A síndrome do negro único na moda

A consultora de estilo Paloma GS Botelho* fala sobre racismo e inclusão social na moda, a partir de suas experiências pessoal e profissional

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Supermodelos Carla Bruni, Claudia Schiffer, Naomi Campbell, Cindy Crawford e Helena Christensen em desfile da Versace REUTERS/Stefano Rellandini

Ao longo da minha vida estudantil frequentei escolas, colégios e universidades particulares, espaços pouco frequentados por pessoas da pele preta, como eu. Portanto, eu convivia, diariamente, com pessoas não negras. O convívio com pessoas da minha cor era familiar. Da fase infantil até o início da adolescência, estudei durante dez anos no mesmo colégio e até hoje lembro o nome de todos os coleguinhas negros que estudavam lá. Não eram muitos, talvez tivesse um ou no máximo dois em cada série. O percurso da vida profissional também não está sendo diferente. Dentro do mercado da moda poucos negros estão em lugar de destaque. Você já ouviu falar na síndrome do negro único? Não? Mais abaixo explico sobre o termo. De qualquer maneira, era como me sentia e ainda me sinto na sala de aula, pois nos dias de hoje ainda é assim: sou a única estudante negra numa turma de onze alunos. Assunto que me levou a escrever este texto.

O meu próprio modo de vestir se materializa nas formas e possibilidades de construção do meu corpo e da valorização da minha estética. Nunca fui de acompanhar as tendências ou os estilistas badalados ou a peça must have ou a modelo revelação da temporada. Em contrapartida me antecipava às tendências da moda, me destacando, visualmente, entre meus amigos. Hoje entendo que este fato se deve, não somente, ao meu gosto pelo ousado, inovador e único, mas como também, pela representação da minha identidade, minhas origens, raízes e ancestralidade afro brasileiras. Por interpretar estilo e corpo como plataformas de comunicação, expresso meus sentimentos, desejos, objetivos evidenciando meus atributos através da minha própria moda vestida de acordo com o meu estado de espírito, que se renova todos os dias. Aprendi com minha família a importância do “vestir-se bem” para uma pessoa de pele preta. Uma auto apresentação imagética para além da vaidade e do poder aquisitivo; uma forma de autodefesa, uma armadura de proteção perante uma cidade racista e genocida do povo negro. Por diversas vezes as minhas indumentárias receberam convite para eventos, por algumas vezes oportunidades se concretizaram por causa delas e, por fim, já fui “salva” do racismo por elas. Portanto eu e minhas roupas mantemos uma relação afetiva carregada de companheirismo, cumplicidade, amor, respeito e admiração. Foi inserida nesse contexto que há trinta e três anos iniciei minha relação com a moda.

Graças aos avanços das redes sociais, nos últimos anos vivemos em momentos de avanços e retrocessos em relação a representatividade negra. Ao mesmo tempo que temos visto a presença de pessoas negras nos espaços sociais mais populares, antes negados a nós: televisão, mercado publicitário e da moda, ainda vivemos a síndrome da representatividade única, sendo que segundo os dados do IBGE de 2016 mais de 54% da população brasileira se autodeclara preta ou parda. Ou seja, nem deveríamos estar reivindicando visibilidade. Porém no Brasil, o país mais negro fora da África em número, pretos e brancos não partem do mesmo lugar. Em pleno 2018, 130 anos pós abolição da escravatura, ainda somos um povo atingido pela violência, afetado pelo desemprego e pela desigualdade. Dentro deste cenário o termo ‘síndrome do negro único’, nada mais é do que ter somente uma pessoa negra fazendo o papel da representatividade nos espaços, como se esta pessoa preta representasse ou falasse por todos os demais e bastasse. Por exemplo: temos uma grande jornalista negra na mídia; um médico; um jurista; uma professora; uma escritora; um dentista; um estilista; uma cientista e por aí vai. Uma… Um… Uma…Um… e somos metade da população brasileira. A conta não fecha!

Recentemente fiz um curso chamado “A moda como estratégia de visibilidade étnico-racial” e entre os debates ao longo do curso, um que surpreendeu os alunos, majoritariamente negros, foi o comentário da organizadora (uma pessoa não negra) dizendo que durante uma pesquisa procurou trabalhos acadêmicos sobre moda com a temática negra ou afro-brasileira e encontrou somente cinco unidades. Como a maioria dos participantes ali presentes são acadêmicos, houve um questionamento sobre a tal quantidade. Entendemos que a maneira como nós negros criamos e consumimos moda é diferente da ótica imposta aos nossos povos pela cultura ocidental e europeia, portanto utilizamos outras nomenclaturas para denominar termos comuns do mercado como: roupa, estilo, vestimenta e a própria palavra moda. Fazendo com que a academia, formada por um corpo docente de pessoas não negras, não reconheça as culturas afro e afro diaspóricas como pertencentes ao universo da moda. Por fim, nos foi questionado de que jeito poderia contribuir para reverter a situação da invisibilidade negra no mundo da moda e eu respondi: “Contratando profissionais negros para atuarem no mercado. Somos diversos em ideias, pensamentos e capacitações para ocuparmos tais lugares. Até mesmo porque a moda sempre se apropriou das culturas africanas e afrobrasileiras sem nos dar os devidos méritos por isso. Enquanto a nossa história continuar sendo contada por pessoas não negras, a nossa ausência em toda a cadeia profissional do mercado da moda continuará sendo uma problemática, pois existem memórias e particularidades das nossas histórias conhecidas somente por nós”. E digo mais, quando falo da representatividade do corpo negro, não visualizo somente a passarela e o chão de fábrica, incluo também, produtor, consultor, stylist, pesquisador, criativo, jornalista, educador etc.

Concluindo, dentro da universidade já ouvi de docentes e profissionais da área da moda, as tais frases: “Mas não têm muitos modelos negros”; “Que absurdo cota para modelos negros desfilarem”; “Não conheço nenhuma stylist negra”; “Não existem profissionais negros nesta área”. A minha resposta para cada frase dita acima é: “Nós negros somos seres vivos! Falamos, pensamos, criamos, estudamos, trabalhamos, em todos os graus de competência. Portanto existimos! O que na maioria das vezes nos falta é oportunidade e investimento”. Por essas e outras lógicas, características do imaginário colonial, acredito que ser uma profissional mulher, preta e lésbica na moda é ter sempre em mente as palavras: (re)existência, atitude e autenticidade. Sendo assim, a pergunta que fica é: Profissionais negros na moda: não existem ou a moda os invisibiliza ou a moda os enxerga quando quer? De qualquer modo, eu e vários outros pretos estamos provando o contrário, desassociando a imagem estereotipada, exótica e primitiva imposta a nós pessoas da pele preta e nos colocando no lugar de fala, nos introduzindo nos espaços criativos e nos empoderando.

*Paloma GS Botelho, é consultora de Estilo Pessoal e Stylist; graduada em Comunicação; especializada em Coolhunting; pós-graduanda em Construção de Imagem e Styling de Moda e à busca de ser um raio de sol.