Valeu Presidente, se cuida Joaquim Barbosa

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Os indicadores do abandono das escolas pelos jovens do ensino médio dão a dimensão da indigência da capacidade de entrega das políticas públicas para a juventude no nosso país. De cada 100 jovens, apenas metade terminam o ensino médio, sendo os negros 65% desse universo.

Não bastasse esse grau de indigência, temos ainda pela frente a crueldade da letalidade da violência social, criminal e policial sobre nossos zumbis. Somos a sociedade e o país que mais matam jovens no planeta. Nem todos os conflitos armados e ações terroristas da atualidade conseguem superar os números brasileiros de 60.000 vítimas por ano, entre eles, a grande maioria de jovens entre 17 e 30 anos. Para cada jovem branco são assassinados três jovens negros. Nem esquerda nem direita, nem governo, nem corporação, ninguém tem tempo ou interesse para tratar desse verdadeiro genocídio a céu aberto, que dizima implacavelmente, nossos jovens, futuro da nação.

Além do lixo tóxico da escravidão, do racismo e da discriminação que aparta e diferencia o tratamento das pessoas pelo quesito raça, cor, os motivos do abandono têm como pressuposto, a necessidade de trabalhar muito cedo para ajudar a família ou mesmo sobreviver. São 34% de jovens brancos até 14 anos que estão fora da escola para trabalhar contra 64% de jovens negros.

Junta-se o desânimo, a descrença da possibilidade de sucesso no mercado de trabalho, por conta principalmente, do racismo institucional que desvaloriza a estética da diversidade e que determina escancaradamente a não presença, a invisibilidade e o não pertencimento. É bom lembrar que no país de 54% de negros, ninguém nunca viu um presidente ou importantes executivos negros nas maiores e melhores empresas para se trabalhar que dizem respeitar a diversidade, imaginem nas demais.

Sem motivação para permanecer na escola, sem o treinamento, o relacionamento e a preparação para concorrer em igualdade de condições; sem política pública que estimule a igualdade de oportunidades, qual poderia ser o destino desses jovens senão engrossar as fileiras da marginalidade social e criminal e desencantarem-se definitivamente com a política e com a sociedade?

Diante dessa cruel e intocada realidade era inexorável coragem e ousadia para ir além e criar uma ação de emergência para combater e vencer essa verdadeira batalha. Tanto quanto os tanques nos morros cariocas, para desmobilizar, combater e vencer o crime e o tráfico, era necessário estender a mão para o jovem negro, valorizando seu talento e habilidades, empoderando sua realidade e criando possibilidade de protagonismo juvenil com integração e pertencimento social, e lógico, algum dinheiro no bolso.

Assim, a cota de 30% para jovens negros nos estágios, trainnees, e aprendizado no serviço público, empresas, autarquias e fundações públicas determinada pelo Decreto assinado pelo Presidente Michel Temer, tira o Estado da omissão e indiferença, coloca-o do lado de quem mais precisa e é mais vitimado pela indiferença e irresponsabilidade social, e devolve a todos nós, sobretudo, aos jovens negros, um mínimo de esperança e crença na república, no Estado democrático de direito e, sobretudo, na justiça.

Que tenha a mesma ousadia e coragem, o ministério público, o poder judiciário, a OAB, as Forças Armadas, os poderes públicos estaduais e municipais e, principalmente, nossas empresas e corporações e companhias privadas.

Se Neymar, Gabriel Jesus, Douglas Costa, Willian, Fernandinho, Marcelo, arrasam nossos oponentes e nos enchem de orgulho quando competem igualizados pelas regras justas e um árbitro imparcial em campo, é de se imaginar o show de bola que esses novos talentos negros poderão proporcionar aos olhos da nação. Valeu Presidente. Se cuida Joaquim Barbosa, agora terá concorrência.