Prêmio da Música Brasileira realiza noite de celebração da negritude

Troféus dados a nomes como Alcione, Leci Brandão, Chico César, o grupo As Bahia e a cozinha mineira e Fabiana Cozza foram uma afirmação da imanência da música negra brasileira

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Alcione se apresenta na 29ª edição do Prêmio da Música Brasileira realizada no Teatro Municipal nesta noite de quarta-feira (15). Cerimônia homenageou Luiz Melodia e contou com a participação de Baby do Brasil, Lenine, Iza, Zezé Motta, Sandra de Sá, Joãoo Cavalcanti, Liniker, entre outros. Foto: Fabio Motta/Estadão

A 29ª edição do Prêmio da Música Brasileira, realizada na noite desta quarta-feira, 15, no Teatro Municipal do Rio, foi uma celebração da negritude. Num tempo em que o debate sobre a persistência do racismo na sociedade brasileira se coloca na ordem do dia, a homenagem a Luiz Melodia (1951-2017), com artistas predominantemente negros cantando seu repertório – Zezé Motta, Áurea Martins, Sandra de Sá, Xênia França, Liniker, Iza, Lazzo, Hamilton de Holanda –, e os troféus dados a nomes como Alcione, Leci Brandão, Chico César, o grupo As Bahia e a cozinha mineira e Fabiana Cozza foram uma afirmação da imanência da música negra brasileira.

Com “Ébano”, Fabiana abriu o palco dando-lhe cores emocionantes. Foi uma resposta da intérprete às críticas feitas por militantes de movimentos negros quando se anunciou que ela seria a protagonista do musical que contará a vida de Dona Ivone Lara (1921-2018). A controvérsia se instalou porque Dona Ivone era negra retinta, e Fabiana é negra de pele mais clara. A cantora voltaria à cena para receber o prêmio por seu CD em espanhol “Ay amor” (categoria álbum em língua estrangeira), com músicas do compositor cubano Bola de Nieve.

“’Ébano’ é uma canção de afirmação, para muito além do que aconteceu comigo. É afirmação da minha negritude, de como eu me vejo. Fala de resistência, de ancestralidade”, disse a cantora ao fim da cerimônia. “O prêmio teve 70% de artistas negros, e isso é muito bonito, especialmente falando de um artista visto como marginal. E ganhei com o repertório de um cubano negro, gay e que sofria preconceito ainda por seu gordo. É através da arte que a gente vai conseguir sair das catacumbas, como disse a Fernanda Montenegro numa entrevista”.

Zélia Duncan, roteirista do prêmio, organizado pelo produtor José Mauricio Machline e apresentado pelas atrizes Camila Pitanga e Debora Bloch, ganhou o prêmio de melhor cantora de MPB, e ratificou, finda a festa: “O Melodia falava sobre ser negro, e era importante que a premiação tivesse isso, num país racista como o nosso.”

Melhor cantora na categoria samba, Leci Brandão apontou que a exaltação da cultura negra é uma arma para se enfrentar o racismo. “A arte é o oposto do retrocesso que vemos todos os dias”, declarou. Escolhido melhor cantor na categoria regional, Mestrinho lembrou que “todo o suingue da música brasileira vem do negro”.

O Prêmio da Música Brasileira conseguiu atravessar diferentes crises econômicas, do País e da indústria fonográfica, e chegar à marca da 29ª edição, mas um feito Machline jamais alcançou: entregar um troféu (uma notação musical estilizada) a Chico Buarque. O compositor, que desde os anos 1990 lança aproximadamente dois discos por década, sempre com múltiplas indicações, ganhou dois, de melhor CD de MPB (“As caravanas”) e melhor música, “Tua cantiga” (alvo de ataques por ser considerada machista por ouvintes feministas). Sem Chico no teatro, foram entregues a seu neto, Chico Brown, e ao parceiro Cristóvão Bastos.

A premiação tem 36 categorias – da “canção popular” (o antigo brega) à música clássica, passando pelo infantil, o erudito e o guarda-chuva “pop/rock/reggae/hip-hop/funk” – e as escolhas são feitas por 20 jurados, críticos de música e artistas. A graça da festa vai além do “quem ganhou em tal categoria”; passa mais pelos números musicais, este ano, caprichados.

As palmas mais sonoras foram para Alcione cantando “Estácio, Holy Estácio” e para a família Veloso – Maria Bethânia, Caetano e os filhos, Tom, Zeca e Moreno, em “Pérola negra”. Melodia, que morreu há um ano, foi lembrado da infância pobre, no Morro de São Carlos, ao sucesso com “Juventude transviada”, “Magrelinha” e “Negro gato”.

Saíram do teatro com dois prêmios: Mario Adnet (como arranjador de “Saudade maravilhosa” e pelo DVD “Jobim orquestra e convidados”), Yamandú Costa (por “Quebranto”, melhor CD instrumental, e como melhor solista), Moacyr Luz (pelo CD “Ao vivo, no Bar Pirajá” e como líder do Samba do trabalhador, escolhido melhor grupo de samba) e Mônica Salmaso (CD regional, “Caipira” e melhor cantora na mesma categoria).

A noite teve breves manifestações políticas. Alguns artistas, como Chico César e Leci Brandão, fizeram uma letra L com uma das mãos, em alusão ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso pela Lava Jato. Ouviram-se gritos de “Lula Livre” e também vaias ao gesto.