Muito além de Racionais: qual a importância da diversidade no vestibular?

'Sobrevivendo no Inferno', que virou leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp, não é a única obra de autores negros nos processos seletivos

0
76
Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Maria Firmina dos Reis também figuram entre obras literárias indispensáveis para vestibulares do país. Foto: Divulgação

A garotada do Ensino Médio precisará entender por que os manos morrem rapidinho sem lugar de destaque. E por que à noite, enquanto dormem, esses manos decolam na farinha e na pedra. Esses e outros trechos das letras de Sobrevivendo no inferno, álbum de 1997 do grupo paulistano Racionais MCs, ganharam status de leitura indispensável na lista do vestibular 2020 da Universidade de Campinas (Unicamp).

Não é a primeira vez que uma universidade pública coloca uma obra sonora nas listas de leitura obrigatória. No vestibular de 2015, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul cobrou o álbum de estreia da Tropicália – o Tropical ou panis et circensis, de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes, lançado em 1968. Mas é a primeira que um álbum de rap ganha, oficialmente, o status de literatura obrigatória.

Com a inclusão, as aulas de Literatura vão pular de Camões para Mano Brown – duas obras de poesia listada pela Unicamp. E precisarão discutir com os alunos outras realidades não vividas pela maioria dos universitários brasileiros – 60% dos universitários são brancos, segundo pesquisa do Inep divulgada no ano passado; e quase 40% dos estudantes de universidade públicos eram brancos e ricos em 2014, de acordo com pesquisa do IBGE: o cotidiano nas periferias e do racismo enfrentado pelos negros no Brasil.

“Um estudante de 15, 16 anos precisará discutir com respeito e técnica a obra desses caras. Terão de analisar a letra de Capítulo 4, versículo 3”, explica Mário Medeiros, pesquisador e professor de sociologia da Unicamp. “Tem um peso muito importante isso. É um grupo de músicos negros, autoidentificados como negros e periféricos, que bate pesado nas teclas de preconceito, racismo, violência, pobreza, o mundo cão da vida negra no Brasil”, completa.

E não será o primeiro texto a abrir essas reflexões dentro das escolas. No ano passado, a Unicamp e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) incluíram também a obra Quarto de despejo – diário de uma favelada, publicada em 1960, por Carolina Maria de Jesus – e a mantiveram para as provas desse ano.

A autora narra, em primeira pessoa, suas experiências como mulher negra periférica, catadora de materiais recicláveis e mãe solteira de três filhos. E, como nas letras de Mano Brown, traz à tona as desigualdades do Brasil.

“Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar”, escreve Carolina em um dos trechos de seu diário.

Ainda que tenha liderado o ranking de livros mais vendidos em 1960 e que tenha exportado sua obra para 20 países, Carolina não escapou de um fim triste. Viveu alguns anos de celebridade e conseguiu escapar da miséria. Mas não por muito tempo: voltou a catar resíduos até morrer, em 1977, por conta de uma crise de asma.

 

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) seguiu o mesmo caminho e adicionou a obra de Carolina em sua lista de leitura. Antes dela, nos dois anos anteriores, a periferia teve vez com a obra Olhos D’Água, de Conceição Evaristo. Outra autora negra que narra, em contos, a vida miserável nas favelas brasileiras.

A lista não acaba por aí. A UFRGS também incluiu Úrsula, de Maria Firmina dos Reis. Foi o primeiro livro publicado no Brasil sobre escravidão sob o ponto de vista de escravos – dois jovens apaixonados, obrigados a vir para o Brasil e viver sob as ordens de seus senhores. Também foi a primeira vez quem uma mulher negra conseguiu publicar sua obra no País.

“É uma iniciativa importante para quebrarmos o cânone, que era bastante hegemônico em termos de pensamento. Acrescentar Racionais e outras, como Conceição e Carolina, é antes de tudo, atender à demanda de uma nova classe discente, que pode entrar na universidade através das cotas e que possui outros referenciais”, defende Ana Maria Gonçalves, autora do livro Um defeito de cor, que se apoia na busca de Luísa Mahin (personagem real), mãe do abolicionista Luiz Gama, por seu filho, vendido como escravo no Brasil, para falar sobre as privações de direitos aos negros após a Abolição. “Para os não negros, alunos e professores, uma oportunidade de revisar suas referências e se abrir para linguagens e experiências que não são as suas”, completa.

Espelho

Nem tudo se trata apenas sobre estimular adolescentes a discutir questões raciais e sociais em um país que ainda insiste em dizer que por aqui não há racismo – o país da democracia racial, como dizia o sociólogo Gilberto Freyre. Jovens negros também ganham representatividade ao verem sua realidade e personagens com as mesmas características físicas em destaque.

“Sem dúvida será um estímulo para o surgimento de novos autores. É importante para todo mundo que haja diversidade na representação dos autores, não só homens brancos. O mundo é mais complexo que isso”, conta Medeiros.

Tanto destaque (e luta dos movimentos negros), levou Conceição Evaristo a confirmar sua candidatura a uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras. Se a conquistar, será a primeira autora negra na ABL em mais de 100 anos de história da instituição.

E é importante que surjam mesmo novos nomes – não só de negros, mas também de mulheres. Um estudo da pesquisadora Regina Dalcastagnè mostrou que 94% dos autores brasileiros publicados pelas principais editoras são brancos. A maior parte deles fala sobre seu próprio mundo: não à toa, 92% dos personagens têm a mesma cor de pele.

Quando falam sobre negros, a maioria é retratada de forma esteriotipada: em 73% dos casos eram pobres. Outros 12%, miseráveis.