Discurso de Barack Obama em homenagem ao centenário de Nelson Mandela

Em parceria com o Terraço Econômico, o Estado da Arte oferece o discurso na íntegra.

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No último dia 17 de julho, o ex-presidente dos Estados Unidos da América Barack Obama fez um discurso em Joanesburgo na África do Sul em um evento comemorativo do aniversário de Nelson Mandela, que estaria completando 100 anos. Sem mencionar o nome de nenhuma das aberrações nas lideranças políticas que temos hoje (e se ele não fez, não será esta tradutora que irá fazer), Obama faz uma defesa apaixonada da liberdade, da economia de mercado, da luta contra a desigualdade e principalmente da democracia.

 

Obrigado. Agradeço Mama Graça Machel, os membros da família Mandela, a família Machel, o presidente Ramaphosa, que como vocês podem ver está inspirando novas esperanças neste grande país – agradeço também os professores, médicos, ilustres convidados, a Mama Sisulu e sua família e todo o povo da África do Sul – é uma honra única para mim estar aqui com todos vocês enquanto nos reunimos para celebrar o nascimento e a vida de um dos verdadeiros gigantes da história.

Deixe-me começar por uma correção – e algumas confissões. A correção é que eu sou um dançarino muito bom. Eu só quero deixar isso claro. Mas a Michelle é um pouco melhor.

As confissões. Número um, eu não fui exatamente convidado para estar aqui. Na verdade eu fui convocado, de uma forma muito agradável, pela Graça Machel.

Confissão número dois: eu esqueci um fato que aprendi nas minhas aulas de geografia, que agora é inverno na África do Sul. Eu não trouxe um casaco e hoje de manhã tive que mandar alguém ao shopping comprar porque estou usando ceroulas. Eu nasci no Havaí.

Confissão número três: Quando minha equipe me disse que eu deveria dar uma aula, pensei nos antigos professores usando gravata-borboleta e ternos de lã tweed, e me perguntei se esse era mais um sinal do estágio da vida em que estou entrando, juntamente com os cabelos grisalhos e a visão levemente falhando. Pensei no fato de que minhas filhas acham que qualquer coisa que eu diga é uma aula. Pensei na imprensa americana e em como eles frequentemente ficavam frustrados com minhas respostas longas em coletivas de imprensa, quando minhas respostas não se adaptavam aos dois minutos que eles tinham. Mas devido aos tempos estranhos e incertos em que estamos – e eles são estranhos, e eles são incertos – com as notícias trazendo manchetes perturbadoras, eu pensei que talvez fosse útil dar um passo atrás por um momento e tentar ganhar alguma perspectiva. Então, eu espero que vocês me permitam, apesar do frio, que eu gaste muito desta aula refletindo sobre onde estamos e como chegamos ao presente momento, na esperança de que isso nos oferecerá um roteiro para onde precisamos ir em seguida.

Cem anos atrás, Madiba nasceu na vila de M (oh, veja lá, eu sempre percebo isso; eu tenho que acertar os “Ms” quando estou na África do Sul; Mvezo, eu entendi. Na verdade, é porque está tão frio que meus lábios estão presos). Então, em sua autobiografia, ele descreve uma infância feliz; ele cuidou do gado, ele brincou com outros garotos, eventualmente frequentou uma escola onde sua professora lhe deu o nome em inglês Nelson. E como muitos de vocês sabem, ele uma vez falou: “Por que ela me deu esse nome em particular, eu não tenho ideia”.

Não havia razão para acreditar que um jovem negro naquele momento, naquele lugar, pudesse de alguma forma alterar a história. Afinal de contas, a África do Sul havia saído do controle britânico há menos de uma década. A legislação estava sendo escrita para implementar a segregação e a subjugação racial, um conjunto de leis que ficaria conhecida como apartheid. A maior parte da África, incluindo a terra natal de meu pai, estava sob o domínio colonial. As potências europeias dominantes, tendo terminado uma terrível guerra mundial poucos meses após o nascimento de Madiba, viam este continente e seu povo principalmente como um lugar a ser explorado através de uma disputa por território e por seus abundantes recursos naturais e mão-de-obra barata. E a inferioridade da raça negra, a indiferença em relação à cultura negra e aos interesses e aspirações do seu povo, eram tidos como fato.

E tal visão do mundo – que certas raças, certas nações, certos grupos eram inerentemente superiores, e que a violência e a coerção são a base primária da governança, que os fortes necessariamente exploram os fracos, que a riqueza é determinada principalmente pela conquista – era uma visão de mundo que não estava confinada às relações entre a Europa e a África, ou às relações entre brancos e negros. Os brancos estavam felizes em explorar outros brancos quando podiam. E, a propósito, os negros muitas vezes estavam dispostos a explorar outros negros. E em todo o mundo, a maioria das pessoas vivia em níveis de subsistência, sem pensar nas políticas ou forças econômicas que determinavam suas vidas. Muitas vezes eles estavam sujeitos aos caprichos e crueldades de líderes distantes. A pessoa comum não via nenhuma possibilidade de avançar das circunstâncias de seu nascimento. As mulheres eram quase uniformemente subordinadas aos homens. Privilégio e status estavam rigidamente vinculados por casta, cor, etnia e religião. E mesmo em meu próprio país, mesmo em democracias como os Estados Unidos, fundado em uma declaração de que todos os homens são criados iguais, a segregação racial e a discriminação sistêmica eram a lei em quase metade do país e a norma em todo o restante.

Assim era o mundo a apenas 100 anos atrás. Há pessoas vivas hoje que estavam vivas naquele mundo. É difícil, então, exagerar as notáveis ​​transformações que ocorreram desde aquela época. Uma segunda guerra mundial, ainda mais terrível do que a primeira, juntamente com uma cascata de movimentos de libertação da África, Ásia, América Latina e Oriente Médio, finalmente acabariam com o domínio colonial. Mais e mais povos, tendo testemunhado os horrores do totalitarismo, os repetidos massacres em massa do século XX, começaram a abraçar uma nova visão para a humanidade, uma nova ideia, baseada não apenas no princípio da autodeterminação nacional, mas também nos princípios da democracia e do Estado de direito e dos direitos civis e da dignidade inerente de cada indivíduo.

Nos países com economias baseadas no mercado, de repente, movimentos sindicais se desenvolveram; regulamentações sobre saúde, segurança e relações comerciais foram instituídas; o acesso à educação pública foi ampliado; os sistemas de bem-estar social surgiram, todos com o objetivo de restringir os excessos do capitalismo e aumentar sua capacidade de oferecer oportunidades não apenas para alguns, mas para todas as pessoas. E o resultado foi um crescimento econômico inigualável e um fortalecimento da classe média. E no meu próprio país, a força moral do movimento dos direitos civis não apenas derrubou as leis de Jim Crow, mas abriu as comportas para que mulheres e grupos historicamente marginalizados se reimaginassem, encontrassem suas próprias vozes, fizessem suas próprias reivindicações de cidadania plena.

Foi a serviço dessa longa caminhada em direção à liberdade, à justiça e oportunidades iguais que Nelson Mandela dedicou sua vida. No início, sua luta era voltada para este lugar, para sua terra natal – uma luta para acabar com o apartheid, uma luta para assegurar a duradoura igualdade política, social e econômica para seus cidadãos não-brancos marginalizados. Mas através do seu sacrifício e liderança inabalável e, talvez acima de tudo, através do seu exemplo moral, Mandela e o movimento que ele liderou viriam a significar algo maior. Ele passou a incorporar as aspirações universais de pessoas despossuídas em todo o mundo, suas esperanças de uma vida melhor, a possibilidade de uma transformação moral na condução dos assuntos humanos.

A luz de Madiba brilhava tão intensamente, mesmo naquela estreita cela de Robben Island, que no final dos anos 70 ele pôde inspirar um jovem universitário do outro lado do mundo a reexaminar suas próprias prioridades, pôde me fazer pensar no pequeno papel que eu poderia desempenhar na luta mundial contra as injustiças. E quando, mais tarde, como estudante de direito, presenciei Madiba sair da prisão, apenas alguns meses, vocês se lembram, depois da queda do Muro de Berlim, senti a mesma onda de esperança que inundou corações em todo o mundo.

Vocês se lembram desse sentimento? Parecia que as forças do progresso estavam em marcha, que elas eram inexoráveis. Cada passo que ele deu, vocês sentiram que era o momento em que as antigas estruturas de violência, repressão e antigos ódios que por tanto tempo atrapalharam a vida das pessoas e confinaram o espírito humano – que tudo estava desmoronando diante de nossos olhos. E depois, como Madiba guiou esta nação através da negociação cuidadosa, da reconciliação, de suas primeiras eleições justas e livres. Como todos nós testemunhamos a graça e a generosidade com que ele abraçou os antigos inimigos, a sabedoria que demonstrou ao se afastar do poder uma vez que sentiu que seu trabalho estava completo, nós que entendemos que não era apenas o subjugado, os oprimidos que estavam sendo libertados dos grilhões do passado. O subjugador também estava recebendo um presente, tendo a oportunidade de enxergar o mundo de uma nova maneira, tendo a chance de participar do trabalho de construir um mundo melhor.

E durante as últimas décadas do século XX, a visão progressista e democrática que Nelson Mandela representou de muitas maneiras definiu os termos do debate político internacional. Isso não significa que a visão foi sempre vitoriosa, mas estabeleceu os termos, os parâmetros; guiou como pensamos sobre o significado do progresso e continuou a impulsionar o mundo para frente. Sim, ainda havia tragédias – sangrentas guerras civis dos Bálcãs ao Congo. Mas apesar do fato de que o conflito étnico e sectário ainda incendiou com regularidade devastadora, apesar disso, os acordos de desarmamento nuclear, um Japão pacífico e próspero, uma Europa unificada ancorada na OTAN, a entrada da China no sistema mundial de comércio – tudo isso reduziu enormemente a perspectiva de guerra entre as grandes potências mundiais. E da Europa até a África, passando pela América Latina e pelo Sudeste Asiático, as ditaduras começaram a dar lugar às democracias. A marcha avançava. O respeito pelos direitos humanos e pelo estado de direito, enumerados em uma declaração das Nações Unidas, tornou-se a norma orientadora para a maioria das nações, mesmo em lugares onde a realidade ficou muito aquém do ideal. Mesmo quando esses direitos humanos foram violados, aqueles que violaram estavam na defensiva.

E com essas mudanças geopolíticas vieram mudanças econômicas gigantescas. A introdução de princípios baseados no mercado, nos quais economias anteriormente fechadas, juntamente com as forças da integração global impulsionadas por novas tecnologias, de repente liberaram talentos empresariais àqueles que já haviam sido relegados à periferia da economia mundial, com as quais não haviam contado. De repente, eles contaram. Eles tinham algum poder; eles tinham as possibilidades de fazer negócios. E então vieram avanços científicos e novas infraestruturas e a redução de conflitos armados. E, de repente, um bilhão de pessoas foram retiradas da pobreza, e assim as nações famintas conseguiram se alimentar, e as taxas de mortalidade infantil despencaram. E enquanto isso, a disseminação da internet possibilitou que as pessoas se conectassem através dos oceanos, que culturas e continentes instantaneamente fossem reunidos e, potencialmente, que todo o conhecimento do mundo pudesse estar nas mãos de uma criança pequena, mesmo na aldeia mais remota.

Foi o que aconteceu no decorrer de algumas décadas. E todo esse progresso é real. Tem sido amplo e profundo, e tudo isso aconteceu – pelos padrões da história humana – em nada mais do que um piscar de olhos. E agora toda uma geração cresceu e vive em um mundo que, de maneira geral, se tornou cada vez mais livre, mais saudável, mais rico, menos violento e mais tolerante.

Isso deveria nos deixar esperançosos. Mas se não podemos negar os avanços reais que o nosso mundo fez desde o momento em que Madiba deu os primeiros passos do confinamento, também temos de reconhecer todas as maneiras pelas quais a ordem internacional ficou aquém de sua promessa. De fato, é em parte por causa dos fracassos dos governos e das poderosas elites em responder diretamente às deficiências e contradições dessa ordem internacional, que vemos agora grande parte do mundo ameaçando a retroceder a um modo mais antigo, mais perigoso, mais brutal de fazer negócios.

Portanto, temos de começar admitindo que quaisquer leis que possam ter existido nos livros, quaisquer que sejam os pronunciamentos maravilhosos existentes nas constituições, quaisquer palavras bonitas que tenham sido pronunciadas durante estas últimas décadas em conferências internacionais ou nos salões das Nações Unidas, as estruturas anteriores de privilégio e poder e injustiça e exploração nunca desapareceram completamente. Eles nunca foram totalmente desalojados. As diferenças de castas ainda afetam as chances de vida das pessoas no subcontinente indiano. Diferenças étnicas e religiosas ainda determinam quem recebe oportunidades na Europa Central ou no Golfo. É um fato claro que a discriminação racial ainda existe nos Estados Unidos e na África do Sul. E também é fato que as desvantagens acumuladas em anos de opressão institucionalizada criaram enormes disparidades em termos de rendimento, riqueza, educação, saúde, segurança pessoal e acesso ao crédito. Mulheres e meninas em todo o mundo continuam impedidas de obter de posições de poder e de autoridade. Muitas continuam impedidas de obter uma educação básica. Elas são desproporcionalmente vitimadas pela violência e pelo abuso. Elas ainda recebem menos que os homens por fazer o mesmo trabalho. Isso ainda está acontecendo. Oportunidade econômica, apesar de toda a magnificência da economia global, de todos os arranha-céus brilhantes que transformaram a paisagem ao redor do mundo, ainda deixou de lado bairros inteiros, cidades inteiras, regiões inteiras e mesmo nações inteiras.

Em outras palavras, para muitas pessoas, quanto mais as coisas mudam, mais as coisas permanecem as mesmas.

E se por um lado a globalização e a tecnologia abriram novas oportunidades, impulsionaram um crescimento econômico notável em partes do mundo anteriormente em dificuldades, ela também prejudicou os setores agrícola e manufatureiro em muitos países. Também reduziu bastante a demanda por certos trabalhadores, ajudou a enfraquecer os sindicatos e o poder de barganha do trabalho. Tornou mais fácil para o capital evitar as leis tributárias e os regulamentos dos estados-nação – hoje é possível movimentar bilhões, trilhões de dólares com um toque na tecla de um computador.

E o resultado de todas essas tendências foi uma explosão da desigualdade econômica. Hoje algumas dezenas de indivíduos controlam a mesma quantidade de riqueza que a metade mais pobre da humanidade. Isso não é um exagero, é uma estatística. Pensem sobre isso. Em muitos países de renda média ou naqueles em desenvolvimento, a nova riqueza seguiu o mesmo padrão de mau negócio que já existia anteriormente e reforçou ou até agravou os padrões existentes de desigualdade, sendo que a única diferença é que criou oportunidades ainda maiores de corrupção numa escala épica. Por outro lado, para famílias sólidas de classe média em economias avançadas como os Estados Unidos, essas mudanças trouxeram maior insegurança econômica, especialmente para aqueles que não têm habilidades especializadas, pessoas que estavam na indústria, trabalhando em fábricas ou trabalhando em fazendas.

Em todos os países, a influência econômica desproporcional dos que ocupam o topo tem proporcionado a esses indivíduos uma influência desproporcional sobre a vida política de seus países e sobre sua mídia; com isso, políticas contrárias aos seus interesses são perseguidas e interesses contrários aos seus acabam sendo ignorados. Agora, deve-se notar que esta nova elite internacional, a classe profissional que os sustenta, difere em aspectos importantes das aristocracias dominantes de antigamente. Inclui muitos que se fizeram sozinhos. Inclui os campeões da meritocracia. E embora ainda predominantemente brancos e masculinos, eles refletem uma diversidade de nacionalidades e etnias que não existiriam há cem anos. Uma porcentagem relevante considera-se liberal em sua ideologia, moderna e cosmopolita em sua perspectiva. Destituídos de paroquialismo, nacionalismo, ou preconceito racial manifesto ou forte sentimento religioso, eles estão igualmente à vontade em Nova York, Londres, Xangai, Nairóbi, Buenos Aires ou Joanesburgo. Muitos são sinceros e eficazes em sua filantropia. Alguns deles colocam Nelson Mandela entre seus heróis. Alguns até apoiaram Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos, e em virtude do meu status como ex-chefe de Estado, alguns deles me consideram um membro honorário do clube. E eu fui convidado para essas coisas extravagantes, sabem? Eles me expulsarão.

Mas a verdade é que em seus negócios, muitos titãs da indústria e das finanças estão cada vez mais afastados de qualquer local ou estado-nação, e vivem vidas cada vez mais isoladas em relação à luta das pessoas comuns em seus países de origem. E suas decisões – suas decisões de fechar uma fábrica, ou tentar minimizar sua tributação transferindo lucros para um paraíso fiscal com a ajuda de contadores ou advogados caros, ou sua decisão de aproveitar mão-de-obra imigrante de baixo custo, ou sua decisão de pagar suborno – são muitas vezes feitas sem malícia; é apenas uma resposta racional, eles consideram, às demandas de seus balanços e seus acionistas e pressões competitivas.

Mas, com muita frequência, essas decisões também são tomadas sem referência de solidariedade humana – ou de um entendimento básico das consequências negativas que essas decisões trarão para determinadas pessoas em determinadas comunidades. De suas salas de diretoria, tomadores de decisão globais não têm a chance de ver, às vezes, a dor nos rostos dos trabalhadores demitidos. Seus filhos não sofrem quando os cortes na educação pública e nos cuidados de saúde são resultantes de uma base fiscal reduzida devido à evasão fiscal. Eles não podem ouvir o ressentimento de um comerciante mais velho quando ele reclama que um recém-chegado não fala sua língua em um local de trabalho onde ele sempre trabalhou. Eles estão menos sujeitos ao desconforto e ao deslocamento que alguns de seus conterrâneos sofrem com a globalização que embaralha não apenas os arranjos econômicos existentes, mas os costumes sociais e religiosos tradicionais.

É por isso que, no final do século XX, enquanto alguns analistas ocidentais estavam declarando o fim da história e o inevitável triunfo da democracia liberal e as virtudes da globalização, já existiam sinais de uma reação adversa – uma reação que chegou em muitas formas. Essa reação foi anunciada de forma mais violenta com ataque terrorista de 11 de setembro e o surgimento de redes terroristas transnacionais, alimentadas por uma ideologia que perverteu uma das grandes religiões do mundo e afirmou uma luta não apenas entre o Islã e o Ocidente, mas entre o Islã e a modernidade. E a péssima ideia da invasão do Iraque pelos EUA não ajudou, acelerando esse conflito sectário. A Rússia, já humilhada pela sua reduzida influência desde o colapso da União Soviética, sentindo-se ameaçada pelos movimentos democráticos ao longo de suas fronteiras, repentinamente começou a reafirmar o controle autoritário e, em alguns casos, se intrometer com seus vizinhos. A China, encorajada por seu sucesso econômico, começou a protestar contra as críticas ao seu histórico de direitos humanos; considerando a promoção de valores universais como nada mais que interferência estrangeira, como imperialismo sob um novo nome. Dentro dos Estados Unidos, dentro da União Europeia, os desafios à globalização surgiram primeiro da esquerda, mas vieram mais fortemente da direita, quando começaram crescer movimentos populistas – que, diga-se de passagem, são cinicamente financiados por bilionários de direita que tem como objetivo reduzir as restrições do governo aos seus interesses comerciais – esses movimentos aproveitaram o mal-estar sentido por muitas pessoas que viviam fora dos núcleos urbanos, que temiam que a segurança econômica estivesse se esvaindo, que seu status social e privilégios estivessem se deteriorando, que suas identidades culturais estivessem sendo ameaçadas por estranhos, por alguém que não se parecia com eles ou que não falava ou orava como eles faziam.

E talvez mais do que qualquer outra coisa, o impacto devastador da crise financeira de 2008, em que o comportamento imprudente das elites financeiras resultou em anos de dificuldades para pessoas comuns em todo o mundo, fez com que todas as garantias anteriores de especialistas parecessem vazias – todas aquelas garantias de que os reguladores financeiros sabiam o que estavam fazendo, que alguém estava cuidando da loja, que a integração econômica global era um bem que não podia ser adulterado. Por causa das ações tomadas pelos governos durante e após a crise, incluindo, devo acrescentar, por medidas agressivas da minha administração, a economia global voltou agora a um crescimento saudável. Mas a credibilidade do sistema internacional, a fé em especialistas de lugares como Washington ou Bruxelas, tudo isso levou um golpe.

Com isso uma ideologia de medo, ressentimento e retrocesso começou a aparecer, e esse tipo de ideologia está agora em movimento. Está em movimento a um ritmo que teria parecido inimaginável há alguns anos. Eu não estou sendo alarmista, estou simplesmente mostrando os fatos. Olhem em volta. A ideologia do homem forte está ascendendo repentinamente, por meio da qual as eleições e alguma pretensão democrática são mantidas – sua forma –, mas os que estão no poder procuram minar todas as instituições ou normas que dão significado à democracia. No Ocidente, há partidos de extrema direita que muitas vezes se baseiam não apenas em plataformas de protecionismo e fronteiras fechadas, mas também em um nacionalismo racial nefasto. Muitos países em desenvolvimento agora estão considerando o modelo de controle autoritário da China combinado com o capitalismo mercantilista como preferível à confusão da democracia. Quem precisa de liberdade de expressão enquanto a economia estiver indo bem? A imprensa livre está sob ataque. A censura e o controle estatal da mídia estão em ascensão. A mídia social – antes vista como um mecanismo para promover o conhecimento, a compreensão e a solidariedade – provou ser igualmente eficaz na promoção do ódio, da paranoia e das teorias da conspiração.

Assim, no aniversário de 100 anos de Madiba, estamos agora em uma encruzilhada – um momento no tempo em que duas visões muito diferentes do futuro da humanidade competem pelos corações e mentes dos cidadãos ao redor do mundo. Duas histórias diferentes, duas narrativas diferentes sobre quem somos e quem devemos ser. Como devemos responder?

Acaso deveríamos ver aquela onda de esperança que sentimos com a libertação de Madiba da prisão, do Muro de Berlim descendo? Deveríamos pensar que essa esperança que tínhamos era ingênua ou ignorante? Deveríamos entender os últimos 25 anos de integração global como nada mais que um desvio do ciclo inevitável da história anterior – em que a política é uma competição hostil entre tribos, raças, religiões e nações que disputam em um jogo de soma zero, no qual estaremos constantemente à beira do conflito até que a guerra completa irrompe? É isso que pensamos?

Deixem-me dizer no que eu acredito. Eu acredito na visão de Nelson Mandela. Eu acredito em uma visão compartilhada por Gandhi, King e Abraham Lincoln. Acredito em uma visão de igualdade, justiça, liberdade e democracia multirracial, construída com base na premissa de que todas as pessoas são criadas iguais e dotadas pelo nosso criador de certos direitos inalienáveis. E acredito que um mundo governado por tais princípios é possível e que pode alcançar mais paz e mais cooperação na busca de um bem comum. É nisso que eu acredito.

E acredito que não temos escolha a não ser seguir em frente; que aqueles de nós que acreditam na democracia, nos direitos civis e em uma humanidade comum têm uma história melhor para contar. E eu acredito que isso não se baseia apenas em um sentimento, acredito que seja baseado em evidências concretas.

É fato que as sociedades mais prósperas e bem-sucedidas do mundo, aquelas com os mais altos padrões de vida e os mais altos níveis de satisfação entre seus povos, são aquelas que mais se aproximam do ideal progressista liberal de que falamos e que alimentam os talentos e contribuições de todos os seus cidadãos.

É fato que governos autoritários têm se mostrado repetidamente corruptos porque eles não são responsabilizados por reprimir seu povo, e por eventualmente perder o contato com a realidade; envolvem-se em mentiras cada vez maiores que acabam por resultar em estagnação econômica, política, cultural e científica. Olhem para a história. Olhem para os fatos.

É fato que países que se baseiam em nacionalismo e xenofobia raivosos, que têm doutrinas de superioridade tribal, racial ou religiosa como princípios teóricos para manter as pessoas unidas, são os países que eventualmente serão consumidos por guerras civis ou guerras externas. Confiram nos livros de história.

É fato que a tecnologia não pode ser colocada de volta em uma garrafa, então estamos presos à realidade na qual agora vivemos juntos, e que as populações vão se movimentar de um lugar para outro e que os desafios ambientais não vão desaparecer sozinhos. A única maneira de abordar efetivamente problemas como mudança climática, migração em massa ou doenças pandêmicas será desenvolver sistemas para aumentar a cooperação internacional, não para diminuí-la.

Nós temos uma história melhor para contar. Mas dizer que nossa visão para o futuro é melhor não é dizer que ela irá inevitavelmente vencer. Porque a história também mostra o poder do medo. A história mostra o domínio duradouro da ganância e o desejo de dominar os outros nas mentes dos homens. Especialmente dos homens. A história mostra com que facilidade as pessoas podem ser convencidas a juntar os que parecem diferentes ou adorar a Deus de uma maneira diferente. Então, se formos verdadeiramente continuar a longa caminhada de Madiba em direção à liberdade, teremos de trabalhar mais e teremos de ser mais inteligentes. Nós vamos ter de aprender com os erros do passado recente. E assim, no pouco tempo que me resta aqui, deixem-me sugerir apenas algumas diretrizes para o caminho a seguir, diretrizes que tirei do trabalho de Madiba, das suas palavras, das suas lições de sua vida.

Primeiro, Madiba nos mostrou que se acreditamos na liberdade e na democracia teremos de lutar mais para reduzir a desigualdade e promover oportunidades econômicas duradouras para todas as pessoas.

Agora, não acredito no determinismo econômico. Os seres humanos não vivem só de pão. Mas eles precisam de pão. E a história mostra que as sociedades que toleram grandes diferenças de riqueza alimentam ressentimentos e reduzem a solidariedade e, na verdade, crescem mais lentamente; e que, quando as pessoas alcançam mais do que mera subsistência, elas passam a medir o seu bem-estar comparando-se com seus vizinhos e esperam que seus filhos possam ter uma vida melhor. E quando o poder econômico está concentrado nas mãos de poucos, a história também mostra que o poder político certamente o seguirá – e essa dinâmica corrói a democracia. Às vezes pode ser uma corrupção direta, mas às vezes pode não envolver a troca de dinheiro; é só gente que é tão rica que consegue tudo o que quer, e isso prejudica a liberdade humana.

E Madiba entendeu isso. Isso não é novidade. Ele nos alertou sobre isso. Ele disse: “A globalização pode significar em alguns lugares, como tantas vezes acontece, que os ricos e os poderosos agora têm novos meios para se enriquecer e fortalecer a si mesmos à custa dos mais pobres e mais fracos, [então] temos a responsabilidade de protestar em nome da liberdade universal “. Isso foi o que ele disse. Então, se estamos falando sério sobre a liberdade universal hoje, se nos preocupamos com a justiça social hoje, temos a responsabilidade de fazer algo a respeito. E eu respeitosamente emendaria o que Madiba disse. Eu não faço isso com frequência, mas eu diria que não é o suficiente protestarmos; vamos ter de construir, vamos ter de inovar, vamos ter de descobrir como podemos fechar esse abismo crescente de riqueza e oportunidade, tanto dentro dos países como entre eles.

E como conseguiremos isso vai variar de país para país, e sei que o novo presidente de vocês está empenhado em arregaçar as mangas e tentar fazê-lo. Mas podemos aprender com os últimos 70 anos que isso não envolverá capitalismo desregulado, desenfreado e antiético. Também não envolverá o socialismo antigo de comando e controle pelo topo. Isso já foi tentado; não funcionou muito bem. Para quase todos os países, o progresso dependerá de um sistema de mercado inclusivo – que ofereça educação para todas as crianças, que proteja a negociação coletiva e assegure os direitos de todos os trabalhadores, que acabe com monopólios para incentivar a concorrência entre pequenas e médias empresas, que possua leis que erradique a corrupção e que garanta negociações justas nos negócios, que mantenha alguma forma de tributação progressiva para que os ricos ainda sejam ricos, mas que devolvam um pouco para garantir que todos tenham algo e que se possa oferecer saúde universal, segurança na aposentadoria e investimentos em infraestrutura e pesquisa científica para que se construa plataformas de inovação.

Eu devo acrescentar, a propósito, mesmo eu estando realmente surpreso com a quantidade de dinheiro que tenho, e deixem-me dizer uma coisa: eu não tenho metade da maioria dessas pessoas ou mesmo um décimo ou um centésimo. Há um máximo de coisas que você pode comer. Há um tamanho máximo de casa que você pode ter. Há uma quantidade máxima de viagens que você pode fazer. Quero dizer, é o suficiente. Você não precisa fazer voto de pobreza apenas para dizer: “Bem, deixe-me ajudar algumas pessoas – deixe-me ver aquela criança lá fora que não tem o suficiente para comer ou para estudar, deixe-me ajudá-la. Pagarei um pouco mais em impostos. Tudo bem. Eu posso pagar.” Quero dizer, isso mostra uma falta de ambição de apenas querer acumular mais e mais e mais, em vez disso prefiro dizer: “Uau, eu tenho muito. Quem eu posso ajudar? Como posso dar mais e mais e mais?” Isso é ambição. Isso é impacto. Isso é influência. Que presente incrível é poder ajudar as pessoas, não apenas você… Onde eu estava? Dei uma improvisada, mas vocês entenderam meu ponto.

Isso envolve promover um capitalismo inclusivo tanto dentro das nações como entre as nações. E, como perseguimos, por exemplo, os objetivos de desenvolvimento sustentável, temos de superar a mentalidade de caridade. Temos de levar mais recursos para os bolsos esquecidos do mundo através do investimento e do empreendedorismo, porque há talento em todo o mundo se for dada uma oportunidade.

Quando se trata do sistema internacional de comércio, é legítimo que os países mais pobres continuem a buscar acesso aos mercados mais ricos. E, a propósito, mercados mais ricos, esse não é o maior problema que vocês estão tendo – que um pequeno país africano está vendendo chá e flores para vocês. Esse não é o seu maior desafio econômico. Também é apropriado para as economias avançadas, como os Estados Unidos, insistirem na reciprocidade de países como a China, que não são mais países pobres, e garantir o acesso aos seus mercados sem tomar em troca a nossa propriedade intelectual ou hackear nossos servidores.

Mas mesmo que haja discussões em torno do comércio exterior, é importante reconhecer uma realidade: a terceirização de empregos de norte a sul, de leste a oeste, era uma tendência dominante no final do século XX, mas o maior desafio para os trabalhadores em países como o meu hoje é a tecnologia. E o maior desafio para o novo presidente de vocês a fim de empregar mais pessoas aqui também será a tecnologia, porque a inteligência artificial é uma realidade e está acelerando, teremos carros sem motorista, teremos mais e mais serviços automatizados, e isso obrigará o trabalho a ser mais significativo, teremos de ser mais criativos, e esse pacto de mudança irá nos exigir uma re-imaginação fundamental de nossos arranjos sociais e políticos, para proteger a segurança econômica e a dignidade.

Segundo, Madiba nos ensina que alguns princípios são realmente universais – e o mais importante é o princípio de que estamos unidos por uma humanidade comum e que cada indivíduo tem dignidade e valores inerentes.

Agora, é surpreendente que tenhamos de afirmar esta verdade ainda hoje. Mais de um quarto de século depois que Madiba saiu da prisão, eu ainda tenho de ficar aqui em uma aula dedicando tempo para dizer que negros e brancos e asiáticos e latino-americanos e mulheres e homens e gays e heterossexuais, somos todos humanos, que nossas diferenças são superficiais e que devemos tratar uns aos outros com cuidado e respeito. Eu achava que já era para sabermos disso. Eu achava que essa noção básica estava bem estabelecida. Mas acontece que, como estamos vendo essa recente tendência à política reacionária, percebemos que a luta pela justiça básica nunca está realmente acabada. Então temos de estar constantemente atentos e lutar contra pessoas que buscam se elevar colocando alguém para baixo. E, a propósito, também temos de resistir ativamente – isso é importante, particularmente em alguns países da África, como a pátria de meu pai. Já fiz isso antes – temos de continuar batendo na tecla a respeito da noção de que os direitos humanos básicos, como a liberdade de discordância, ou o direito das mulheres de participar plenamente da sociedade, ou o direito das minorias à igualdade de tratamento, ou os direitos das pessoas de não serem espancadas ou presas devido de sua orientação sexual – temos de ter cuidado para não dizer que de alguma forma essa luta não se aplica a nós, que essas são ideias ocidentais, e não imperativos universais.

Mais uma vez, Madiba, ele antecipou as coisas. Ele sabia do que estava falando. Em 1964, antes de receber a sentença que o condenou a morrer na prisão, ele explicou do banco dos réus que “A Carta Magna, a Declaração de Direitos Humanos são documentos que são mantidos em veneração pelos democratas em todo o mundo”. Em outras palavras, esses livros não foram escritos por sul-africanos, então não era possível reivindicá-los. Ele disse que é parte da sua herança. É parte da herança humana. Isso se aplica aqui neste país, para mim e para vocês. E isso é parte do que lhe deu a autoridade moral que o regime do apartheid nunca poderia reivindicar, porque ele estava mais familiarizado com os melhores valores do que eles. Ele leu os documentos do apartheid com mais cuidado do que eles. E prosseguiu dizendo: “A divisão política baseada na cor é inteiramente artificial e, quando ela desaparece, a dominação de um grupo de cores por outro também some”. Isso é Nelson Mandela falando em 1964, quando eu tinha três anos de idade.

O que era verdade então, permanece verdadeiro hoje. Verdades básicas não mudam. É uma verdade que pode ser adotada pelos ingleses, pelos indianos, mexicanos, pelos luos, pelos bantus e pelos americanos. É uma verdade que está no coração de toda religião mundial – que devemos fazer aos outros o que gostaríamos que fizessem a nós. Que nos vemos em outras pessoas. Que podemos reconhecer esperanças comuns e sonhos comuns. E é uma verdade que é incompatível com qualquer forma de discriminação baseada em raça ou religião ou gênero ou orientação sexual. E é uma verdade que, a propósito, quando abraçada, realmente proporciona benefícios práticos, uma vez que garante que uma sociedade possa aproveitar os talentos, a energia e a habilidade de todas as pessoas. E se você duvida, basta perguntar ao time de futebol francês que acabou de ganhar a Copa do Mundo. Porque nem todas essas pessoas se parecem com gauleses para mim. Mas eles são franceses. Eles são franceses.

Abraçar nossa humanidade comum não significa que tenhamos de abandonar nossas identidades étnicas, nacionais e religiosas. Madiba nunca deixou de se orgulhar de sua herança tribal. Ele não deixou de se orgulhar de ser negro e de ser sul-africano. Mas ele acreditava, como eu acredito, que você pode se orgulhar de sua herança sem denegrir os de uma herança diferente. Na verdade, quando você faz isso, você desonra sua herança. Isso me faz pensar que você é um pouco inseguro sobre sua herança se tiver de colocar a herança de outra pessoa para baixo. Sim, está certo. Vocês não sentem que às vezes – de novo, eu estou improvisando aqui – essas pessoas que estão tão concentradas em colocar as pessoas para baixo deixam transparecer o seu coração pequeno, que eles estão com medo de alguma coisa? Madiba sabia que não podemos reivindicar justiça para nós quando ela é reservada apenas para alguns. Madiba entendeu que não podemos dizer que temos uma sociedade justa simplesmente porque substituímos a cor da liderança mantendo um sistema injusto. Não é porque o nosso líder se parece conosco. Se ele continua fazendo a mesma coisa, nós continuamos não tendo justiça. Isso não funciona. Não é justiça se agora que você está no topo, você faz com as pessoas o mesmo que elas faziam com você antes. Isso não é justiça. “Eu detesto o racismo”, disse ele, “se vem de um homem negro ou de um homem branco”.

Agora, temos de reconhecer que existe uma desorientação que vem da mudança rápida e da modernização, e o fato de que o mundo encolheu, e vamos ter de encontrar maneiras de diminuir os medos daqueles que se sentem ameaçados. No debate atual do Ocidente em torno da imigração, por exemplo, não é errado insistir que as fronteiras nacionais importam, se você é um cidadão. Ou acaso não importará a um governo que as leis precisem ser seguidas; que, no âmbito público, os recém-chegados devam se esforçar para adaptar-se à linguagem e aos costumes de seu novo lar? Essas são coisas legítimas e temos de ser capazes de envolver as pessoas que se sentem como se as coisas não estivessem em ordem. Mas isso não pode ser uma desculpa para políticas de imigração baseadas em raça, etnia ou religião. Tem de haver alguma consistência. E podemos impor a lei respeitando a humanidade essencial daqueles que estão lutando por uma vida melhor. Para uma mãe com um filho nos braços, podemos reconhecer que ali poderia ser alguém da nossa família, que poderia ser meu filho.

Em terceiro lugar, Madiba nos lembra que a democracia é mais do que apenas eleições.

Quando ele foi libertado da prisão, a popularidade de Madiba – bem, você não podia nem medir isso. Ele poderia ter sido presidente vitalício. Estou errado? Quem iria concorre contra ele? Quero dizer, Ramaphosa era popular, mas vamos lá. Além disso, ele era jovem – ele era jovem demais. Se ele quisesse, Madiba poderia ter governado por decreto executivo, sem qualquer restrição. Mas, em vez disso, ajudou a guiar a África do Sul através da elaboração de uma nova Constituição, baseada em todas as práticas institucionais e ideais democráticos que se mostraram mais robustos, atento ao fato de que nenhum indivíduo possui o monopólio da sabedoria. Nenhum indivíduo – nem Mandela, nem Obama – é totalmente imune às influências corruptoras do poder absoluto. Se você pode fazer o que quiser, todo mundo terá medo de dizer quando você cometer um erro. Ninguém está imune aos perigos disso.

Mandela entendeu isso. Ele disse: “A democracia é baseada no princípio da maioria. Isso é especialmente verdade em um país como o nosso, onde a grande maioria tem tido seus direitos sistematicamente negados. Ao mesmo tempo, a democracia também exige que os direitos das minorias sejam salvaguardados”. Ele entendeu que não é apenas sobre quem tem mais votos. É também sobre a cultura cívica que construímos, que faz a democracia funcionar.

Então, temos de parar de fingir que os países que meramente realizam eleições onde às vezes o vencedor magicamente obtém 90% dos votos porque toda a oposição está trancada – ou não pode entrar na TV – são democracias. A democracia depende de instituições fortes e da garantia dos direitos das minorias, de restrições e contrapesos, de liberdade de expressão, de imprensa livre, do direito de protestar, de um judiciário independente e da ideia de que todos devem seguir as leis.

E, sim, a democracia pode ser confusa, pode ser lenta e pode ser frustrante. Eu sei disso, eu garanto. Mas a eficiência oferecida por um autocrata é uma promessa falsa. Não acredite nela, porque ela leva, invariavelmente, a uma maior consolidação da riqueza no topo e do poder no topo, e torna mais fácil esconder a corrupção e o abuso. Apesar de todas as suas imperfeições, a democracia real sustenta melhor a ideia de que o governo existe para servir o indivíduo e não o contrário. E é a única forma de governo que tem a possibilidade de tornar essa ideia real.

Então, para aqueles de nós que estão interessados ​​em fortalecer a democracia, paremos também – é hora de pararmos de prestar atenção às capitais mundiais e aos centros de poder e começar a nos concentrar mais nas bases, porque é daí que a legitimidade democrática virá. Não de cima para baixo, não de teorias abstratas, não apenas de especialistas, mas de baixo para cima. Conhecendo as vidas daqueles que estão lutando.

Como líder comunitário, aprendi muito com um metalúrgico desempregado em Chicago ou com uma mãe solteira em um bairro pobre que visitei, como aprendi com os melhores economistas do Salão Oval da Casa Branca. Democracia significa estar em contato e em sintonia com a vida como ela é vivida em nossas comunidades, e isso é o que devemos esperar de nossos líderes, e isso depende do cultivo de líderes na base que possam ajudar a trazer mudanças e implementá-las na prática. Pessoas que digam aos líderes que estão em edifícios extravagantes o que não está funcionando aqui embaixo no mundo real.

E para fazer a democracia funcionar, Madiba nos mostra que também temos de continuar ensinando nossos filhos, e a nós mesmos – e isso é realmente difícil – a nos engajar com pessoas que não apenas têm uma aparência diferente, mas possuem visões diferentes. Isso é difícil.

A maioria de nós prefere nos cercar de opiniões que validem o que já acreditamos. Você percebe que as pessoas que você acha inteligentes são as pessoas que concordam com você. Engraçado como isso funciona. Mas a democracia exige que também possamos entrar na realidade das pessoas que são diferentes de nós para que possamos entender seu ponto de vista. Talvez possamos convencê-los a mudar de ideia, mas talvez elas mudem as nossas. E você não pode fazer isso se você simplesmente ignorar o que seus oponentes têm a dizer desde o início. E você não pode fazer isso se você insistir que aqueles que não são como você – porque são brancos, ou porque são do sexo masculino – de alguma forma não têm como entender o que você sente, que de alguma forma eles não têm direito para falar sobre certos assuntos.

Madiba viveu essa complexidade. Na prisão, ele estudou africâner para poder entender melhor as pessoas que o estavam encarcerando. E quando ele saiu da prisão, ele estendeu a mão para aqueles que o haviam prendido, porque ele sabia que eles tinham de ser parte da África do Sul democrática que ele queria construir. “Para fazer as pazes com um inimigo”, escreveu ele, “é preciso trabalhar com esse inimigo e tornar esse inimigo um parceiro.”

Assim, aqueles que têm opiniões rígidas quando se trata de política, seja à esquerda ou à direita, tornam a democracia inviável. Você não pode esperar obter 100% do que você quer o tempo todo; às vezes, você tem de abrir mão de alguma coisa. Isso não significa abandonar seus princípios, mas significa manter esses princípios e ter a confiança de que eles resistirão a um debate democrático sério. Foi assim que os fundadores dos Estados Unidos planejaram que nosso sistema funcionasse – que, através do teste de ideias e da aplicação da razão e da prova, seria possível chegar a uma base para um terreno comum.

E devo acrescentar que para que isso funcione, temos que realmente acreditar em uma realidade objetiva. Essa é uma dessas coisas que eu não precisei de aulas para aprender. Você tem de acreditar em fatos. Sem fatos, não há base para cooperação. Se eu disser que este é um pódio e você disser que é um elefante, vai ser difícil para nós cooperarmos. Eu posso encontrar um terreno comum para aqueles que se opõem aos Acordos de Paris porque, por exemplo, eles podem dizer “bem, não vai funcionar”, você não pode fazer todos cooperarem, ou eles podem dizer que é mais importante nos fornecer energia barata para os pobres, mesmo que isso signifique, a curto prazo, que haja mais poluição. Pelo menos eu posso ter um debate com eles sobre isso e posso mostrar a eles porque eu acho que a energia limpa é o melhor caminho – especialmente para os países pobres –, porque é possível ultrapassar tecnologias antigas. O que eu não consigo é encontrar um terreno comum se alguém diz que a mudança climática não está acontecendo, quando quase todos os cientistas do mundo nos dizem que está. Eu não sei nem por onde começar a falar sobre isso. Se você começar a dizer que é uma farsa elaborada, não sei o que fazer – por onde começamos?

Infelizmente, muito da política hoje parece rejeitar o próprio conceito de verdade objetiva. As pessoas inventam coisas. Eles apenas inventam coisas. Nós vemos isso na propaganda patrocinada pelo estado; vemos isso em fabricações conduzidas pela internet, vemos isso na confusão entre notícias e entretenimento, vemos a total perda de vergonha entre os líderes políticos, quando eles são pegos em uma mentira e eles simplesmente enrolam e mentem um pouco mais. Os políticos sempre mentiram, mas era diferente, se você os pegasse mentindo, eles diriam algo como “Oh, cara”. Agora eles continuam mentindo.

Aliás, isso é o que eu acho que Mama Graça estava falando em termos de algum senso de humildade que Madiba sentia, como às vezes coisas básicas… não mentir para as pessoas parece básico, não pensar em mim como um grande líder só porque eu não falo mentiras descaradas também é básico. De qualquer forma, vemos isso na promoção do anti-intelectualismo e na rejeição da ciência por parte de líderes que acham o pensamento crítico e os dados de alguma forma politicamente inconvenientes. E, como na negação dos direitos, a negação dos fatos vai contra a democracia, pode ser a sua ruína, e é por isso que devemos proteger zelosamente a mídia independente; e temos de nos proteger contra a tendência das mídias sociais se tornarem puramente uma plataforma para um espetáculo de indignação ou desinformação; e temos de insistir que nossas escolas ensinem o pensamento crítico aos nossos jovens, não apenas a obediência cega.

O que – tenho certeza de que vocês já estão cansados e irão agradecer – me leva ao meu último ponto: temos de seguir o exemplo de persistência e esperança de Madiba.

É tentador ceder ao cinismo: acreditar que as mudanças recentes na política global são muito poderosas para retroceder; que o pêndulo retroagiu permanentemente. Assim como as pessoas falaram sobre o triunfo da democracia nos anos 90, agora vocês estão ouvindo as pessoas falarem sobre o fim da democracia e o triunfo do tribalismo e do homem forte. Temos de resistir a esse cinismo.

Porque, nós já passamos por tempos mais obscuros, nós estivemos em vales mais baixos e vales mais profundos. Sim, até o final de sua vida, Madiba incorporou a luta bem-sucedida pelos direitos humanos, mas a jornada não foi fácil, não foi pré-ordenada. O homem ficou preso por quase três décadas. Ele quebrou pedra no sol, dormiu em uma pequena cela e foi repetidamente colocado em confinamento solitário. E eu lembro de ter conversado com alguns de seus ex-colegas que diziam como eles não tinham percebido, quando foram libertados, como a mera visão de uma criança, a ideia de segurar uma criança, eles haviam perdido – não foi algo disponível para eles, por décadas.

E, no entanto, seu poder realmente cresceu durante aqueles anos – e o poder de seus carcereiros diminuiu, porque ele sabia que se você mantém o que é verdadeiro, que se você sabe o que está em seu coração e se você está disposto a se sacrificar por isso, mesmo enfrentando chances mínimas, mesmo que isso possa não acontecer amanhã, possa não acontecer na próxima semana, possa nem acontecer em sua vida, as coisas podem retroceder por um tempo, mas no final das contas, o que é certo tem poder e não o contrário. A ideia de que a melhor história pode vencer é tão forte quanto o espírito de Madiba pode ter sido, mas ele não teria sustentado essa esperança se estivesse sozinho na luta. Parte da sua motivação vinha do fato de que ele sabia que a cada ano as fileiras de combatentes da liberdade estavam se reabastecendo, homens e mulheres jovens, aqui na África do Sul, no ANC e além; negros, indianos e brancos, do outro lado do campo, por todo o continente, em todo o mundo, que naqueles dias mais difíceis continuariam trabalhando em prol das mesmas ideias.

E é disso que precisamos agora, não precisamos apenas de um líder, não precisamos apenas de uma inspiração, o que precisamos agora é desse espírito coletivo. E eu sei que aqueles jovens, aqueles portadores de esperança estão se reunindo ao redor do mundo. Porque a história mostra que sempre que o progresso é ameaçado, e as coisas que mais nos preocupam estão em questão, devemos ouvir as palavras de Robert Kennedy – falando aqui, na África do Sul, ele disse: “Nossa resposta é a esperança do mundo: é confiar na juventude, é confiar no espírito dos jovens “.

Então, os jovens que estão na plateia, que estão ouvindo, minha mensagem para vocês é simples: continuem acreditando, continuem marchando, continuem construindo, continuem levantando sua voz. Toda geração tem a oportunidade de refazer o mundo. Mandela disse: “Os jovens são capazes, quando despertados, de derrubar as torres da opressão e levantar as bandeiras da liberdade”. Agora é um bom momento para ser despertado. Agora é um bom momento para se animar.

E aqueles de nós que se preocupam com o legado que nós honramos aqui hoje – com igualdade, dignidade, democracia, solidariedade e bondade –, aqueles de nós que permanecem jovens no coração, se não no corpo, temos a obrigação de ajudar nossos jovens ter sucesso. Alguns de vocês sabem, aqui na África do Sul minha Fundação esteve convocando nos últimos dias duzentos jovens de todo o continente que estão fazendo o trabalho duro de buscar mudanças em suas comunidades; que refletem os valores de Madiba, que estão preparados para liderar o caminho.

Pessoas como Abaas Mpindi, um jornalista de Uganda, que fundou a Media Challenge Initiative, para ajudar outros jovens a obter o treinamento necessário para contar as histórias que o mundo precisa saber.

Pessoas como Caren Wakoli, uma empreendedora do Quênia, que fundou a Emerging Leaders Foundation para envolver os jovens no trabalho de combater a pobreza e promover a dignidade humana.

Pessoas como Enock Nkulanga, que dirige a missão African Children, que ajuda crianças em Uganda e no Quênia a obterem a educação de que precisam e, em seu tempo livre, defende os direitos das crianças em todo o mundo e fundou uma organização chamada LeadMinds Africa, que faz exatamente o que o nome diz.

Quando você conhece essas pessoas, fala com elas, elas lhe dão esperança. Elas estão tomando o bastão, elas sabem que não podem simplesmente descansar sobre as realizações do passado, até mesmo as realizações daqueles tão importantes quanto Nelson Mandela. Elas estão sobre os ombros daqueles que vieram antes, incluindo aquele jovem negro nascido há 100 anos, mas eles sabem que agora é a vez deles fazerem o trabalho.

Madiba nos lembra que: “Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, de sua origem ou de sua religião. As pessoas precisam aprender a odiar e, se aprenderam a odiar, podem aprender a amar, porque o amor vem mais naturalmente ao coração humano “. O amor vem mais naturalmente ao coração humano, vamos nos lembrar dessa verdade. Vamos ver isso como nossa estrela guia, vamos nos alegrar em nossa luta para fazer essa verdade se manifestar aqui na terra para que daqui a 100 anos as futuras gerações olhem para trás e digam: “eles mantiveram a marcha, é por isso que vivemos sob as novas bandeiras de liberdade “.

Muito obrigado, África do Sul, obrigado.