te deixar descalço. Ou só de meias.

O santuário de Lalibela é um complexo composto por 11 igrejas esculpidas em rocha. Trata-se do principal local de peregrinação religiosa dos cristãos ortodoxos da Etiópia. São construções do século 12, erguidas (ou, mais precisamente, escavadas) por ordem do rei Lalibela. Com elas, o rei quis criar uma espécie de nova Jerusalém para os cristãos – já que, na ocasião, “a oficial” estava sob domínio árabe. Hoje, o complexo é apontado pela Unesco como patrimônio da humanidade.

Lalibela continua sendo local de peregrinação religiosa, um espaço de devoção e mistério. Mas, além disso, um lugar onde aquilo que pode ser chamado de “demasiado humano” se faz presente. Chega-se nela partindo da capital da Etiópia, Adis-Abeba. De São Paulo até Adis, são 11 horas de voo direto. Apesar de apenas 5 horas de fuso horário, eu, por exemplo, cheguei na Etiópia em pleno 2010.

Explico: o país, que foi um dos primeiros reinos cristãos da história, segue o calendário Juliano, criado pelo imperador romano Júlio César. Nós, e o mundo ocidental em geral, seguimos o calendário Gregoriano.

 

Etiópia
Culto em igreja dedicada a São Gabriel em Lalibela Foto: Damon Winter/NYT

A chegada. O voo de Adis para Lalibela não dura mais de uma hora. E ao se aproximar da cidade, ainda do alto, é possível avistar o Nilo Azul. No último mês de outubro, quando visitei a região, o rio estava seco (o fluxo de água varia muito ao longo do ano). A impressão era de estar chegando no sertão, em uma região do Nordeste profundo do Brasil.

O aeroporto é tão pequeno que a gente espera pelas malas ao ar livre, do lado da pista de pouso. Até a área das pousadas e hotéis, próxima ao santuário, são mais 30 minutos de van, por uma estrada sinuosa e de mão dupla. No caminho, se o motorista não acelerar tanto ao ponto de te obrigar a fechar os olhos (Eu fecho. Vocês não?), será possível ver um pouco daquela África que talvez ainda habite o imaginário de muitos: pastores caminhando pela estrada com seus cajados, guiando bodes e cabras pelo vilarejo; casas de barro, tetos de palha e o chão vermelho; crianças que surgem do nada com seus uniformes do Barcelona e de outros times europeus; e religiosos que parecem impassíveis diante do mundo exterior.

Para entrar no santuário, paga-se U$ 50 – com mais U$ 10 ou 20 é possível contratar um guia local. Todos falam inglês (alguns também falam espanhol, herança do período em que a Etiópia tinha um governo comunista e mantinha relações com Cuba) e têm vasto conhecimento histórico. Vale a pena.

 

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Lalibela continua sendo local de peregrinação religiosa, um espaço de devoção e mistério  Foto: Gilberto Amendola/Estadão

Empreiteiros celestiais. O conjunto de igrejas é labiríntico – pequenos túneis e galerias ligam as igrejas. Sem um guia, você pode perder tempo andando em círculos. Você também precisa contratar o sapateiro, que, assim como o guia, também é um local, mas sem inglês fluente ou tanto conhecimento histórico.

Diz a lenda local que, durante a construção, 20 mil homens trabalhavam nas rochas durante o dia e os anjos terminavam o serviço quando a noite chegava. Por mais ceticismo que se tenha, não é difícil cair na tentação de acreditar em anjos escavadores ou arquitetos celestiais. As igrejas são o triunfo do improvável. Todo o complexo ficou pronto em pouco mais de 23 anos.

Ao entrar nas igrejas, o sentimento é de se estar pisando (pés descalços) no que há de mais misterioso e insondável. A luz natural que entra pelas frestas, a composição de cores no avermelhado das rochas, os quadros representando São Jorge, as cortinas de veludo vermelho (algum fã do David Lynch lendo?) e os fiéis agachados pelo chão fazem do ambiente algo que parece ser retirado de dentro de um sonho (ou, mais uma vez, de uma das criações de David Lynch).

Atrás das cortinas vermelhas, segundo os guias, existem tesouros e livros sobre o futuro da humanidade que já teriam enlouquecido os homens que tiveram coragem de ler suas páginas. Dentro das igrejas é comum encontrar fiéis encolhidos pelo chão. Normalmente, estão em estado de oração, falam com Deus, cantam ou simplesmente permanecem em silêncio. Convém ao turista entender que não se está em um parque temático. Ser delicado em relação às fotos é uma questão de respeito.

 

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Comer com as mãos é bastante comum na Etiópia  Foto: Gilberto Amendola/Estadão

A mais emblemática. A igreja mais famosa do santuário é aquela dedicada a São Jorge. Um pouco mais afastada, ela se assemelha a um monólito coberto por uma cruz grega. Seu interior não é muito diferente daquilo que pode ser visto nas outras 10 escavações. Cada igreja tem um sacerdote responsável. Com eles, um elemento menos transcendental entra em cena: o dinheiro.

Os sacerdotes não recusam posar para fotos, mostrar suas cruzes e vestimentas. Mas, obviamente, esperam a contrapartida em birres. Em conversas mais reservadas, moradores e guias falam da “riqueza” acumulada por alguns religiosos (que também seriam donos de terras, animais e casas).

Ainda assim, a postura de um morador perante o seu sacerdote é de total respeito e devoção. Não existe contato físico entre sacerdote e fiel. A interação entre eles é feita através da cruz. Enquanto ao homem comum (mulher ou criança) é reservado o direito apenas de beijar a cruz consagrada, o sacerdote responde ao gesto de carinho tocando com a mesma cruz partes do corpo de seus seguidores.

Na saída do complexo, você será abordado por muitos moradores, principalmente crianças. A maioria não quer dinheiro. O que as crianças querem é conversar. Querem praticar o inglês e saber coisas de outros países. Ao invés de dinheiro vivo, muitos pedem alguma lembrança de viagem, como peças de roupa. Eventualmente, eles também vendem artesanato.

Aliás, sobre esse assunto vale uma ressalva. A prática na Etiópia é a da pechincha: não tenha receio em dar sua contraproposta. Antes de fechar a compra, verifique se a peça em questão não está marcada com um grande “made in China”. Uma boa lembrança é uma réplica das cruzes empunhadas pelos sacerdotes. Os preços podem variar de US$ 5 a US$ 20. Ou você pode levar para casa apenas essa aura de mistério e contemplação.

 

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Injera com wat, espécie de panqueca com consistência esponjosa     Foto: Gilberto Amendola/Estadão

TRADIÇÃO À MESA

Para comer com as mãos

A expressão “comer com os olhos” é usada quando algum prato tem o poder de despertar o nosso paladar pela aparência. No caso da Etiópia, o correto deveria ser dizer “comer com as mãos”. Afinal, é assim que se come no país. O prato mais adequado para esse tipo de experiência é o injera com wat. O injera é uma espécie de panqueca com consistência mais esponjosa, que lembra o pão sírio. É feito a base de farinha e de um grão muito comum na Etiópia, o teff (rico em proteínas e minerais, vem sendo usado por corredores, já que aumentaria a performance em corridas longas). Na preparação do injera, a farinha é fermentada em água durante 3 dias e, depois, assada sobre uma placa de barro.

Com o pão aberto sobre um prato, o wat é colocado. O quê? Wat são legumes, carnes e grãos dispostos sobre a injera. O prato é feito para ser compartilhado, e o pão faz as vezes de talher – é com ele que você vai pegar o que estiver sobre o pão.

A experiência é deliciosa, mas apimentada. Por isso, uma boa ideia é pedir a cerveja local, a levíssima São Jorge. Ou, talvez, um dos vinhos do país, cada vez mais bem ranqueado entre especialistas.

Aroma de café 

Famoso mundialmente, o café etíope é melhor aproveitado em uma cerimônia. Nada muito ritualístico, mas bonito de se acompanhar e saboroso ao paladar. Em algum momento, você vai se deparar com uma mulher de vestido florido, sentada no chão e dedicando-se ao preparo. O ritual dura cerca de 15 minutos. Os grãos são lavados e colocados em uma fogueira de lenha. Depois de quentes, são torrados em uma panela – o processo é controlado por uma especialista, que define o ponto certo só de olhar para os grãos. Uma vez torrado, o grão é moído com um pilão. Em seguida, o café é filtrado – e pronto.

O segredo é que todo esse processo é para pequenas quantidades. Não existe café no bule ou na garrafa térmica. Para cada pedido (ou conjunto de 4 ou 5 xícaras), o trabalho recomeça. A simpatia e o sorriso no rosto de quem prepara também faz parte da experiência.

O café é aromático e forte, e deixa uma certa borra nas xícaras. Aliás, não é difícil encontrar as xícaras tradicionais do país (sem alça) à venda. Eu mesmo trouxe três, que têm deixado até o meu café de cápsula mais gostoso (o efeito é psicológico, eu sei). Ou, se preferir, traga na mala o café em pó.