Elza Soares ilumina sonoridade de ‘A Mulher do Fim do Mundo’ em novo disco

'Deus É Mulher' tem quatro shows de estreia em São Paulo marcados para os dias 31 de maio, 1º, 2 e 3 de junho, no Sesc Vila Mariana

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Cantora Elza Soares Foto: Daryan Dornelles

Prestes a deixar a turnê de A Mulher do Fim do Mundo, criada a partir do disco homônimo lançado em 2015 e responsável por colocá-la, definitiva e tardiamente, como uma das principais vozes do País, Elza Soares despediu-se do álbum. Conta ela, ao telefone, recém-chegada a São Paulo, que conversou com o trabalho, como se fosse uma entidade com vida própria. “Pedi permissão a ele”, explica a cantora de 87 anos. “Foi algo muito importante na minha vida, então, precisava fazer isso. Agradeci, disse que ele havia sido incrível. Falei que iria encostá-lo ali um pouquinho. Foi bonito.”

O álbum, vencedor do Grammy Latino de melhor disco de MPB em 2016, foi o primeiro trabalho de Elza Soares com músicas inéditas. “Foi um presente”, ela lembra, ao ser apresentada ao material reunido pelo produtor Guilherme Kastrup, parceiro mantido por perto nesse novo momento.

Elza, agora, segue em frente. Caminha em direção à luz, depois de um álbum denso, de introspecção e um discurso bastante assertivo. No início deste mês, ela lançou Deus É Mulher, novamente com músicas inéditas. Na escolha estética do álbum, Elza explica que buscou por mais claridade. O álbum terá seus shows de estreia realizados a partir desta quinta-feira, 31, no teatro do Sesc Vila Mariana. A minitemporada segue todos os dias até domingo, 3. Todos os ingressos, aproximadamente 2.480, esgotaram rapidamente – uma dica de amigo: por vezes, é possível encontrar algum desistente momentos antes da apresentação.

O sucessor de A Mulher do Fim do Mundo também marca a chegada de Elza ao elenco de artistas da gravadora Deck e foi a partir do convite deles que Elza passou a matutar sobre qual seria o próximo passo após o tal “apocalipse” retratado no disco. Procurou por Kastrup e passaram a trabalhar, novamente, com o que foi chamado de “núcleo criativo” de A Mulher…, formado por jovens atuantes e bastante prolíferos da cena de música paulistana, Marcelo CabralKiko DinucciRodrigo Campos e Romulo Fróes.

No início deste ano, em janeiro, em contato com a reportagem, Kastrup explicava que o repertório inicial de 60 canções já havia sido cortado para 20 e, depois, para as 11 definitivas. Na época, eles trabalhavam no que chamavam de cobertura das músicas em São Paulo, no Red Bull Studios, localizado no centro da cidade, e, por fim, em fevereiro, seria a vez de Elza gravar as vozes finais no Estúdio Tambor, no Rio de Janeiro. A mixagem ficou por conta do norte-americano Scotty Hard, que recentemente trabalhou com Tulipa Ruiz no disco mais recente dela, o Tu (2017), e a masterização é assinada por Felipe Tichauer, o mesmo de A Mulher…, em Miami.

Kastrup dizia, ali no início do ano, que Deus É Mulher seria um passo adiante na estética libertária, perturbadora e impiedosa do álbum anterior. Nele, a voz de Elza se esparramava áspera, como uma faca propositalmente mal afiada para rasgar em vez de cortar. Encontrava as feridas de uma sociedade tão frágil e defeituosa. Falava, ali, de violência doméstica ao racismo. A história de Elza, ao longo dos seus 87, é de tombos e reerguimentos.

Com A Mulher…, ela diz, encontrou seu propósito musical. “Foi quando percebi o que eu deveria fazer. Entendi que esse seria o caminho”, explica. “Mudou tudo. Encontrei uma brecha para dizer aquilo que eu sentia. Coisas que vinham desde a minha infância. Era uma menina pobre e negra. Foi muito difícil chegar até aqui. Mas Deus estava sempre presente na minha vida. E está até hoje. Quando veio A Mulher do Fim do Mundo, eu entendi como se Ele dissesse: ‘É por aqui’.”

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Cantora Elza Soares Foto: Daryan Dornelles

Elza segue: “Então (para ‘Deus É Mulher’), busquei um trabalho que acessasse cada um. Que fosse sobre mulheres, sobre negros, sobre o mundo gay. São os temas que precisam ser falados. Não queria perder qualquer um desses discursos. Meu medo, na verdade, de deixar algo escapar. Mas acho que demos sorte de seguir com essas mesmas palavras”.

Deus É Mulher segue com um discurso semelhante ao antecessor, justamente por isso. Novamente, Elza e Kastrup reúnem um time de compositores de peso para esse trabalho. A começar pelo paulistano Douglas Germano, que assinou Maria da Vila Matilde (Porque Se a da Penha é Brava, Imagine a da Vila Matilde), a premiada faixa de A Mulher… No novo trabalho, tem O Que Se Cala e Credo.

A primeira delas, escolhida para abrir o disco, tem no seu discurso, a força dessa Elza Soares reerguida, forte, incisiva. Diz o refrão, que soa como uma espécie de retrato da artista: “Mil nações moldaram minha cara Minha voz uso pra dizer o que se cala / Ser feliz no vão, no triz, é força que me embala / O meu país é meu lugar de fala”. Enquanto Elza canta, as guitarras de Dinucci e Campos, principalmente, fazem a ponte estética entre A Mulher do Fim do Mundo e Deus É Mulher, dançando nervosas, enquanto abrem caminho para a chegada das percussões do grupo Os Capoeiras e do quarteto de sopros integrante do Bixiga 70.

Com isso, a transição, de um álbum para o outro, é leve. É uma sensação diferente daquela sentida ao dar o play em A Mulher do Fim do Mundo pela primeira vez. A primeira música do disco, Coração do Mar, um poema de Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik, era uma pancada só com a voz da Elza. Em um exercício de entendimento, ao se ouvir os dois álbuns em sequência, A Mulher… soa como estar, à noite, diante de uma janela, a testemunhar o mundo em ruínas e caos. Já a chegada de Deus É Mulher é o sol nascente, a iluminar o que restou, ruínas ou não. Como o nascer de um dia claro, o álbum sugere o renascimento a partir dessa figura divina e feminina.

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Elza Soares, em retrato feito no início de 2018  Foto: Fábio Motta / Estadão

“O mundo está precisando de colo de mãe”, explica Elza. “É muito egoísmo… Aqui eu quero falar de amor, de sexo.” Alinhada a isso, a artista segue com suas lutas em forma de canções. Fala sobre sexo e tesão sem medo (como em Eu Quero Comer Você), debate a ancestralidade (Exu nas Escolas). “Mas queria também ter mais mulheres neste disco”, ela explica. O time inclui composições de Alice Coutinho (que teve duas músicas dela, em parceria com Fróes selecionadas), Tulipa Ruiz (a faixa Banho) e Mariá Portugal (Um Olho Aberto). Ao final da entrevista, Elza faz uma despedida carinhosa, mas que também poderia ser confundida como a síntese do seu novo trabalho. “Muito obrigada. Muito respeito. Deus é mais. Deus é mulher. Um beijão.”

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Encontro de gerações costuma ser proveitoso

O produtor e músico Guilherme Kastrup trabalhava no disco de Cacá Machado, Eslavosamba, lançado em 2013. Convocaram Elza Soares para gravar as vozes da música Sim. Ao lado de Kastrup, na época, estavam também Rodrigo Campos e Kiko Dinucci. Foi o começo de tudo. Depois, Elza “pirou”, como conta o produtor, quando ouviu os arranjos criados por eles para a clássica do repertório dela Volta por Cima. “Despertou uma vontade de mais ter mais desses encontros”, diz Kastrup. Era iniciado o processo que culminou em A Mulher do Fim do Mundo, disco de Elza Soares premiadíssimo, lançado em 2015.

A estética vanguardista do núcleo criativo do disco, que contava ainda com Romulo FróesMarcelo Cabral, partia de um conceito de samba torto, já conhecido por eles, que acabou por se encaixar na voz da cantora carioca.

Expandiu a sonoridade dela, já consagrada, o que já foi visto na música brasileira recente. O que dizer de Caetano Veloso que, ao lado da jovem Banda Cê, criou uma trilogia de discos aclamada (Cê, Zii e Zie e Abraçaço), lançados entre 2006 e 2016? Gal Costa, em Estratosférica (2015) gravou artistas novos como Mallu MagalhãesArthur Nogueira, entre outros.

Tom Zé teve, ao seu lado, bandas como O Terno Trupe Chá de BoldoErasmo Carlos, por sua vez, gravou a linda Não Existe Saudade no Cosmos, do jovem Teago Oliveira, da banda Maglore, no recente Amor É Isso.