No Masp, escultor Melvin Edwards ganha a primeira mostra individual no Brasil

Exposição 'Fragmentos Linchados' recupera uma história de segregação racial nos EUA e cultura africana

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O escultor, Melvin Edwards, de 81 anos, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, para sua primeira mostra individual no País. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Pode-se dizer que o artista americano Melvin Edwards é uma espécie de Charlie Parker da escultura. E é o próprio escultor quem incita a comparação, ao falar que o seu trabalho tem a mesma dinâmica das composições do músico, um dos maiores nomes do jazz mundial. “Como diz Charlie Parker, tudo é música.” Em seu trabalho, Edwards funde, literalmente, elementos do seu cotidiano e das memórias da vida no Texas para falar sobre a sua própria história, sobre suas origens e, principalmente, sobre uma História, com “H” maiúsculo, dos últimos 100 anos nos EUA, que inclui segregação racial e violência contra a população afro-americana.

Aos 81 anos, o escultor ganha a sua primeira exposição individual no Brasil, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, que será aberta ao público nesta quinta-feira, 23. A mostra inclui apenas trabalhos da sua famosa série Fragmentos Linchados, e faz parte do ano temático de Histórias Afro-Atlânticas do museu. Ao todo, são 37 esculturas de parede da série expostas no mezanino do Masp, que datam desde o início da sua carreira, em 1963, e vão até uma peça produzida em 2016.

Todos os trabalhos, a pedido do artista, estão nivelados na altura dos seus olhos e distanciados pelo tamanho de seus braços. É um jeito de passar, ao público, o seu ponto de vista sobre alguns temas importantes da sua obra. Edwards continua em atividade até hoje, e veio ao Brasil para a abertura.

Não é, no entanto, a primeira vez no Brasil. O artista já esteve por aqui na década de 1980, para acompanhar a falecida esposa, Jayne Cortez. Na época, produziu Palmares, escultura que está na exposição, junto a obras que remetem também à religiosidade africana, refletida nas Américas. “Mesmo antes de vir, já tinha interesse no Brasil, pela obra de Portinari.”

Numa época de segregação racial no sul dos EUA, o escultor conseguiu uma vaga para estudar arte na Universidade do Sul da Califórnia. Fazia, majoritariamente, pinturas e desenhos. “Vi alguns alunos graduados fazendo trabalhos em aço e aquilo me encantou”, relembra. Naquele momento, o estudo de arte não incluía esculturas. “Pedi para um deles me ensinar, tive uma ou duas aulas, mas todo o resto aprendi sozinho.”

Seus primeiros trabalhos foram justamente o início da série Fragmentos LinchadosHis (Dele), de 1963, que abre a exposição no Masp, é uma referência à violência praticada contra homens afrodescendentes nos tempos de segregação. A mutilação genital era praticada com a intenção de inibir a reprodução de pessoas negras. Outras obras da época também tratam do mesmo tema, como Hers (Dela) His and Hers (Dele e Dela).

Melvin Edwards
Obras de Melvin Edwards na exposição ‘Fragmentos Linchados’, no Masp. Objetos comuns da vida no Texas, como pás e machados, são fundidos nas esculturas do artista. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

“A série começa em 1963 com críticas sociais”, explica o curador da exposição, Rodrigo Moura. “A partir dos anos 70, passa a receber referências pessoais e biográficas, que o aproximam do continente africano.” Depois de muitas idas à África, Edwards decidiu instalar um estúdio no Senegal, já nos anos 2000. Alguns trabalhos mais recentes da exposição foram produzidos lá.

“São trabalhos de seis décadas. Esta é a maior exposição da série Fragmentos Linchadosfora dos EUA”, acredita Moura. “A obra de Edwards é um apanhado de histórias afro-atlânticas e se insere muito bem na programação do museu.”

Violência hoje

A realidade racista em que Edwards cresceu parece distante, mas ainda hoje, com movimentos sociais como o Black Lives Matter, que protestam contra a morte de negros nas mãos da polícia, a população afro-americana ainda precisa lutar contra a violência e por direitos civis. “A sociedade muda muito lentamente”, opina o artista. “Você pode mudar as leis hoje, mas mudar a cabeça das pessoas é um processo mais lento.” O escultor, porém, é otimista e torce pela paz. “Em 1960, 1950 parecia muito pior.”

Uma das obras do artista que estão no Masp, Ogun Again, de 1988, faz referência ao orixá da mitologia iorubá, conhecido como o senhor da guerra. “É como dizem, Ogum mata o que está à direita e o que está à esquerda. Numa guerra, morrem pessoas dos dois lados.” Para Edwards, suas esculturas em aço são a prova de que o homem pode utilizar suas ferramentas para o bem ou para o mal. “Todos nós precisamos de armas para sermos livres, mas elas não precisam ser de fogo.”

O artista, que tem uma vasta carreira e reconhecimento por suas contribuições nas cenas de Nova York e Los Angeles, tem vários trabalhos em desenho, esculturas de larga escala e instalações. Mas o motivo da série, que iniciou sua carreira, continuar por mais de 50 anos, é justamente a presença, ainda hoje, de violência contra a população, além do maior contato de Edwards com a cultura africana.