Em dois filmes e uma novela, Fabrício Boliveira luta em defesa da representatividade

"Só me ofereciam o mesmo personagem, e eu comecei a recusar. Uma questão de autoestima. Sou ator, mas também sou, acima de tudo, cidadão"

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Consciente. ‘Igualdade de direitos, cidadania para todos. Estou nessa’ Foto: FABIO MOTTA/ESTADÃO

Como Santo Cristo, Fabrício Boliveira teve aquela tórrida cena de sexo com Isis Valverde em Faroeste Caboclo, que René Sampaio adaptou da música da Legião Urbana, com letra de Renato Russo. “Não tinha medo o tal João de Santo Cristo Era o que todos diziam quando ele se perdeu Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu…”

Peito nu, uma imagem de sensualidade e potência muitas vezes (quase sempre?) associada ao negro. Boliveira estourou e, desde então, passados cinco anos, ele tem fugido desse estereótipo. “Logo depois daquele papel, só me ofereciam o mesmo personagem, e eu comecei a recusar. Uma questão de autoestima. Sou ator, mas também sou, acima de tudo, cidadão, e me preocupo com a questão da representatividade. Não quero ser um clichê ambulante”, recordou ele.

Agora mesmo, Boliveira está na TV como o Roberval de Segundo Sol, a novela das 9, e em dois filmes nos cinemas. Em Tungstênio, o explosivo longa – à Guy Ritchie, o modelo é claramente Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes – que Heitor Dhalia adaptou de Marcello Quintanilha, faz Richard, o Richa, policial que reage com presteza à violência do mundo. E dê-lhe porrada. Em Além do Homem, de Willy Biondani, faz Tião, o motorista encarregado de levar Alberto/Sergio Guizé numa viagem de descoberta por meio do colorido folclore de Minas, em busca de um escritor francês que, supostamente, morreu feliz sacrificado num ritual antropofágico.

Nem tudo são rosas. “Tem uma associação de negros da Bahia que entrou no Ministério Público com representação contra a Globo por causa da novela (Segundo Sol), que se passa na Bahia, e não tem tantos negros no elenco.

Essa questão da representatividade se tornou muito importante no Brasil atual.” Roberval que o diga. “Acho que o autor (João Emanuel Carneiro, coautor do roteiro de ‘Central do Brasil’, de Walter Salles, e autor do megassucesso global ‘Avenida Brasil’) foi muito feliz ao retratar esse personagem de negro que expressa nossas contradições. Aliás, toda a novela é um espelho das tensões sociais que ameaçam explodir nesse Brasil de desigualdades.”

Casa grande e senzala. “Roberval é filho do patrão branco, e os estupros de mulheres, e de mulheres negras mais ainda, é uma triste prática que permanece no País. O das negras vem da escravidão, em que o senhor podia tudo. Roberval revolta-se ao descobrir que viveu servindo o pai, o irmão. Viaja às origens, à África, e volta rico.” Volta para se vingar? “Não diria que a palavra é exatamente essa. Vingança é coisa de folhetim, e ele volta com sede de justiça e consciência de quem é, dos seus direitos. O problema é a revolta acumulada que vira obsessão, e essa sim pode se tornar justiça cega. É um personagem que me desafia. Está no fio da navalha da maldade.”

Se Roberval é macho, Tião é mais ambíguo. Durante a viagem de carro por estradas poeirentas e quebradas isoladas, parece que está querendo seduzir Alberto. “Acho que o filme de Willy (Biondani) é bem ambicioso na tentativa de reproduzir nossos choques culturais. Tião é o colonizado e Alberto, com seu jeito afrancesado, faz as vezes do colonizador. O fato de Tião querer Alberto, ou dar essa impressão, é metafórico. Remete à mítica Semana de 22 e ao nosso antropofagismo cultural.” E Richard? “Richa é produto desse caldeirão baiano de etnias e desigualdades sociais. Se afirma pela violência, num mundo que é violento. Dá porrada em quem se coloca no seu caminho. E, nessa brutalidade toda, perde a ternura. Até com a mulher sua relação é de mando. Ele mete porrada nela, que reage, e isso expõe a fragilidade que o Richa tem e vai compensar batendo ainda mais nos outros. Richa me parece dessas pessoas que não têm muita consciência do próprio sofrimento.”

Genisson Fabrício Boliveira Pereira, ou simplesmente Fabrício Boliveira, é baiano de Salvador, nascido em 1982. Em 2005, com 23 anos, juntou-se à fina flor do elenco da Bahia – Wagner Moura, Lázaro Ramos, Vladimir Brichta – em A Máquina, o belo filme, adiante de sua época, que João Falcão adaptou de Adriana Falcão. Sua participação era pequena, mas muito expressiva. Valdene, sentado numa pedra, via o tempo passar. “E o tempo era esculpido vertiginosamente na minha cara, no meu cabelo, uma coisa muito criativa e inteligente do João.” Na trama, depois, o velho Valdene é interpretado por Val Perré.

No mesmo ano, estreou na TV num episódio de Cidade dos Homens, spin off do cultuado Cidade de Deus. Com a projeção – e o dinheiro – que ganhou no cinema e na televisão, há anos tenta construir uma casa em Salvador. Enquanto a casa não fica pronta, ele mora em hotéis, flats. E viaja. Passou uma temporada em Nova York, que ampliou seus horizontes. “Acho que a gente está vivendo num mundo muito competitivo e individualista, em que o outro deixou de ser o amigo para ser concorrente. Nova York é aquela efervescência de culturas, etnias. Aquilo tem algo de baiano na miscigenação, cara. Cabe todo mundo. Esse é o mundo pelo qual vale a pena lutar. Igualdade de direitos, cidadania para todos. Estou nessa.”