Por que os homens também precisam do feminismo?

Homem não chora, não leva desaforo para casa e sempre corre atrás de mulher. Essas regras do que é ser homem têm nome: masculinidade tóxica

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"Homens precisam se desconstruir", disse o ator Terry Crews recentemente. No ano passado, ele relevou ter sofrido assédio sexual em Hollywood

Terry Crews carrega todo o estereótipo do mundo masculino: alto, forte, ex-jogador de futebol americano e bem-sucedido na carreira de ator em Hollywood (representou o pai de Chris, no seriado Todo mundo odeia o Chris).

Cresceu vendo o pai bêbado chegar nervoso em casa depois de um dia exaustivo de trabalho – e prometeu nunca ser aquele cara. Mas por anos reagiu a tudo quase como o pai. Ou como manda a cartilha do comportamento dos homens verdadeiramente homens: com raiva e impaciência. Sem nunca desabar. Sem chorar ou conversar sobre suas fraquezas.

A máscara só caiu quando a esposa se cansou do temperamento de Crews. Foi a primeira vez que considerou que talvez ele estivesse agindo errado – e não todas as outras pessoas. Deixou de bancar o durão e de reprimir seus sentimentos. Abriu tanto a mão do “personagem homem” que, no ano passado, contou sobre um episódio em que foi vítima de assédio sexual pelo agente Adam Venit.

“Nós absorvemos as lições do mundo: seja bravo. Seja forte. Não mostre fraquezas. Não tenha dó. (…) Orgulho masculino é como andar na borda do lado de fora de um prédio – até cair e morrer”, conta em seu livro Manhood: how to be a better man or live with one (Masculinidade: como ser um homem melhor ou viver com um, em tradução livre).

“Eu andei assim por mais de 41 anos. Pensando que aquilo era masculinidade. Tendo medo da morte, sem nunca admitir. Gritando e sendo bravo com todos, como se eu estive me segurando ali fora do prédio, porque, psicologicamente, eu estava.”

Crews faz parte de um meio que dissemina todo esse estereótipo. Desde cedo, os meninos aprendem com os filmes de ação que homens sempre seguram a barra. A maioria dos papéis de super-heróis cabe a eles, que bancam a casa, salvam o dia e têm sempre os sentimentos sob controle. Afinal, homem não chora. Nem deixa uma mulher passa despercebida por seus olhares – as comédias reforçam esse papel mulherengo do universo masculino.

Menos que isso só pode indicar uma coisa: o sujeito deve ser gay. Qualquer papo sobre sentimento vira algo feminino. E homens femininos, mais sensíveis, só podem ser gays. “Nós não temos o costume de falar sobre sentimentos entre amigos homens. A maioria se abre com a esposa ou companheira. Ou psicóloga”, conta o estudante Caio César, de 23 anos, que faz parte do MEMOH, um grupo voltado para homens que promove o debate sobre masculinidades e machismos.

Depois de uma dessas rodas de conversa, Caio postou em suas redes sociais uma questão: você, homem, consegue listar três pessoas com as quais se sente a vontade para se abrir ou pedir ajuda? “As respostas foram bem parecidas com a minha, de que realmente não conseguimos fazer essa lista. Recebi centenas de respostas e os que conseguem citam a companheira, psicólogas, quase sempre uma mulher”, relata Caio.

Isso porque, entre rodas masculinas, a resposta termina em tiração de sarro. O rapper americano 50 cent (Curtis James Jackson) satirizou o depoimento de Crews no Senado, no final de junho, cobrando do ator uma atitude melhor do que “congelar de medo”. Ou pedindo, em outras palavras, a ele para agir como homem (ou seja, com briga).

Esses comportamentos tão comuns entre homens, essa necessidade em se provar suficientemente homem o tempo todo, têm nome: masculinidade tóxica. Tóxica, também e muitas vezes principalmente, para as mulheres, que sofrem com assédio, violência doméstica e viram vítimas fatais da agressividade deles.

Só para se ter ideia, na Inglaterra, quando a Seleção perde, o número de casos de violência doméstica cresce quase 26%. Homens bêbados e dominadores reagindo como manda a cartilha da masculinidade: com violência. Isso sem contar as altas taxas de assédio e violência sexual e feminicídio. Uma enxurrada de estatísticas comprovam isso. Veja:

– 95% dos homicídios são cometidos por homens
– 10 vezes mais homens morrem pela violência do que mulheres
– O número de homens que cometem suicídios é quatro vezes maior do que o de mulheres
– 70% das mortes, entre pessoas de 20 na 59 anos, acontecem com eles. E a maior causa de morte é acidente de trânsito ou lesões causas durante ou depois de brigas

Ser homem como manda o “manual” é perigoso. E solitário, segundo eles mesmos. Para citar outro dado: uma pesquisa da ONU Mulheres revelou que 66% dos homens não contam aos amigos sobre o que realmente sentem – e 57% gostaria de ter uma relação mais próxima e mais aberta com eles.

No fim da história, essas regras machucam os dois lados – ainda que sejam eles os opressores. E o feminismo, que luta pela igualdade de gêneros, dialoga com esses homens, ainda que travem batalhas diferentes.

Se, de um lado, as mulheres querem a tranquilidade de andarem por aí sem serem assediadas, com a roupa que bem entenderem, alguns homens querem que outros não os incomodem por não serem assediadores. Querem ser livres sem serem julgados. E sabem que, para isso, também precisam vencer os próprios machismos.