‘Simonal’ tem tudo para incendiar o Festival de Gramado

Delação, fake news, racismo, a vida de um artista negro contada por um branco são apenas alguns dos elementos do filme de Leonardo Domingues com Fabrício Boliveira e Isis Valverde

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Cinebiografia. Fabrício Boliveira interpreta Wilson Simonal  Foto: PAPRICA FOTOGRAFIA

Se fosse Brasília, a exibição de Simonal, na noite desta segunda-feira, 20, em competição, teria tudo para incendiar o festival. Um filme com delação, racismo, sobre um artista negro, dirigido por um branco – que mais seria preciso? Mas é Gramado, cidade europeia encravada no sul do Brasil, distante do centro do poder e até da capital gaú-cha. Mas pode haver bochicho, principalmente se o ator Fabrício Boliveira repetir o que disse ao Estado: “A acusação a Simonal foi talvez a primeira fake news atingindo personas públicas no Brasil. O caso envolve racismo, porque era um artista negro e seu sucesso incomodava. E o País inteiro foi na onda e acreditou”.

Boliveira sabe que suas afirmações são tanto mais fortes se forem associadas à história atual, mas não recua – em nome da cidadania e da justiça. O repórter já disse que, se há uma coisa que o cinema brasileiro aprendeu a fazer, foi biografias. Você não deve ter se esquecido de Cazuza, Jean Charles, Tim Maia, Elis – que concorreu em Gramado e premiou a atriz Andreia Horta. Acrescente Simonal à lista. Gramadenses (os nativos) e gramadianos (os de passagem, jornalistas e críticos), preparem-se para o choque. Fabrício Boliveira, Isis Valverde! Ambos já estiveram juntos, e em tórridas cenas de sexo, em Faroeste Caboclo, de René Sampaio.

Quando o diretor Leonardo Domingues dizia que queria a dupla, muita gente (amigos, palpiteiros) questionava, mas ele nunca teve dúvida. “Minha origem é como montador, antes de ser realizador. Montei o filme da Nise da Silveira e pude ver ali o Boliveira em estado bruto. Nada melhor para avaliar um ator do que as cenas que não vão para a montagem final. Sabia que ele seria capaz de fazer o que queria. E a Isis… é gênia! Ela se move em cena com pleno domínio da câmera. Sabe, instintivamente, o que tem de fazer, e sabe sempre onde está a câmera, representa para ela, o que é fundamental no cinema.”

Os dois foram preparados por Sergio Penna, que já havia feito a preparação de Faroeste Caboclo. Boliveira não é louco de querer cantar em cena. “Simonal era um dos maiores cantores do Brasil, do mundo”, disse. Mas era importante, para a dublagem, que atingisse a intensidade de certas notas, “o dó dele”, como diz o ator. O resultado impressiona e, mais importante, quando o diretor põe na tela o Simonal verdadeiro e, depois, volta para Boliveira, o espectador não estranha a quebra porque ‘Roberval’ (da novela O Segundo Sol) é também um grande Simonal.

Talvez o filme tenha começado a nascer na cabeça do diretor quando a produtora da qual era sócio associou-se ao documentário sobre Simonal, de 2009, e Domingues participou da pós-produção. A ascensão e queda meteóricas do artista, sua ligação com os militares, o sequestro do contador e as denúncias de delação de Gil e Caetano, tudo isso era muito perturbador.

Simonal caiu como tinha subido – num rabo de foguete. Não lhe faltaram advertências – a maravilhosa cena com Sílvio Guindane –, mas ele estava deslumbrado consigo mesmo. O filme – olha o spoiler – deixa a gente com vontade de acreditar na inocência dele, mas outras cenas são mais ambíguas, podem manter a dúvida. O que está fora de discussão é que, como artista, performer, era imenso. O filme tem dois espetaculares planos-sequência e o segundo, com Simonal em São Paulo, em pleno programa de TV, é de arrepiar.

Domingues filmou em julho e agosto de 2016 e passou um ano e meio montando. Fez um quebra-cabeças, desistiu. Fez o atual flash-back, e introduziu alguns vaivéns. “Se não tivesse deadline, estaria montando até agora.” Com a palavra, o público, o júri (e a crítica) de Gramado.