Racismo, universidade e as disputas pelos sentidos do mundo

As cotas raciais prosperaram para os alunos, mas a escolha de professores nas instituições perpetua um modelo ultrapassado

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As cotas para estudantes avançaram no ensino superior. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasi

No início dos anos 2000, em um Congresso com cientistas portugueses, discorria sobre as ocorrências de delegacia envolvendo injúria racial após a Constituição de 1988. Fui interrompida por uma professora que, muito preocupada com o espanto do grupo de 11 pesquisadores, tentava defender a representação do Brasil como um paraíso racial.

Quando a indagaram sobre as “cotas”, experimentei o primeiro momento constrangedor de inúmeros que veria ao longo de uma década: aos prantos, fez uma defesa pessoal de sua orientação racial democrática. De como era ter orientandos negros no CNPq.

Como pesquisadora formada no sul do País, vivi ao longo de seis anos situações que muito recentemente são classificadas como “racismo” institucional. Desde piadas em bancas de seleção com personagens negros cômicos de filmes norte-americanos até o questionamento da vocação para pesquisa. Sem contar as classificações obscuras em concursos nos quais a banca bocejava e olhava pela janela durante minha prova-aula.

Todos sabem como acontece, mas não é possível criticar um círculo de poder se você ainda tem a pretensão de ingressar em uma universidade. São estes os inconvenientes que o professor José Jorge de Carvalho ousou denunciar ao tomar posição no caso Ari.

Arivaldo Alves foi reprovado em uma disciplina obrigatória do curso de doutorado no departamento de Antropologia da UnB em 1998. Algo inédito nos 20 anos de existência daquele programa. Lembro de José Jorge na Federal do Rio Grande do Sul contando quantos professores negros tínhamos na universidade. Um deles, era meu orientador, cabo-verdiano. Não lembro de outros durante o tempo em que estive lá. E não creio que haja um número muito representativo em 2018.

José Jorge indagava se tínhamos os dados sobre evasão nos cursos das principais universidades. Por que concentrar-se em 20% de reserva de vagas? Naquele ano, um muro amanheceu pichado na frente da faculdade de Direito na João Pessoa com a frase: “Negro, só se for no RU, cotas não”. A referência era ao restaurante universitário, no qual comi por seis anos e local em que de fato podíamos ver os não-brancos.

As “cotas” foram atacadas, livros foram escritos com vários argumentos sobre a dificuldade da classificação racial, sobre importar um problema que não existia no Brasil. Lembro de estudantes na defesa da meritocracia.

O Brasil de 2018 é bem diferente daquele. As primeiras turmas de UERJ e da UENF (pioneiras na política de ação afirmativa) estão formadas e desmentem hipóteses iniciais sobre o desempenho de cotistas. As federais também sofreram o impacto das políticas e é possível perceber maior heterogeneidade quanto à cor em alguns cursos.

Se olharmos para o corpo docente das universidades, vemos algo curioso: alunos não- brancos e de classes trabalhadoras ingressam em cursos de doutorado. Mas se realizarmos um levantamento nos últimos dez anos nos concursos públicos, veremos que segue o mesmo padrão de cor de décadas anteriores. Quais as hipóteses para este fenômeno? Tenho amigos formados na UFF,USP, UFRJ, UFMG, UFRGS, UERJ, UFBA… por pesquisadores reconhecidos internacionalmente, com uma biografia de dedicação à pesquisa, com formação na Europa, Estados Unidos, com publicações nas melhores revistas. Como explicar seu desempenho em concursos?

Um ponto: creio que as ações afirmativas não servem como resolução para desigualdades estruturais com base em cor. Mas sabemos o peso do reconhecimento pelo título conferido no século XXI àqueles cujas famílias não têm um único integrante com ingresso no ensino superior. Parece-me que a entrada na carreira docente representa o passo que não demos. Representa a discussão de uma outra epistemologia científica, o deslocamento concreto dos objetos de observação (tanto na área de saúde quanto na geografia ou no urbanismo).

Se temos como professor um homem negro, residente na Maré e que estuda favelas (e de fato, ele existe com estas características), alteramos um ponto nos discursos sobre um dos temas mais interessantes na ciências sociais brasileiras. Outro lugar de observação, outra forma de entrada em campo, outras possibilidades teóricas e políticas.

Creio que todos têm um acordo formal sobre isto. Como temos acordo sobre a necessidade de combater o racismo. Mas o que existe hoje é um outro tipo de reserva de vagas: aquelas que definem os sentidos do mundo. E que ao definirem, estabelecem os lugares de poder. E como consequência óbvia, a forma da distribuição dos recursos e da reprodução nos termos estudados por Pierre Bourdieu.

Não é apenas uma questão de escolha teórica. Longe disto. Há também o uso do discurso dos estudos culturais, dos estudos de gênero e outros como forma de auto-consagração. Atuação magistral no campo da retórica. Mas que não se aplica às regras de seleção dos novos professores.

O fato concreto é que não há nenhuma disposição para alterar este quadro e basta dar uma olhada nos resultados de concursos recentes para confirmar este texto. Melhor seria se permanecessem as cátedras. É uma ironia, mas pouparia muito sofrimento aos que entram em concursos com 50 candidatos e aceitam regras que jamais os incluirão. Que sequer explicarão a diferença de décimos que os colocou em segundo lugar (estas explicações nunca poderão ser dadas, pois democratizariam o processo).

Quanto a mim, que furei o bloqueio sem qualquer obtenção de justiça em nenhum destes lugares, seguirei na disputa pelos sentidos do mundo. Porque não se pode acreditar em uma ciência sem dissenso e fenotipicamente homogênea. Estive prestes a dedicar este texto a quatro professores … mas percebi que seria injusto não completar a lista. E o texto já está longo demais. Além disto, não faz mais diferença.