Abiy Ahmed, um sopro de liberdade na Etiópia

Desde que chegou ao poder, em abril, o jovem primeiro-ministro eletrizou o país com seu estilo informal e sua energia

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Ahmed (à direita), de 41 anos, conduziu de forma harmoniosa um acordo com a Eritreia de Afwerki. Foto:MICHAEL TEWELDE/afp

As bandeiras dos dois países flutuavam altivas e coloridas. Os dois líderes acenavam para a multidão entusiasmada. As reuniões formais estendiam-se, em meio a demonstrações exageradas de amabilidade. Até os oficiais de segurança, de feições duras, pareciam descontraídos.

O encontro de Abiy Ahmed, 41 anos, o primeiro-ministro da Etiópia, com Isaias Afwerki, 71, presidente da Eritreia, em Adis-Abeba deixou sem fôlego os observadores tarimbados da África. “O ritmo disso é simplesmente surpreendente”, afirma Omar Mahmood, do instituto de Estudos para a Paz e Segurança na pujante capital etíope.

A reunião entre Abiy e Isaias terminou com uma intensa disputa diplomática que parece ter posto fim a um dos mais antigos conflitos do continente. “As palavras não podem exprimir a alegria que sentimos agora”, disse Afwerki, enquanto almoçava com Ahmed. “Somos um só povo. Quem esquecer isso não entende a nossa situação.”

Muitos etíopes manifestaram sua felicidade nas redes sociais. Os acontecimentos dos últimos dias entre a Etiópia e a Eritreia são como a queda do Muro de Berlim. Só que ampliada mil vezes, escreveu Samson Haileyesus. A reação na Eritreia foi igualmente de êxtase.

Analistas dizem que essas hipérboles talvez se justifiquem. A aposta na paz com a Eritreia é apenas o último de uma série de esforços que poderão trazer a reforma revolucionária ao segundo país mais populoso da África, transformar a região e enviar abalos sísmicos do Mediterrâneo ao Cabo da Boa Esperança.

Desde que chegou ao poder, em abril, Ahmed eletrizou a Etiópia com seu estilo informal, seu carisma e sua energia, e tem sido comparado a Nelson Mandela, Justin Trudeau, Barack Obama e Mikhail Gorbachev. Ele remodelou o gabinete, demitiu uma série de servidores públicos polêmicos e até então intocáveis, incluindo o diretor do serviço prisional do país, suspendeu proibições a sites da web e outras mídias, libertou milhares de prisioneiros políticos, ordenou a privatização parcial de enormes empresas estatais, pôs fim ao estado de emergência imposto para conter a inquietação generalizada e retirou três grupos de oposição de uma lista de organizações “terroristas”.

Nic Cheeseman, especialista em política africana na Universidade de Birmingham, disse que a campanha extraordinária de Ahmed foi um teste do argumento de que só governos repressivos podem garantir os níveis de desenvolvimento desesperadamente necessários em toda a África.

Apesar da previsão do Fundo Monetário Internacional de que a Etiópia, que contou durante décadas com um modelo econômico centralizado e repressão política, seria a economia de crescimento mais rápido na África subsaariana em 2018, até a mídia oficialmente sancionada admitiu as sérias dificuldades do país.

Há escassez de moeda estrangeira, uma desigualdade crescente, falta de empregos para grande número de formados, danos ambientais, tensões étnicas e uma profunda fome de mudanças.

Diferentes grupos de interesse uniram-se nos últimos anos para constituir um poderoso poço de descontentamento, com protestos generalizados contra o governo liderados por jovens. Ao menos 70% da população tem menos de 30 anos.

“A Etiópia estava à beira do abismo. Eles perceberam que não podem continuar do mesmo velho modo. Só um sistema democrático avançado impediria o país de se despedaçar em um desastre que a África nunca viu”, disse Andargachew Tsege, um cidadão britânico inesperadamente perdoado em maio depois de quatro anos no corredor da morte sob acusações de terrorismo. Ahmed convidou Tsege, sequestrado pelos serviços de segurança etíopes há quatro anos, para uma reunião dois dias depois de sua libertação. Eles conversaram durante 90 minutos.

Ninguém afirma que Afwerki, o governante “duro e rígido” da Eritreia desde 1991, tenha muitas novas ideias. Um país com cerca de 5,1 milhões de habitantes, a Eritreia é a única nação africana onde não se realizam eleições. Até 5 mil eritreus fogem do país a cada mês, notadamente para evitar o recrutamento militar indefinido. Muitos vão para a Europa. A economia está estagnada há décadas. A ONU acusou o regime de crimes contra a humanidade.

Antigamente uma província da Etiópia que incluía todo o litoral no Mar Vermelho, a Eritreia votou por sua saída em 1993, depois de décadas de luta sangrenta.

O degelo começou no mês passado, quando Ahmed disse que acataria uma decisão apoiada pela ONU e entregaria à Eritreia um território disputado. Analistas dizem que conflitos em toda a região alimentados por essa rixa agora deverão se acalmar.

Por enquanto, as reformas de Ahmed gozam do apoio popular e o endosso crucial de grande parte da Frente Revolucionária Democrática Popular da Etiópia, a coalizão que chegou ao poder em 1991.

Mas há resistência. No mês passado, uma granada foi atirada em um comício organizado para exibir o apoio às reformas na enorme Praça Meskel, em Adis-Abeba. Dois civis morreram. “O amor sempre vence…. aos que tentaram nos dividir, quero dizer que vocês não tiveram êxito”, disse Ahmed depois do ataque.

Muita coisa depende da determinação do líder etíope. Visto como um relativo outsider antes de ser escolhido para o cargo máximo pelo Conselho da Frente Revolucionária, é o primeiro líder da maior comunidade étnica da Etiópia, os Oromo, que se queixam há décadas da marginalização econômica, política e cultural. O Exército Revolucionário está dividido por batalhas entre quatro partidos de bases étnicas, assim como pela feroz concorrência entre instituições e indivíduos.

Nascido no oeste da Etiópia, Ahmed uniu-se à resistência contra o regime de Megistu Haile Mariam quando adolescente, antes de se alistar nas Forças Armadas. Depois de um período à frente do serviço de inteligência cibernética da Etiópia, ele entrou na política oito anos atrás e ascendeu rapidamente nas fileiras da facção Oromo do Exército Revolucionário, que historicamente não se dá com os Tigrayans, que compõem apenas 6% da população total, mas há muito têm uma influência política e comercial desproporcional. Em uma grande ruptura com o precedente, Ahmed foi fotografado com sua mulher e suas filhas, a quem agradeceu em público pelo apoio.