Rússia alterna entre racismo e curiosidade com negros no país

0
271
Quando jogava no Zenit, da Rússia, atacante Hulk ouvia insultos e cantos racistas das torcidas. Reprodução Facebook

Ninguém ocupava o banco do lado quando Sauanne Bispo, 32 anos, se sentava no metrô em Moscou, na Rússia. Uma vez, ofereceu seu assento a uma senhora. O vagão estava cheio, mas a mulher recusou. Quando outro homem fez a mesma oferta, a russa aceitou na hora.

A empresária passou dois meses por lá como voluntária da AIESEC (organização mundial de estudantes) e sentiu todo o preconceito por conta de sua negritude. “Já visitei 26 países. A Rússia é linda, mas foi o pior deles. Não era uma impressão minha. Eu tinha medo nas ruas. Chegaram a me oferecer dinheiro pensando que eu era prostituta”, afirma.

A experiência ruim motivou a baiana a abrir a Go Diaspora que oferece destinos alternativos de intercâmbio. A agência oferece opções de estudos em 44 países, entre eles, Jamaica, Trindad e Togabo, Senegal e Namíbia. “Quero que pessoas se sintam à vontade”, prega.

A Rússia é de fato um país racista. Basta ver pela orientação de Tamara Pletnyova, presidente da Comissão Parlamentar para Família, Mulheres e Crianças do Congresso russo, para que mulheres evitem relações sexuais com estrangeiros “de outras raças”. O perigo é de se tornarem mães solteiras de crianças mestiças – dois fatores que, segundo ela, as colocariam em situação vulnerável na sociedade russa.

E a sociedade russa responde da mesma forma. Uma pesquisa feita por economistas suecos perguntou aos russos – e a cidadãos de outros 79 países – se eles gostariam ter vizinhos de raças diferentes. Quase 20% deles disseram não.

Em comparação, só 5% dos canadenses, australianos, latinos, britânicos, americanos, neozelandeses disseram se incomodar com vizinhos de raças diferentes da sua. Na outra ponta, estavam Índia e Jordânia como os menos tolerantes (com mais de 40% rejeitando morar perto de pessoas de outras raças).

Justamente por isso, aeroportos em guias distribuídos em aeroportos, hotéis e pontos turísticos, a orientação é: “evitar atrair a atenção não falando alto em sua língua natal ou andando nas ruas se você bebeu [obviamente não funciona em tempos de Copa do Mundo]. Se você é africano, árabe, descendente de asiáticos ou tem a pele escura, tenha cuidado, particularmente à noite”.

Racismo no futebol

Nos jogos russos da temporada 2016/2017, houve 89 incidentes racistas e de extrema-direita, de acordo com novos dados coletados pelo SOVA Center, organização que desenvolve pesquisas sobre nacionalismo e racismo na Rússia. Em dois anos, o país acumulou 200 casos.

Times do país chegaram até a ser suspensos por conta de casos de racismo. Em 2015, o CKSA, o mais tradicional do país, teve parte do estádio fechado após os torcedores repetiram cânticos racistas contra o Anzhi, time da região do Cáucaso. Uma faixa simulava o escudo do time com os dizeres “planeta animal.”

Um dos mais famosos jogadores brasileiros a reclamar de racismo foi o atacante Hulk, que jogou durante quatro anos no Zenit, time de São Petersburgo, segunda maior cidade da Rússia. “Acontece [xingamentos racistas vindos das arquibancadas] em quase todo jogo na Rússia, mas o mundo não ouve sobre isso porque eles tentam manter em silêncio”, contou em 2015, aos repórteres após o treino. “Eu vejo acontecendo o tempo inteiro. Costumava me deixar muito bravo, mas agora eu apenas mando beijos aos torcedores e tento não me incomodar”, concluiu.

Dois anos depois, ao se transferir para o futebol chinês, o jogador declarou que não havia mais racismo na Rússia. Segundo declarações de Hulk, os torcedores deixaram de incomodá-lo, em seu último ano por lá, e, por conta da ausência de casos de racismo durante a Copa das Confederações, não acreditava que os negros teriam problemas durante a Copa do Mundo.

Ainda assim, o histórico do país fez com que o Ministério das Relações Exteriores (MRE) emitisse uma recomendação para brasileiros que vão assistir aos jogos da Copa: “viajar com grau moderado de cautela”. No tópico xenofobia e discriminação, o MRE alerta que “ataques contra minorias são uma dura realidade do país, mas raramente evoluem para violência física. Casos de skinheads e outras gangues organizadas podem ser mais graves”.

Já a Fare, agência anti-racista europeia, elaborou um guia  para os visitantes de minorias étnicas que vão para a Copa. O material lembra que “as verificações de identidade baseadas em perfil étnico pela polícia são comuns, especialmente se você parecer ser da Ásia Central ou árabe; um policial pode solicitar seus documentos de identificação e registro aleatoriamente na rua; checagens de identidade são muito comuns no metrô de Moscou e São Petersburgo para quem é de minoria étnica; você pode ser solicitado a passar por um detector de metais e ter o conteúdo de suas malas verificado”.

Negros: figuras raras


Quase sempre russos abordam Marcela Anunciação, 29 anos, para tirar fotos. ““Na semana passada estava próxima à Praça Vermelha e em cerca de 10 minutos umas cinco pessoas me pediram para tirar fotos com eles”, conta a professora de inglês e português, que mora há um ano e sete meses na Rússia. “No Brasil eu sou só mais uma mulher negra de cabelos afro e aqui eu sou ‘a’ mulher negra de cabelos afro. É bem fácil de ver o quanto as pessoas ficam surpresas e curiosas”, ressalta.

Ela não sente racismo – só curiosidade. Afinal, negros são minoria na Rússia.  Em um país com 140 milhões de habitantes, estimativas apontam que haja apenas 70 mil negros por lá.

Um levantamento do Harvard Institute for Economic Research mostra que a Rússia é um dos países menos diversos etnicamente no mundo, no mesmo grupo de países como China.  Japão e as Coreias são os mais homogêneos etnicamente, enquanto países africanos são os menos, com destaque para a Somália. Países das Américas também tendem a ser etnicamente mais diversos.

É que não houve escravidão na Rússia. Os negros chegaram só na década de 1920 quando a então União Soviética recebeu os primeiros estudantes estrangeiros, atraídos por universidades consideradas boas e baratas.

Quando Nikita Khrushchev chegou ao poder, no final dos anos 1950, ele iniciou uma política para apoiar os estados recém-independentes na África, Ásia e América Latina, oferecendo-lhes oportunidades de estudar na União Soviética. O objetivo era disseminar o socialismo no mundo em desenvolvimento e transformar pessoas que adquiriram sua educação no país em bons amigos de seu povo.

Apesar da ideologia oficial de amizade dos povos, os estudantes estrangeiros também experimentaram formas duras de racismo, sendo xingados e reprimidos.

Por conta da ausência de negros e de contato dos russos com o tema, a Fare lembra que já houve casos de apoios a nações africanas – só que, curiosamente, usavam black power ou black face, consideradas racistas e banidas em outros países.

“Os russos podem ser menos sensíveis em vocabulários considerados racistas e muitas vezes não têm tato quando se comunicam com pessoas negras ou asiáticas; andando pelas ruas de cidades menores, é mais provável que você veja os olhares e seja submetido à curiosidade. Pode nem sempre ser agressivo na intenção”, ressalta o alerta da FARE.