Uso do cabelo afro é ato político, dizem blogueiras e especialistas em beleza

O Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio) conversou com blogueiras, empresárias e cabeleireiras sobre como a aceitação do cabelo afro pode influenciar na construção de autoestima e da identidade negra.

0
259
A cabeleireira Claudia Fernandes (direita) lembrou a importância de haver informações e produtos de beleza para a população negra, principalmente para crianças e jovens. Foto: UNIC Rio/Ana Rosa Alves

Em julho de 2017, uma pesquisa realizada pelo Google BrandLab mostrou que, pela primeira vez no Brasil, houve maior número de buscas no Google por cabelos cacheados em comparação a lisos. Os dados mostraram um crescimento de 232% na busca por cabelos cacheados entre 2016 e 2017 e um crescimento de 309% por cabelos afro.

Especialistas em beleza observaram um recente aumento das vendas de produtos para cabelos crespos e cacheados. Mais empresas estão apostando nesses produtos, o que significa reconhecimento dessa população como consumidora.

O Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio) conversou com blogueiras, empresárias e cabeleireiras sobre como a aceitação do cabelo afro pode influenciar na construção de autoestima e da identidade negra.

Os dados disponibilizados pelo Google BrandLab mostraram que uma em cada três mulheres foi vítima de preconceito relacionado ao seu cabelo, e quatro em cada dez disseram já ter sentido vergonha dos cabelos cacheados. As mídias sociais têm tido um papel importante para reverter essa realidade.

De acordo com a pesquisa, três em cada cinco mulheres com cabelo cacheado usam o Youtube para conseguir dicas de cuidados, uma em cada três usam o site como fonte de informação sobre beleza e 50% das buscas são relacionadas a cabelo. De 2015 a julho de 2017, as buscas por “transição capilar”, período em que nenhuma química é usada até o crescimento total do cabelo natural, subiram 55%.

Além do Youtube, outras mídias sociais, como o Instagram e blogs, estão sendo cada vez mais usadas como espaços para debater assuntos como cabelo natural, identidade negra e representatividade.

A blogueira e jornalista Luiza Brasil destacou a importância do movimento na Internet para o autoconhecimento e a autovalorização que estimula o uso do cabelo negro natural. Para ela, o uso do cabelo crespo “não é moda, não é tendência, nem vai passar”. “É um ato político, um ato de ocupação”, declarou.

A modelo e empresária Yasmim Stevam enfatizou a importância do uso das plataformas digitais para atingir mulheres na construção de sua autoestima e de sua identidade como negras abordando temas como cabelo, estilo e cor de pele. Ela afirma ter sentido forte demanda do público por essas discussões e por detalhes sobre sua trajetória pessoal.

Renata Varella e Andressa Abreu, criadoras da primeira consultoria brasileira para cabelos sem química, o Clube das Pretas, observaram um aumento do número de produtos disponíveis no mercado para cabelos crespos e cacheados, assim como do reconhecimento do público negro como consumidor.

A cabeleireira Claudia Fernandes lembrou a importância de disponibilizar informações e produtos de beleza para a população negra, principalmente para crianças e jovens. O maior acesso a essas dicas permite que pais possam cuidar melhor dos cabelos dos filhos, enquanto os jovens podem ter mais alternativas de cuidados e penteados.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílio Contínua (PNAD), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em novembro de 2017, houve um aumento de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas no Brasil entre 2012 e 2016. Uma explicação para esse crescimento é que mais pessoas passaram a se reconhecer como negras.

A pesquisa elaborada pelo Google BrandLab mostrou ainda que 24% das mulheres de 18 a 24 anos reconhecem seu cabelo como cacheado. “Agora, com esse movimento de libertação, de descobrimento, de redescoberta, a gente está conquistando a ‘permissão’ para ser negra”, disse Renata Varella.

A estética do cabelo natural ou com penteados afros busca a afirmação e resistência da identidade negra, fazendo com que a transição capilar preceda ou venha acompanhada da construção de autoestima e de autoconhecimento, disseram as especialistas.

“Depois que eu fui me aceitando, aceitei meu cabelo, minha cor, automaticamente o estilo mudou também e aí começou a mexer comigo. Então, eu comecei a me amar mais. O cabelo muda a pessoa, querendo ou não, por fora e por dentro também”, declarou Yasmim Stevam.

Cabelo crespo ou cacheado?

Apesar do progresso no que se refere à disponibilidade de informações e à maior aceitação do cabelo cacheado, ainda há o estigma e a falta de aceitação do cabelo crespo.

“Muitas mulheres não aceitam (seu cabelo). Às vezes tentam, mas se enxergam em mulheres de cabelos cacheados, quando o cabelo delas não é cacheado. (…) Isso acaba mexendo com a autoestima da pessoa e a decepcionando. Acho que ainda existe uma dificuldade de aceitação”, disse Yasmim.

A preferência por cachos definidos é uma das preocupações do movimento. “Estamos saindo de uma revolução alisada para entrar em uma revolução cacheada, mas nem todo cabelo forma cachos abertos, largos e soltos. (…) Não podemos sair de um padrão, de uma ditadura de beleza, para entrar em outra”, disse Andressa Abreu.

A maior presença de influenciadores negros nas mídias digitais reforça a representatividade. Porém, na televisão e nas revistas femininas, sua participação ainda é baixa. Quando existe, a retratação do negro é frequentemente estereotipada e colocada fora do protagonismo ou do referencial de beleza, de acordo com as entrevistadas.

“A mídia, de alguma forma, não abrange e não representa todos os tipos de afros e de mulheres negras. Muitas vezes, nos colocam em estereótipos, mas nós somos muito diversas”, declarou Luiza Brasil.

Para ela, o acesso a informações e ao conhecimento das leis brasileiras possibilita aos negros contestar a ideia de “boa aparência” baseada apenas no padrão branco, especialmente na vida profissional. Segundo as entrevistadas, muitas vezes o racismo se torna mais evidente quando optam por usar cabelos naturais com penteados afro.

“[Mulher negra] já sofre racismo 24 horas, às vezes sem ela perceber. Depois que tirei essa escama do meu olho, consegui ver o mundo e o dia-a-dia totalmente diferente”, declarou Yasmim Stevam.

Estabelecida pela ONU em 2013, a Década Internacional de Povos Afrodescendentes (2015-2024) defende esforços dos países, da sociedade civil e de outros atores relevantes para enfrentar o racismo, a discriminação e o preconceito racial, e tem como objetivo efetivar compromissos internacionais contra o racismo.

No ano passado, a ONU Brasil lançou a campanha Vidas Negras, visando ampliar junto à sociedade, gestores públicos, sistema de Justiça, setor privado e movimentos sociais, a visibilidade do problema da violência contra a juventude negra no país.

O Sistema ONU pretende com a iniciativa chamar atenção e sensibilizar a sociedade para os impactos do racismo na restrição da cidadania de pessoas negras, influenciando atores estratégicos para a produção e apoio de ações de enfrentamento da discriminação e da violência.