Foi justamente nas trincheiras da violenta Trenchtown, a maior e mais conhecida favela da cidade de Kingston, capital da Jamaica, que Bob Marley conheceu Peter Tosh. Juntos, eles formaram aquela que seria a banda mais imponente e icônica do país, os The Wailers.

No início da década de 1960, quando o grupo começou, Trenchtown estava sob o comando de dois bairros rivais. Armados pelos partidos, eles usavam os músicos para tentar abocanhar algum ganho político. A violência das ruas de Trenchtown inspirou Marley e The Wailers e os levou a uma longa e brilhante trajetória. Suas composições retratavam o dia a dia sanguinário e de miséria do local.

Com uma gravadora de sucesso, a Island, e um toque de classe do produtor anglo-jamaicano Chris Blackwell, os Wailers triunfaram. Antes mesmo da dissolução do grupo, em 1972, o power trio negro e pobre já havia feito fama. Eram, portanto, os talentos do Terceiro Mundo, que falavam em nome dos oprimidos e explorados de Kingston, no topo da música.

Toda a questão política, histórica e social da Jamaica, assim como o nascimento do reggae/ska e da construção da forte cena musical do país, que vai muito além de Bob Marley e os The Wailers, podem ser vistos na exposição Jamaica, Jamaica!, a partir desta quinta-feira, 15, no Sesc 24 de Maio, no centro de São Paulo.

Jamaica, Jamaica!
Jimmy Cliff e Gil. Em 1980, dupla fez excursão pelo Brasil Foto: Felipe Rau/Estadão

A mostra, que fica em cartaz até 26 de agosto, reúne fotografias, capas de discos, instrumentos musicais, folhetos, documentos, áudios e imagens de coleções particulares sobre a história da Jamaica. A exposição, portanto, traça um panorama cronológico e histórico da ilha, tendo a música como pano de fundo. Concebida pela Cité de la Musique – Philharmonie de Paris, onde a exposição ficou em cartaz no ano passado, todo o acervo pertence a coleções da Jamaica, Grã-Bretanha e França.

Jamaica, Jamaica!
Na mostra. Som de protesto contra o racismo e a miséria Foto: Felipe Rau/Estadão

Quem faz a curadoria é o jornalista e diretor cinematográfico Sébastien Carayol. “Acho que a música jamaicana não tem o reconhecimento merecido. A cultura do país também é pouco conhecida mundo afora. O público, em geral, não sabe quase nada. Na França, inclusive, muitos nem sabiam que Bob Marley era jamaicano. Justamente por isso o reggae não alcançou o mesmo sucesso de outros estilos blacks, como o funk, o rap e o soul”, afirma o francês em entrevista ao Estado.

A exposição também terá cursos, palestras, encontros, oficinas e projetos educativos, proporcionando visitas orientadas e ateliês. “A Jamaica é um país amplo e virtuoso. A ideia de Jamaica, Jamaica! é quebrar o tal conceito sobre o país. A música da Jamaica pode ir além do que popularmente se conhece como o reggae, o dub e o dancehall. A identidade musical de lá está extremamente ligada a fatos sociais e políticos”, complementa Carayol.

Além disso, a mostra apresenta um percurso dividido em oito núcleos, cada qual com um recorte temático e que, em conjunto, formam um panorama de elementos marcantes na construção político-social e cultural da Jamaica. Para além do ícone Bob Marley, a exposição retrata artistas e grupos ligados à música, como Marcus Garvey e The Skatalites. “É uma verdadeira e intensa imersão jamaicana”, define o curador Carayol.

Influência no Brasil também é abordada

No País, a exposição ganha uma parte especial. A montagem traz um conteúdo exclusivo destinado à relação do Brasil com a Jamaica. Para isso, um grupo curatorial convidado fez o levantamento do impacto da cultura jamaicana no território brasileiro.

Sendo assim, imagens e objetos vindos do Maranhão, Bahia e São Paulo ganham destaque na mostra. São Luís, por exemplo, ficou conhecida como a “A Jamaica brasileira”. Já na região do Recôncavo Baiano se mantiveram as raízes jamaicanas tradicionais do rastafári. Em Salvador, houve grande influência do reggae nos blocos afro. Na capital paulista, os bailes da dancehall e reggae da periferia ficaram famosos nos anos 2000.

Sébastien Carayol
O curador. O francês Sébastien Carayol Foto: Felipe Rau/Estadão

Além disso, nas décadas de 1980 e 1990, surgiram as primeiras bandas autorais como a Tribo de Jah. Edson Gomes, Nengo Vieira e Sine Calmon também se destacam no Recôncavo Baiano. Olodum e Muzenza, em 1979 e 1981, respectivamente, dão origem ao samba reggae. “A música jamaicana se misturou com as culturas locais. Essa mescla e compartilhamento cultural já faz parte do DNA do Brasil. Hoje, portanto, a musicalidade é integrada”, afirma Carayol.

JAMAICA, JAMAICA!

Sesc 24 de Maio. Rua 24 de Maio, 109; 3350-6300.

Abertura 5ª (15). 3ª a sáb., 9h/18h. Dom., 9h/18h. Grátis. Até 26/8