Dona Jacira e Maria Vilani, muito mais que mães de Emicida e Criolo

Elas contam suas trajetórias na política e nas artes e falam da responsabilidade sobre a produção artística dos filhos rappers

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Quando Dona Jacira (esq.) e Vilani se encontram os filhos são Leandro e Kleber, nada de nomes artísticos. Foto: Victória Damasceno

Ao buscar os nomes da artista plástica Jacira Roque dos Santos e da escritora Maria Vilani Gomes no Google, se descobre o que não deveria surpreender: suas ocupações foram resumidas a ser mãe.  Mas não de nomes quaisquer. Enquanto Dona Jacira carrega o rapper Emicida como filho, Vilani traz o que chama de “responsabilidade” em ter Criolo como sua cria.

Conhecidas pelos fãs de seus filhos artistas, foi a trajetória na política e nos movimentos sociais que deu à luz a dois dos rappers mais ouvidos do Brasil, que ao contrário do que muitos pensam, não vieram do nada, mas do ventre da militância de suas mães.

É por ocupar este cargo, porém, que são lembradas nas composições dos filhos. Tanto Criolo como Emicida seguem o costume quase tradicional do rap brasileiro de prestar homenagens aquelas que os criaram em meio às dificuldades impostas às periferias.

Do Grajaú, extremo sul do São Paulo, Criolo compõe 4 da Manhã, horário que acordou para buscar a senha do atendimento médico da mãe em um hospital público no centro da cidade. Do outro lado, no Jardim Cachoeira na zona norte da cidade, Emicida escreve Mãe, música dedicada a memória e história de Dona Jacira.

A artista plástica participa da composição. “Me sentia como a terra: sagrada”. Assim define o que lhe causou o nascimento do terceiro filho homem. Nos versos, fala de uma freira que ao tentar segurar os pezinhos da criança, já lhe dava a sentença: é danado. Sentença dada também à Jacira, em sua infância, no tempo passado em um convento.

“Eu entrei lá falando e andando, e saí de lá sem falar e sem andar”. Assim retrata os abusos sofridos dentro do convento em que ela e a irmã mais velha viveram. O trauma não lhe permite lembrar com precisão o tempo por lá, mas estima que seja entre seis meses e ano. A marca, no entanto, é tão profunda que foi escolhida como tema do videoclipe da música.

Apesar das três milhões de visualizações, o combinado com o filho é de que a partir dali não fariam mais nenhum vídeo sobre sua vida. “Nós contamos a história da freira que me maltratou e ninguém diz uma vírgula sobre isso, pelo contrário, me dão parabéns. É ridículo”.

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‘É horrível quando me chamam de mãe do Emicida’, diz a artista plástica Jacira Roque dos Santos
‘É horrível quando me chamam de mãe do Emicida’, diz a artista plástica Jacira Roque dos Santos

Depois do convento, saiu de casa para não sofrer mais abusos da mãe. Para se alimentar, a saída era comer os despachos para os orixás e para Irê fixados no cruzamento da avenida Paulista. O que tempos depois ganhou sentido espiritual, na época significava sobrevivência. “Nós éramos crianças ainda”, brinca.

No ano seguinte veio a morte do irmão que lhe proporcionou “um abalo na vida”. O afogamento do ente querido disse a ela que a vida ainda podia ficar pior do que já era.

De volta à casa da família, sentiu que as paredes lhe expulsavam. A violência doméstica sofrida foi ao encontro do mesmo drama vivido por Miguel de Oliveira, com quem se casou aos 13 anos e gerou entre seus cinco filhos Leandro, conhecido hoje como Emicida.

Entrou para política um ano depois, quando um grupo de advogados do Partido dos Trabalhadores (PT) começou a lhe explicar sobre a reforma agrária. Ainda morando nos fundos da casa da sogra, buscava entender porque os ricos de sua rua eram proprietários de quilômetros de plantações, enquanto sua família não conseguia nem ao menos pagar um aluguel.

Moradora da Zona Norte da cidade de São Paulo há cerca de 50 anos, de lá não cogita sair. No bairro Cachoeira encontrou sua morada definitiva e vive há 20 anos na casa própria. “Lá eu conheço tudo. Conheço todas as ruas, conheço as árvores, as pessoas e as crianças”. Hoje, faz em casa o cultivo de plantas orgânicas, uma alternativa que encontrou para combater o agronegócio. “Qual a consequência desse mundo que só planta arroz, soja e milho pra fazer combustível?”, questiona.

Em época de colheita e semeadura, promove rodas de conversa em sua casa para os moradores da região e amigos próximos. Os debates se misturam com a leitura de poemas, histórias e composições, além de todos provarem o que a terra produziu debaixo do teto de Dona Jacira.

Embora queiram esconder sua história atrás do sucesso do filho, seu bairro é o lugar onde seu nome é guardado. Fora dele se sente desrespeitada. “Se estou passeando com meus filhos, colocam a mão em mim como se eu fosse uma água benta, de forma ao gesto ser bem visualizado por eles. No dia seguinte passam reto. Eu continuo sendo mãe, se precisar dar bronca, vai ter bronca”.

Nos encontros com Maria Vilani, chamam os filhos pelo nome. “Pra ela não é Criolo, é Kleber. E pra mim é Leandro. É interessante darmos nomes aos nossos filhos”. Completa dizendo ser “horrível” quando a chamam de “mãe do Emicida”. “Isso não acontece no meu bairro, acontece com um público que não me aceita, um público branco. Sou resumida a ser mãe de filho famoso”.

Para Vilani, ser mãe de Criolo intensificou a perda da sua identidade, mas o processo começou ainda quando seus filhos estavam na pré-escola, quando já era reduzida a mãe do Kleber. “Eu chegava para buscá-lo na escola e não sabiam meu nome. E se os filhos alcançam algum espaço de notoriedade a gente, que já era mãe, se torna só mãe mesmo”.

Aos 68 anos, tem cinco livros e seis coletâneas publicadas. Três deles carregam o selo Capsianos, em menção ao Centro de Arte e Promoção Social (CAPS), fundado por ela na cozinha de sua casa há quase três décadas.

O local tem atividades diárias, com um cronograma que vai desde rodas de poesia e música, até pesquisas acadêmicas e produções literárias. Dos espaços que frequenta no bairro, diz que seu amor é maior pelo Caps do que pela própria casa. O tempo morando no Grajaú é a idade da filha mulher. São 37 anos sem sequer sair da mesma casa.

Depois de vir de Fortaleza, no Ceará, ao lado do marido Cleon, logo no início dos anos 1970, passou pela zona leste da cidade, no bairro de Artur Alvim, antes de pousar onde vive hoje e considera que teve “uma boa acolhida”.

Apesar do sucesso do filho, não quer sair do bairro. Considera ingrato aquele que deixa o lugar onde cresceu por ter melhorado suas condições de vida. Aos filhos, o ensinamento era fortalecer o comércio do bairro para melhorar as condições de vida de quem não saia de lá nem ao menos para trabalhar.

Com os filhos crescidos, o conselho ficou para os alunos. “Digo pra eles que se terminaram a escola devem fazer faculdade, mas permanecer aqui. Do contrário ficamos com aquele espírito colonialista, que ao melhorar de vida vai junto com o estrangeiro para fora”, explica.

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A escritora Maria Vilani tem cinco livros e seis coletâneas publicadas
Mesmo lecionando, não se alfabetizou no período escolar. No nordeste do País não teve acesso à educação. Somente quando Criolo era adolescente, já no extremo sul de São Paulo, pode concluir a escola. Durante três ano dividiram a mesma sala de aula. Lá o filho era tratado como colega de classe.

Levando os filhos para a escola, encontrou no caminho Adélia Pratz. A amiga convidou um evento que seria realizado na Associação de Mulheres do Grajaú, local que frequenta até hoje.

Lá se tornou feminista. Lamenta o fato de que as mulheres da região, principalmente as mais velhas, não pensarem sobre seus direitos. “Existem mulheres militando do bairro”, o que não considera suficiente para combater o machismo inerente à sociedade, “mas que já é alguma coisa”.

Nas atividades políticas que realizava no bairro, percebeu que seus filhos não podiam participar, mas a acompanhavam pois não tinha quem os cuidasse durante os encontros. Daí, veio a decisão de escrever uma peça de teatro para que pudessem participar ensaiando algo que além de artístico seria formativo.

“Eu refleti que estava judiando dos meus filhos. Eles iam comigo para os movimentos e eles só assistiam, eles não participavam”, conta. Depois, a peça O Reino de Roselândia se tornou um conto de fadas, e uma de suas obras prediletas.

Patrona da cadeira 66 da Academia Brasileira de Letras dos Professores da Cidade de São Paulo, ganhou seu primeiro prêmio em 1989, uma medalha de bronze no Salão de Artes de Machu Picchu, no Peru. Na época Criolo tinha apenas 14 anos, e enquanto mal podia imaginar o sucesso que faria duas décadas depois, sua mãe

Carrega no currículo diversas menções honrosas, e dentre elas, lembra com cuidado da homenagem recebida durante a entrega do prêmio Troféu Bodega do Brasil. “Estava no centro das atenções, sendo homenageada pela minha trajetória literária, e um homem gritou que amava meu filho, que o achava maravilhoso. É isso, nem mesmo nessas situações eu tenho identidade”, conta sorrindo ao lembrar do episódio.