Mudança de poder em Cuba abre espaço para mais negros em cargos do governo

Embora alguns acreditem que a mudança não reduzirá as disparidades, críticos afirmam ser um passo importante

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Cuba diz que 9% dos seus habitantes são negros, mas a maioria das estimativas mostra um percentual maior. Foto: Tomas Munita/The New York Times

Ao deixar o cargo, o presidente cubano Raúl Castro disse que havia um número excessivo de apresentadores brancos na televisão. Em seu discurso de despedida, no dia 19 de abril, ele disse que contratar os poucos apresentadores de cor na programação hoje “não foi fácil”, uma vez que quem controla as estações é o Estado.

Por isso, foi extraordinário ver quantas mulheres e afro-cubanos foram escolhidos para ocupar cargos nos mais altos escalões da política cubana no novo governo: dos seis vice-presidentes do Conselho de Estado três são negros, e três mulheres. O novo conselho atuará sob o novo presidente Miguel Díaz-Canel Bermúdez.

O fato de esta, que é a primeira administração em 60 anos sem um só Castro, incluir tantas mulheres e funcionários negros é realmente notável em Cuba, onde as oportunidades de negócios só aumentaram as disparidades econômicas raciais.

Embora as estatísticas oficiais digam que 9% dos cubanos são negros, a maioria das estimativas dá um número muito maior. Acredita-se que o governo cubano na era Castro fosse constituído principalmente de homens brancos. Embora, em geral, tivesse pelo menos um afro-cubano em um alto cargo, os pessimistas não o levavam em conta por não passar de um dado simbólico.

Os céticos duvidam que venham a ocorrer mudanças para sanar as disparidades, mas alguns críticos admitiram que este é um passo importante. “Sim, tem um grande significado”, disse Ramón Colas, ativista anticastrista negro que buscou asilo político nos Estados Unidos em 2001.

Segundo ele, a eleição, processo totalmente controlado por Castro e pelo Partido Comunista, mostrou que o ex-líder cubano estava disposto a ouvir as organizações cívicas negras. Mas Colas observou que seria ainda mais significativo se os negros do Conselho usassem suas posições para lutar pela igualdade racial. “Duvido que eles consigam fazer isso”, prosseguiu. “Eles não têm permissão para tanto. Fidel declarou que o problema do racismo tinha acabado”.

Embora a desigualdade persista no país, a revolução de Castro deu amplos passos em favor dos negros. Quando Fidel chegou ao poder, uma de suas primeiras medidas buscava essencialmente o fim do racismo. O resultado foi que o racismo sistêmico que existe nas Américas é muito menos presente em Cuba.

Alejandro de La Fuente, professor de Estudos Cubanos em Harvard, afirmou que, nos anos 1980, a lacuna na expectativa de vida entre brancos e negros era melhor em Cuba do que no Brasil ou nos Estados Unidos. Além disso, o número de cubanos negros com formação universitária estava próximo do dos cubanos brancos, segundo ele próprio constatou, enquanto nos Estados Unidos a proporção de brancos com diploma universitário era o dobro em relação à dos afro-americanos.

Mas os avanços, obtidos graças à socialização da educação, foram prejudicados pelo declínio econômico que se seguiu ao colapso da União Soviética, nos anos 1990. Começou, então, a crescer o número de cubanos que passaram a viver do dinheiro das remessas enviadas dos Estados Unidos. E quase todos os cubanos que enviavam dinheiro eram brancos.

De La Fuente observou que as duas mulheres nomeadas para o Conselho, Inés María Chapman Waugh e Beatriz Johnson Urrutia, são engenheiras originárias do lado leste de Cuba, o que as torna um exemplo do tipo da mobilidade das mulheres negras no campo da educação no país.

“Mesmo que isso seja apenas para tornar a vitrine mais atraente, significa que eles sentem a necessidade de acrescentar certo colorido à vitrine, e trata-se de algo que ninguém jamais teria afirmado há 30 anos”, disse.

No bairro de La Corea, de maioria negra, nos arrabaldes de Havana, as pessoas em geral têm preocupações mais prementes do que o equilíbrio racial das autoridades. As casas são feitas de chapas de metal ondulado ou de blocos de concreto em estado bruto.

Os moradores se mostram de certo modo divididos quanto ao significado de uma nova composição racial do governo. Manuel Garro Gómez, 65, aparentemente concorda com a linha oficial a este respeito. “Cuba diz que não há discriminação, e isso é, em grade parte, verdade”, comentou.

Yasmani Santo, 30, informada a respeito da mudança, achou a medida decente. “Isso reflete um pouco mais a população, e eu aprovo”, acrescentou. “Mas não tenho a certeza de que vá mudar alguma coisa”.