Maternidade impulsiona mulheres a empreender

Mudança de carreira vem, em geral, acompanhada do desejo de um trabalho mais flexível, satisfatório ou com melhor remuneração

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Luciana Bento com Aisha e Naíma. FOTO DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

De uma ideia, necessidade ou vontade, nasce uma mãe empreendedora. A mudança geralmente vem acompanhada da busca por um trabalho mais flexível, satisfatório ou com melhor retorno financeiro. Os resultados são diversos: desde uma marca de sucos naturais para crianças até uma livraria especializada em autores negros.

A reviravolta da arquiteta Letícia Santos, de 36 anos, por exemplo, ocorreu em 2016, quando sua filha, Helena, tinha acabado de completar 1 ano e começava a perambular pela casa – e a causar preocupação. “Fui comprando os móveis dela, fazendo testes, mas não gostava de nada, acabava mandando para o marceneiro”, conta.

Em meio às adaptações, utilizou sua experiência com mobiliário de hospitais, área em que atuou até se tornar mãe, para criar um móvel seguro e que se transformasse para acompanhar o crescimento de um bebê até os 7 anos.

Foi assim que surgiu a Cactus Remonta, que produz kits de peças em madeira que podem se transformar em dez móveis diferentes. “Um berço, um cadeirão, dura muito pouco, apenas alguns meses”, aponta.

Já a Criando Gente nasceu no mesmo dia que Bruno, de 11 anos, primogênito de sua fundadora Flávia Mesquita, de 47. “Cheguei da maternidade e não tinha roupa para usar. O meu corpo não era o de antes, nem como o da gestação”, recorda ela, formada em Moda.

Poucos dias depois, Flávia já desenhava os primeiros quatro modelos de blusas da marca. “Não achava nada de diferente por aqui, além da camisola de botão. Inventei tudo da minha cabeça, com base em estudos sobre necessidades da mulher puérpera (que acabou de ter filho).”

Mãe também de Tomás, de 7 anos, a empresária trabalha em casa, onde instalou o ateliê e o estúdio fotográfico da marca. “Não tem nada de fácil, quantas vezes digitei com o Bruno no meu colo”, diz. Por isso, acredita em um lema: “a gente é maior do que imagina”.

Também com dois filhos, Roseli Sato, de 41 anos, deixou um emprego na área corporativa para ficar mais próxima da recém-nascida Carolina, hoje com 9 anos. Paralelamente, abriu um salão de beleza, que “deu mais dor de cabeça do que lucro” e foi vendido em poucos meses.

Uma nova ideia veio tempos depois, quando preparava a festa de 2 anos da filha. “Fazendo as coisas veio essa motivação que nunca tinha sentido”, recorda. Decidiu então esperar seu caçula (Pedro, hoje com 7 anos) crescer um pouquinho e abriu, em 2012, a Pra Gente Miúda, empresa de organização de festas infantis. “Sempre foi um sonho trabalhar em algo que me desse prazer.”

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Daniela Foltran, de 35 anos, com as filhas Catarina, de 6, e as gêmeas Emilia (à esq) e Gabriela (à dir), de 4. Foto: Helvio Romero / Estadão

Ano sabático. A mudança de Isabela Gerardi, de 39 anos, por sua vez, veio por não ter conseguido voltar ao mercado de trabalho após um ano sabático dedicado a Manuela, hoje com 2 anos. “Nas entrevistas, perguntavam coisas da minha filha, se estudava em tempo integral, sobre quem cuidaria se ficasse doente. Queriam saber mais dela do que da minha experiência”, conta a ex-contadora financeira.

Por ter tido um parto domiciliar, Isabela já dava dicas sobre maternidade para amigas. Por isso, ouviu a sugestão do marido de que poderia se tornar doula. “Sou apaixonada pelo que faço. O lado negativo é que não tem fim de semana, feriado (por causa dos partos), mas me dá outra flexibilidade, consigo estar mais próxima da minha filha.”

No caso da cientista social Luciana Bento, de 33 anos, a primeira mudança veio já com o desejo de ter um filho. Após um aborto espontâneo, descobriu um problema de saúde que implicaria em possíveis gestações de risco e, se desejasse engravidar, o recomendado seria não esperar demais. “Queria muito ser mãe. Então mudei os meus planos de fazer mestrado, pensar em carreira acadêmica.”

Por isso, decidiu ir atrás de um trabalho que lhe desse o suporte necessário. Em 2009, dois anos após concluir a faculdade, passou em um concurso público e se mudou para São Paulo, onde teve Aisha, de 5 anos, e Naíma, de 4. E veio a segunda mudança: Luciana tinha dificuldade para encontrar livros de autores ou com personagens negros para suas filhas. A solução? Criar a InaLivros, livraria virtual, aberta em 2014 com o marido, Léo Bento. “Faltava essa referência para as meninas, e hoje todo mundo participa. Elas vão às feiras com a gente, contam histórias, ajudam a embrulhar”, diz.

Ser mãe também foi um grande sonho de Daniela Foltran, de 35 anos, mas daqueles difíceis de serem realizados. Por ter perdido um ovário na adolescência, optou por uma profissão que colaborasse na gestação de outras mães, tornando-se embriologista.

Depois de anos trabalhando com fertilização in vitro, Daniela decidiu também se submeter ao método. O resultado foi Catarina, de 6 anos. Logo depois, veio a surpresa: engravidou de forma natural de Emília e Gabriela, de 4 anos. Com as três ainda bebês, desenvolveu síndrome burnout, resultado do esgotamento físico e mental, licenciando-se do trabalho.

Daniela encontrou refúgio na costura, aprendida na infância com a avó, modelista. “Foi uma terapia, uma maneira de focar no presente”, conta. No início, fez peças para as filhas, mas, certa de que não queria voltar para o laboratório, criou a Aurora, Senhora!, marca de babadores de manga longa e aventais. “É uma forma de disseminar um pouco do que acredito, da infância com autonomia, de permitir que a criança se alimente, toque, sinta a textura.”

A saúde da família também foi o ponto de virada de Mara Braga, de 33 anos. Por Levi, de 5 anos, ter nascido com alergia à proteína do leite, ela trocou toda a alimentação da família por opções naturais. Nesse meio tempo, descobriu o âmbar, tipo de resina fóssil que afirma ter lhe auxiliado no tratamento de problemas de saúde. Maquiadora em um canal de TV, percebeu que havia mercado para acessórios feitos do material. “Só achei para comprar no exterior. Queria colaborar com isso, que mais pessoas conhecessem.” Deu tão certo que, em três anos, o volume de vendas da Lithu Âmbar quintuplicou e a variedade de peças (antes só adulto e infantil) ganhou versões para pets.

‘Inspiração e cobaia’. “É mais do que a minha obrigação entender os problemas das mães que trabalham comigo.” A frase da empresária Camila de Carvalho, de 34 anos, revela seu pensamento ao estruturar a Vita & Succhi, empresa de sucos saudáveis para crianças. Para tanto, ela quis priorizar um ambiente acolhedor para mulheres com filhos, com flexibilidade de horário e espaço kids.

Ex-comissária de bordo, ela teve a ideia da empresa porque o filho Enrico, de 3 anos, não aceitava água e era difícil encontrar bons sucos. “Ele foi minha inspiração e também minha cobaia.”

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Leonora Lira, de 42 anos, virou ‘mãetorista’. Foto: Gabriela Biló / Estadão

Nessa jornada, procurou outras mães que passavam pela mesma experiência em grupos nas redes sociais e também em encontros presenciais. “A gente se ajuda, troca dicas, faz parcerias, dá apoio”, diz.

Um dos maiores grupos é a Rede Mulheres Empreendedoras (RME), que fez uma pesquisa em 2016 com 1.376 mulheres que empreendiam (80%) ou pretendiam empreender (20%). Entre os motivos para empreender estão trabalhar com o que gosta/realizar sonho (66%), flexibilidade (52%), mais tempo para a família (30%) e trabalhar em casa (24%). A rede tem 500 mil mulheres cadastradas, das quais cerca de 60% são mães. “Não começou como negócio, mas sim com a minha dificuldade (de encontrar empreendedoras)”, conta a fundadora do RME, Ana Fontes, mãe de Daniela, de 15 anos, e Évelin, de 10. Hoje, a Rede realiza 60 eventos anuais para formação, mentoria e networking. “Empreender às vezes é solitário, cobram da gente tudo. É positivo ter essa troca, essa relação de conhecer outras mulheres.”

Com premissa semelhante, Andressa Bristotti, de 35 anos, criou em 2015 o grupo Pita.Cos, que já reuniu mais de 50 empreendedoras em encontros quinzenais. “Participava de grupos de internet, mas sentia falta de uma coisa mais próxima”, aponta ela, que abriu a loja Avambu Desfralde e é mãe de Manuela, de 4 anos, e Eduardo, de 1. A ideia do Pita.Cos é realmente dar “pitacos” nas ideias das demais, mas dentro de uma perspectiva de quem passa por experiências semelhantes. “Olham para você como se não estivesse trabalhando, como se fosse um hobby, um passatempo”, diz, sobre preconceitos.

Os encontros são gratuitos e agora darão origem a mentorias a distância, pagas. Dentre as frequentadoras está Daniela Rotbande, de 39 anos, mãe de Laura, de 8, e Nina, de 3, sócia da marca Meu Nani, de almofadas multifuncionais de amamentação, ao lado de uma amiga, também mãe. “Não sou de São Paulo (é do Rio), foi ótimo para fazer contatos.” Segundo ela, a maternidade mudou a sua forma de consumir “drasticamente”, voltando-se para mães empreendedoras como ela. “Priorizo comprar do pequeno, acho isso mais importante que o preço.”

‘Mãetorista’. Nessa perspectiva, a ex-secretária executiva Leonora Lira, de 42 anos, criou a rede de “mãetoristas” Gokids em 2015, que hoje reúne cerca de 25 mulheres em grupo de WhatsApp e tem ambições de se tornar um aplicativo de transporte individual de crianças. Todas as integrantes são registradas como motoristas e também trabalham com aplicativos, como Uber e Cabify.

Segundo Leonora, as motoristas passam por entrevistas com as famílias que atenderão e são responsáveis pelas cadeirinhas e dispositivos de proteção. “Tem uma questão de confiabilidade por serem mulheres que também são mães”, explica ela, que é mãe de Guilherme, de 20 anos, e Leonardo, de 8.

Para a diretora do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Heloisa Menezes, o empreendedorismo materno ganha uma nova configuração com mais mulheres encontrando nichos na maternidade. “Tem muita gente procurando um negócio que tenha um propósito, e a internet facilitou isso. A mãe não precisa mais sair de casa para ter oportunidade de empreender.”